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“É preciso dar atenção a toda a gente“

FOTO: Diana Familiar
FOTO: Diana Familiar
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A quinta-feira é o dia de ler, cantar e de tudo o que o utente quiser no Lar de São Manuel na Santa Casa da Misericórdia em S. João da Madeira.
O labor chegou mesmo na hora em que o grupo de idosos e as duas voluntárias, Agostinha Cardoso e Dalva Martins, estavam a entrar para a sala.
“Nós fazemos atividades que vão um bocado ao encontro do desejo deles e que permitam ter uma autoestima positiva e elevada. A atividade tem uma parte religiosa, cânticos, orações por aqueles que partem ou que têm familiares doentes, leituras que vão ao encontro das necessidades deles para promover o gosto de estar vivo, ativo e de ser útil no espaço em que se encontra e em relação a quem mais precisa“, contou Dalva Martins ao labor.
O grupo estava todo o sentado e estava tudo a postos para começar uma nova sessão até que uma senhora atende o telemóvel, outra não sabe do porta moedas e uma terceira resmunga certamente pelo facto de não começar a atividade. Mas logo Agostinha Cardoso diz: “é preciso dar atenção a toda a gente“.
O encontro começa com Agostinha Cardoso a ler pequenas passagens em que destacamos as frases: "Sê forte e corajoso", "Não se deve deixar vencer pela adversidade e pela dor", "Se não for otimista e alegre é uma tristeza. Estarmos bem connosco e com os outros é estarmos em paz" e "Faça o bem sem pensar na recompensa. É o que nos faz feliz" do livro “Minutos de Sabedoria“ de Carlos Torres Pastorinho. A seguir, a voluntária diz-lhes: "A melhor coisa que me podem dar a mim é um sorriso nos lábios" e todos sorriem.
Num outro momento de leitura pela voz de Dalva Martins destaque para as frases: "Eu sou o espírito", "Um mundo seguro", "Nada muda de um dia para o outro, mas se formos persistentes as coisas podem acabar por mudar" e "Vamos abrir os corações" a todas as pessoas. A seguir um cântico sobre a paz e a importância de levar "a paz ao coração do homem", durante o qual uma das senhoras do grupo diz: “Os homens não têm coração“, o que desperta sorrisos em alguns e expressões mais sérias noutros, principalmente nos homens.
O encontro continua com cânticos à Nossa Senhora, intercalados com leituras e novamente com cânticos, desta vez, populares. Entre estes momentos, Agostinha e Dalva vão junto de um e outro utente sempre com um toque e uma atenção, um tão pouco que significa muito.
A voluntária Agostinha Cardoso tem 72 anos e antes de se reformar era administrativa no Centro de Saúde S. João da Madeira e um rosto conhecido de muitos dos utentes da Santa Casa da Misericórdia. O voluntariado é um dos compromissos do seu dia a dia há nove anos. Tudo começou quando a sua mãe teve de ser internada na Misericórdia. Uma senhora muito católica que ia todos os dias à missa e teve durante 40 anos a chave da Capela de Santo António. Agostinha Cardoso visitava todos os dias a mãe e acabou por receber o convite para ser voluntária na Misericórdia. Ela aceitou e até recebeu aconselhamento de uma psicóloga sobre como interagir com os idosos. Agostinha Cardoso começou sozinha, mas conta com a companhia de Dalva Martins há quatro anos.
O convite partiu de Agostinha e Dalva Martins disse que sim pela “vontade de partilhar algum do meu tempo de forma positiva ao próximo“, contou ao labor.
“O meu voluntariado começou desde pequena com os meus pais a partilhar com os outros aquilo que não tinham“, confessou a voluntária.
“Eu sempre cuidei dos meus meus familiares e não familiares que eram clientes na mercearia dos meus pais. Desde levar comida, chamar o médico, a fazer limpeza a fundo nas suas casas, até a dormir com senhoras que ficavam viúvas até aos momentos mais dificieis familiares e mesmo sem ser familiares“, confidenciou Dalva Martins.
Para a voluntária o voluntariado é sinónimo de felicidade. Por isso, uma das frases que gostou, comprou ainda antes de ter filhos e tem em sua casa é: "O mais feliz dos felizes é aquele que faz os outros felizes".

“Os doentes são muito bem cuidados, mas falta-lhes a companhia da família“

A experiência de uma e de outra voluntária, semana após semana, permite-lhes dizer que os lares são instituições necessárias, mas não sem a presença da família.
“Os doentes são muito bem cuidados, mas falta-lhes uma coisa, falta-lhes a companhia da família“, afirmou Agostinha Cardoso, acreditando que “se eles tiverem a companhia dos familiares são muito mais felizes“. Como “muitos, não todos, não têm a visita de família, nós fazemos o papel dessa família ausente“, assumiu a voluntária ao labor.
Tanto Dalva Martins como a irmã visitavam todos os dias a mãe no lar da Misericórdia. “A nossa mãe não falava, mas líamos todos os dias para ela, rezávamos o terço e cantávamos para ela. Todos os que estavam junto dela participavam e eram como uma família“, relembrou a voluntária, estes pequenos momentos que demonstravam “o quão bom era alguém que os despertava para a importância de estarem vivos“.
A continuação das voluntárias a fazer voluntariado está mais do que garantida. “Sinto-me muito melhor agora e enquanto tiver saúde vou continuar. Nós precisamos deles e eles de nós. Isto é uma interajuda fantástica. Saímos daqui de coração cheio“, revelou Agostinha Martins. “É preciso que as pessoas desde pequenas entendam que as coisas materiais não são as que têm valor“, completou Dalva Martins ao labor.
As duas voluntárias são responsáveis pelas sessões de quinta-feira e estão disponiveis para outras atividades da instituição sanjoanense.

“Não se é pago monetariamente, mas espiritualmente“

Na sala ao lado estavam outros dois voluntários na mesma instituição à espera para conversar com o labor.
Encontrámos Maria do Céu Barbosa, 60 anos, aposentada depois de ter sido funcionária pública na área da justiça no Porto, e Manuel Silva, mais conhecido como Manuel Nunes, 66 anos, aposentado depois de ter sido, na maior parte do tempo, empregado de escritório.
Maria do Céu passou a conhecer o interior de uma instituição que até então apenas conhecia de nome depois do internamento da mãe na Unidade de Cuidados Continuados da Misericórdia. Entretanto, a mãe faleceu. O vínculo com a Santa Casa da Misericórdia continuou. A realidade da reforma tomou forma há dois anos e decidiu nessa altura apresentar-se disponível para fazer voluntariado. E assim foi. “Comecei só com o bingo, depois convidaram-me a acompanhar os jogadores aos treinos e jogos de Boccia Sénior e a animadora sociocultural incentivou-me a fazer um curso de árbitra para esta mesma modalidade na Faculdade de Ciências da Universidade de Ciências e Desporto do Porto“, contou Maria do Céu ao labor.
E há mais de um ano que a voluntária, antiga funcionária pública na área da justiça, tornou-se árbitra da modalidade de Boccia. “Corre muito bem. Não é muito complicado. Há muitas mulheres árbitras portuguesas internacionais. Nunca imaginei que iria ser árbitra. Quando vim para aposentação precisava de arranjar algo para preencher o tempo e agora tenho a maior parte do tempo preenchido com o voluntariado“, admitiu a vountária ao labor.
No caso de Manuel Silva o “bichinho“ do voluntário apareceu com a mãe que sempre foi dedicada ao voluntariado. O que ele precisava era de um “empurrão“ que foi dado por Maria do Céu Barbosa. Manuel Silva é jogador de Boccia, também é árbitro, ajudante e responsável na ginástica. Já Maria do Céu tem o Bingo e o Atelier de Beleza. Ambos estão na Hidro Sénior e nos passeios.
Além disso, estiveram na Cruz Vermelha e estão inscritos no Banco Local de Voluntariado e no Banco do Tempo de S. João da Madeira.
“A vida é totalmente diferente. Antes passava uma vida muito monótona e refugiado no campismo, agora a vida é mais ativa e mais alegre com contacto com as pessoas. Um tipo de vida completamente diferente“, assumiu o voluntário. “O único pagamento que aceitamos é a espontaneidade e o agradecimento das pessoas que o recebem. O reconhecimento deles“, reagiu Manuel Silva.
“Quando trabalhava não me imaginava como voluntária. Nunca tinha pensado nisso. O voluntariado é um projeto dignificante em que é muito bom lidar com as pessoas“, onde “não se é pago monetariamente, mas espiritualmente“, descreveu Maria do Céu ao labor.

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