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Entrevista a Andreia Magalhães, diretora do Núcleo e do Centro de Arte de S. João da Madeira

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" A comunicação faz-se com a comunidade"

FOTO: Rui Guilherme
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Entrevista a Andreia Magalhães, diretora do Núcleo e do Centro de Arte de S. João da Madeira

O que a levou à formação em artes?
Não sei. Na altura tinha que decidir entre arquitetura, filosofia ou veterinária. Achava que arquitetura ia ser complicado, veterinária era o que queria, mas não sabia se tinha estofo para conseguir. Era muito boa aluna a Humanidades, gostava muito de filosofia, mas pensei se calhar não vou seguir filosofia porque nunca quis ser professora. Então, na altura em que tive de me candidatar à licenciatura havia um curso que era gestão das artes. Os testes psicotécnicos deram que devia trabalhar com arte. Então escolhi a licenciatura em História de Arte sabendo que queria trabalhar em museus. Depois comecei a trabalhar e percebi que queria trabalhar com arte contemporânea, também com cinema, a pensar nos cruzamentos possíveis.

Nunca teve receio em ter de trabalhar com arte seja cá ou no estrangeiro?
Não. Sempre mente aberta porque faz parte de um caminho. Foi sempre esperar pelos momentos que foram certos e perceber que havia um caminho a percorrer e que havia uma série de coisas que me interessava.
Sabia que não queria estar toda a vida a trabalhar no mesmo museu. Então fui tentando. Umas vezes correu melhor, outras piores. Mas faz parte.

"Achei que era extraordinário que fosse tão desconhecido"
A Andreia iniciou funções como diretora do Núcleo e Centro de Arte há pouco mais de um mês. Já conhecia S. João da Madeira?
Conheci por causa do Núcleo (de Arte da Oliva). Conhecia o Núcleo e o Centro (de Arte) pelas atividades que a anterior diretora (Raquel Guerra) tinha desenvolvido cá. Na altura pensava que ambas eram a mesma instituição. Conhecia esta parte das exposições e conhecia o Centro de Arte onde eram feitas as conversas. Conhecia, mas não conhecia a fundo.

Enquanto visitante o que achou do Núcleo de Arte?
Achei que era extraordinário que fosse tão desconhecido. Achei surpreendente que um espaço com tantas capacidades para exposições estivesse tão perto do Porto e tão poucas das pessoas que conheço cá viessem e conhecessem este projeto.

O mesmo aplica-se ao Centro de Arte?
Sim.

"Tentar criar uma ligação mais forte entre o que é o serviço educativo do núcleo e a formação artística do centro"
Já há um Programa Educativo/Atividades para o Núcleo e Centro de Arte em 2017/2018?
Estamos a trabalhar nisso. Cheguei há um mês. Então num mês o que estive basicamente a fazer foi a tentar resolver vários assuntos que estavam pendentes. Estive a dar resposta a vários pedidos de empréstimos, a conhecer a equipa, o Núcleo e o Centro de Arte e a começar a perceber qual vai ser o calendário de atividades, de exposições e de serviço educativo. O que lhe posso dizer é que a equipa de serviço educativo que é uma equipa de monitores que trabalha com o Núcleo há algum tempo, mas com um caráter externo em que basicamente prestam um serviço de visitas e oficinas, mas queria que houvesse a partir de agora uma ligação de serviço educativo mais forte. Então o que estou a trabalhar com estes monitores é num programa para o próximo ano letivo e também para o Verão. Ainda não está terminado. Estamos a trabalhar em novas oficinas e em formas de as comunicar e vamos de facto começar a trabalhar mais proximamente com as escolas. Tenho mais alguns outros projetos que têm uma natureza mais educativa, mas são projetos que, pela sua ambição e pela sua durabilidade, não vão ser implantados já. Para já estamos a manter as oficinas e a fazer com que sejam mais ativas. Dentro do serviço educativo vou tentar criar uma ligação mais forte entre o que é o serviço educativo do Núcleo e a formação artística do centro. Parece-me que precisamos de criar uma sinergia, uma aliança de duas instituições parceiras, vizinhas e que partilham a mesma direção. Tornar as coisas mais próximas.

Alguma novidade na oferta formativa do Centro de Arte?
Está em reformulação. Vai continuar com os cursos que tem tido, mas como lhe dizia, já no Verão queria ter uma oferta formativa que poderá ocorrer a partir do Centro de Arte. Mas que é mais educativa, mais orientada para os miúdos. Para já estou a preparar essa frente. Queria que houvesse alterações obviamente. Se calhar no formato dos cursos, se calhar fazer mais workshops e usar as oficinas que estão bem equipadas.

"Gostava que tivesse uma identidade visual mais definida e mesmo o próprio exterior do edifício"
O que é que está a falhar para que estes espaços com potencialidades não sejam conhecidos?
A comunicação. Neste momento, uma missão é trabalhar a comunicação. A comunicação faz-se com a comunidade. Mais proximamente dos professores, dos empresários e conhecer as circunstâncias e comunidade em que estamos. Se calhar começar a pensar em alguns programas com os antigos trabalhadores da Oliva.
Há aqui muito por explorar, muito por fazer. Agora tem que ser por fases. Temos de ser realistas e pragmáticos. Um dos nossos objetivos é este ano começarmos a apostar mais no serviço educativo e apostar mais na comunicação. E essa comunicação passa por ter um programa mais definido a longo prazo das exposições que seja coerente, mas também que seja ambicioso porque estas coleções são muito boas. Podemos ter uma programação além destas exposições. Outra parte de comunicação tem a ver com a identidade visual do núcleo que também gostava muito de trabalhar. Gostava que tivesse uma identidade visual mais definida e mesmo o próprio exterior do edifício. O interior acho que está ótimo. O exterior quem está na rua ou passa na alameda não percebe o que há aqui. Então estamos a iniciar uma campanha de comunicação que tem a ver com a própria comunicação e imagem do espaço. Vai passar pela criação de um site e por toda uma estratégia de entidade visual que se vai fazer no exterior do edifício.

"Se calhar até o próprio nome vai ser diferente, mas não sabemos"
Que ideias tem para o exterior do edifício?
Identificar o Núcleo. Tirar partido desta localização do Núcleo muito próxima de outros núcleos museológicos. Incluir o Núcleo num circuito mais básico que o do Museu da Chapelaria e do Calçado. A própria questão do Turismo Industrial e que também tem a ver com toda uma requalificação urbana que todo este espaço está neste momento a sofrer. O espaço está em mutação. Se calhar até o próprio nome vai ser diferente, mas não sabemos.

O projeto "Normativos? Talvez...não" começou a 14 de setembro de 2016 no Núcleo, resultando de uma parceria com o Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga.
Ele é orientado por uma das monitoras que é a Constança Araújo Amador e é um projeto que até concorreu muito recentemente a concursos que premiam projetos relacionados com a acessibilidade.
Tem funcionado muito bem com poucas desistências. Uma oficina que acontece quinzenalmente e é feita com essa orientação da monitora e de duas médicas. O que posso dizer é que a monitora está muito contente com os resultados das oficinas. As desistências têm sido por bons motivos por pessoas que param os tratamentos e regressam à sua vida normal. Isso são boas desistências. É uma oficina frequentada por pessoas muito diferentes e com problemas muito diferentes, outras mais leves outras mais crónicas e mais difíceis, mas estou muito contente com os resultados e é para continuar.

Qual é a história de cada uma das exposições patentes...
Neste momento, estão três exposições patentes que são duas de artistas coletivos com peças de coleção de Arte Bruta que está cá em depósito no Núcleo que é a coleção Treger/Saint-Silvestre. Uma das coleções de Arte Bruta mais importante da Península Ibérica. Não existem muitas coleções de Arte Bruta que é mais uma arte marginal. Então uma destas exposições já está patente ao público há bastante tempo e a outra inaugurou muito recentemente. A que inaugurou mais recentemente é comissariada pela Antonia Gaeta, está a ser produzido um catálogo da exposição e a exposição foca-se muito na arquitetura, nas arquiteturas imaginárias. Todas as obras em exposição têm uma ligação com a arquitetura. Sendo que são obras de arte bruta, são cidades imaginárias, edifícios imaginários, pronto. É muito por aí. Essa exposição vai estar até outubro.

A mais antiga...
A mais antiga já devia ter saído, foi prolongada neste período de transição em que não foi produzida a exposição que está prevista que seja uma exposição contemporânea com obras da coleção Norlinda e José Lima.

“O potencial que a Oliva pode ter é uma liberdade enorme”
A exposição Paiva e Gusmão...
Uma exposição que é muito importante e que de facto não tenho nada a ver com a produção dela, mas senti-me muito privilegiada ao ter vindo para este projeto e ter iniciado com esta exposição por várias razões. Uma delas é que de facto mostra uma abertura muito grande deste espaço e uma vontade muito grande de estar a trabalhar com exposições de artistas que são de referência nacional e internacional. O potencial que a Oliva pode ter é uma liberdade enorme para fazer um projeto de um projeto artístico e de curadoria de referência. E que tem a ver de facto com essa flexibilidade do espaço. Esta galeria tem agora uma configuração diferente, está escura com quatro palcos diferentes. É minha vontade que esta sala passe a ter uma configuração diferente das galerias que são mais tradicionais, de palavras brancas, espaços mais isentos. Esta poderá passar a ter essa elasticidade e flexibilidade. Mais experimental.

Agora passamos às coleções...
Neste momento, a Oliva tem em depósito duas grandes coleções dos colecionadores Treger/Saint-Silvestre e Norlinda e José Lima. Uma delas é de arte bruta, marginal e singular que é a coleção Treger/Saint-Silvestre. As duas coleções em termos de dimensões são idênticas com cerca de 1.000 obras de arte. A coleção Treger/Saint-Silvestre está cá em depósito desde o início do projeto. Então, o Núcleo desde então tem vindo a realizar exposições com obras dessa coleção sempre com comissários e curadores convidados que é o mesmo princípio que tem tido a de Norlinda e José Lima.
Uma coleção que está em depósito na câmara há mais tempo que esta, mas que depois também veio para cá com a criação do Núcleo. O Núcleo gere estas duas coleções. O Núcleo mantém essas exposições em reserva com condições de armazenamento otimizadas, faz o inventário, mantém os registos atualizados e gere-as. No sentido em que o senhor José Lima tem duas exposições fora do Núcleo. Aí há uma diferença muito grande entre a oliva e outras instituições mais ou menos semelhantes. De facto, a Oliva está a criar esta capacitação grande na questão da gestão das coleções dos particulares. Acho que pode ser muito apetecível para outros colecionadores e, de futuro, criar essa capacitação e particularidade grande.
As coleções vão estar acessíveis online com o novo site e de facto vai-nos permitir começar a ter propostas para termos exposições aqui dentro, mas também muito provavelmente vamos começar, com aconteceu com o senhor José Lima, a criar itinerâncias pontuais da Treger/Saint-Silvestre.

"É bom que a Oliva seja mais nova, mais versátil"
Porquê a designação Núcleo de Arte?
É a designação que a instituição tem. Existe a vontade de mudar o nome. O nome não beneficia. Quando penso em Núcleo penso numa coisa pequena. Não percebo que é isto. Acho que não se aplica. Quando olho para a Oliva sei que é um Núcleo de Arte. Não pode ser um museu porquê? É uma instituição que tem uma coleção. A Oliva não tem uma coleção, gere coleções que tem aqui em depósito, protocoladas. Um museu é uma instituição que nasce para albergar uma coleção. Aqui é diferente.

Daqui a uns anos pode vir a ser um museu?
Pode. Um dos objetivos é também começar a construir uma coleção própria. Vai decorrer de residências, aquisições...
Acho que é para uma segunda fase. Nesta primeira temos muitas coisas para fazer. Acho que as pessoas dizem museu porque associam um museu a um sítio onde vão ver exposições, mas de facto não é um museu. Pode haver alguma vontade de identificar um núcleo como um museu? Não sei. Acho que existe por parte de algumas pessoas essa vontade até porque depois criava aqui três museus, mas acho que Centro de Arte se aplica melhor. Cada palavra significa uma coisa diferente. Museu é uma instituição que tem uma coleção, mais conservadora, mais pesada e é bom que a Oliva seja mais nova, mais versátil e ter uma coleção é muito bom, mas passa a ser quase o primeiro objetivo da instituição. Há uma liberdade maior.

O que é que faz falta?
As pessoas de facto quando vêm aqui ao Núcleo vêm para ver exposições. Não há um espaço social. Estou a trabalhar no sentido de criar um espaço social que pelo menos seja agradável para as pessoas virem aqui. As pessoas podem vir aqui e não têm de ver a exposição. Mas este espaço começar a ser facilmente habitável e vivido. A requalificação do exterior tem a ver com isso. As pessoas quando veem o edifício sabem que tem aqui dentro um centro de exposições e com legitimidade pensam que não é para eles porque nada do que está lá fora diz-lhes o que está aqui dentro. Não há nome ou imagem apelativa das exposições. Não há grande abertura. Se despertarmos alguma curiosidade e transmitirmos a ideia de que é confortável...espero que até ao fim do ano haja alguma reorganização em termos de espaço. Que haja qualquer coisa que as pessoas se habituem a frequentar. Um espaço social para si mesmos. É um lugar de todos.

"Um projeto que tem muito potencial"
Qual o balanço de um mês à frente do Núcleo e Centro de Arte?
Ainda não estou preparada para fazer um balanço porque é muito cedo. Talvez no fim do ano. O que posso dizer neste momento, com pouquíssimas semanas de trabalho, é que há sobretudo confiança de que isto é um projeto que tem muito potencial.


Andreia Magalhães
Andreia Magalhães tem 41 anos é natural do Porto e é diretora do Núcleo e do Centro de Arte há cerca de um mês em S. João da Madeira.
Andreia Magalhães é doutorada pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Trabalhou em locais como o Instituto Holandês para Media Art/Montevideo (Amesterdão), o Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia (Madrid), os Museus de Arte Moderna de Nova Iorque e de São Francisco (EUA), o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (Brasil), o Instituto de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o Museu da Faculdade de Belas Artes, o Museu Nacional de Soares dos Reis e o Museu de Arte Contemporânea de Serralves.

Visitas gratuitas de 18 a 20 de maio ao Núcleo de Arte
No âmbito do Dia Internacional dos Museus, as exposições podem ser visitadas gratuitamente de hoje, dia 18, até 20 de maio no Núcleo de Arte da Oliva, na Oliva Creative Factory.
As exposições patentes são “Os animais que ao longe parecem moscas” por João Maria Gusmão e Pedro Paiva com a participação da coleção Norlinda e José Lima, “As leis do número de ouro” da coleção Treger/Saint Silvestre e “Arte Bruta: Uma história de mitologias individuais”. O Núcleo de Arte apresenta ainda uma série de visitas e oficinas dirigidas às escolas.

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