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O 25 de Abril e o 1º de Maio em S. João da Madeira

FOTO: Direitos Reservados
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Folheando a imprensa local da época, concretamente O Regional de 20 de abril de 1974, quase que podemos dizer que, cinco dias antes do golpe militar, nada fazia antever o que ia acontecer.
Em S. João da Madeira tudo parecia correr dentro da normalidade, havendo, inclusive, “perspetivas promissoras para o futuro” por parte da população, como refere uma notícia publicada na primeira página, com direito a fotografia, sobre o troço da Rua Marechal Carmona entre a Praça do Dr. Oliveira Salazar e as pontes sobre o rio. Este, segundo a publicação, “com os seus terrenos marginais ainda livres, na sua maior parte, de grandes empreendimentos urbanos, oferece magníficas perspetivas para a implantação futura de vultosos e apreciáveis elementos de progresso, já mais ou menos previstos”.
Recorde-se que, na altura, a câmara municipal (CM) era presidida por Daniel Ferreira Pinto (1962-1974), autarca hoje reconhecido por “um importante trabalho ao nível do ordenamento urbano”. A ele, aliás, são associadas “as largas avenidas de duas vias, os bons acessos ao centro cívico, os bairros sociais para professores primários, os primeiros grandes complexos habitacionais e grandes zonas industriais”.
Passando para a edição seguinte, de 27 de abril, não há, curiosamente, quaisquer referências ao 25 de Abril. Apenas a 4 de maio é que começam a surgir os primeiros “ecos”, com um texto de Pedro Ferreira da Silva - intitulado “A Democracia, os Irresponsáveis e os Vira-Casaca” e com uma foto da Junta de Salvação Nacional presidida pelo General António de Spínola - no qual se lê que “a liberdade implica responsabilidade (…). Não é pintando as paredes de edifícios particulares que estamos a usufruir da liberdade. Não é maltratando monumentos como o de António Henriques que estamos a cumprir o programa da JSN”.
No mesmo jornal, encontramos também um “desmentido” da autoria de Arménio Saraiva, proprietário da confeitaria “Concha Doce”, no qual refuta “a acusação posta a circular indigitando-o como informador da PIDE”.


Comemorações do 1º de Maio “apinhadas de gente”
No 1º de Maio, de acordo com O Regional, “desde muito cedo, a vila começou a ver os primeiros sinais” dos “desejos mais urgentes do povo trabalhador”, “com o aparecimento de vários cartazes e bandeiras”. Também antes da grande manifestação que reuniu um “mar de gente” junto ao antigo Cinema Imperador houve alguns indivíduos que “substituíram as placas que davam nome de Praça Dr. Oliveira Salazar ao largo defronte ao cinema”.
Eram cerca das 17h00 quando “os manifestantes convergiram para a ‘nova’ Praça [que se viria a chamar Praça 25 de Abril] onde assistiram à expressão de ideias por parte de alguns trabalhadores e democratas”, entre os quais Durbalino Duarte, membro do M.D. (como se pode ver na foto).
De salientar que as diversas alocuções iam sendo interrompidas pela multidão que apregoava slogans como “Vitória”, “Morte à PIDE” e “Fim da Guerra Colonial”. Além disso, entre os cartazes, podia ler-se, por exemplo, “Regresso Imediato dos Soldados” e “Demissão do Presidente da Câmara”.
Mas atenção que Daniel Ferreira Pinto ainda exerceu o cargo durante mais algum tempo. Num comunicado, publicado a 11 de maio, a CM informava que, “em reunião de 8 de maio”, “deliberou por unanimidade, em obediência a essas ordens, continuar no exercício das suas funções, assegurando assim o normal desenvolvimento dos interesses e da vida do Município, até que a Junta de Salvação Nacional ou o Governo Provisório determine a sua substituição”


Comissão Administrativa Provisória eleita a 14 de maio
Entretanto, a 14 de maio, teve lugar no Pavilhão dos Desportos um plenário organizado pelo Movimento Democrático com o objetivo de discutir e votar uma Comissão Administrativa Provisória (CAP) “para reger os destinos da edilidade sanjoanense”. A lista apresentada incluía apenas uma mulher (Maria Júlia Borges). Resultara de reuniões entre elementos da chamada “oposição democrática” e do MDP/CDE (e PCP) e foi votada “elemento por elemento”, sendo que de todos os nomes propostos só Manuel Barbosa (técnico de contas) foi “vaiado”, que é como quem diz “recusado”. Situação que, segundo o próprio preterido, não se terá devido “a qualquer dúvida sobre o meu ideal político ou conduta indigna da minha vida e de trinta e um anos de permanência nesta querida terra”.
Desses 16 “alguém” compôs uma lista com seis nomes que foram apresentados ao MFA. Mas como o executivo municipal só podia comportar cinco elementos, o excluído foi o de Dr Renato Figueiredo (licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas) com a justificação de que a lista estava “por ordem alfabética e ficaram os primeiros cinco”. Daí que a CAP nomeada pelo MFA tenha sido constituída por Benjamim Valente (economista) que ficou como presidente, por José da Silva Pinho (comerciante) vice-presidente, e por Armando Amorim (industrial), Aureliano Magalhães (comerciante) e José Casal (industrial). Curiosamente os cargos não foram atribuídos por ordem alfabética.
Os restantes eleitos pelo plenário popular passaram a constituir uma comissão consultiva do município que terá reunido uma única vez. Muito embora não exista registo publicado dos seus elementos conseguimos apurar que esse grupo integrava, para além dos já referidos Renato Figueiredo, Maria Júlia Borges, Adelino Luís da Silva (operário chapeleiro), Amadeu Baptista (advogado), Augusto Fernando dos Santos (industrial), Carlindo Lopes da Silva (operário sapateiro), Joaquim Ferreira (professor), Pedro Silva (estudante) e Licínio Correia (técnico de contas).
O labor falou com Amadeu Baptista, que disse ter ido “parar à comissão” por intermédio de “uns conhecidos com quem me dava bem” e que, na altura, se reuniam no antigo restaurante “Brasília”, perto da sede do PS. “Até à data não tinha atividade política”, esclareceu.
Convidado, então, por esses “conhecidos”, começou a participar “nessas reuniões”, das quais saiu “uma série de nomes”, entre os quais o dele. “Tivemos, entretanto, de ser submetidos à aprovação popular, mas isto já no plenário, no Pavilhão dos Desportos”, que “estava completamente cheio”, contou ao jornal, admitindo ter sentido “um certo nervosismo”.
Depois disso, Amadeu Baptista não se recorda de qualquer “intervenção” sua na referida comissão. “Não me recordo sequer que tenha havido alguma reunião, pelo menos, importante”, afirmou, acrescentando que “passei a fazer parte da comissão de recenseamento eleitoral, porque não havia cadernos eleitorais e era preciso fazer uns novos”.


Tomada de posse em Aveiro
A Comissão Administrativa Provisória tomou posse a 18 de maio de 1974, no Governo Civil de Aveiro, numa cerimónia em que estiveram presentes o presidente da câmara demitida e os membros designados para a CA. Passados dois dias, como refere O Regional, “realizou-se um acto público na câmara municipal e que constituiu o complemento da tomada de posse e consistiu na passagem de poderes. Para tal, antes da sessão, foi assinada uma acta de transmissão de poderes. Assinaram-na os elementos eleitos, e o ex-Presidente, Eng. Daniel Ferreira Pinto, não tendo sido esse acto público, por pedido do ex-Presidente, com a concordância dos elementos da Comissão Administrativa”.


Comissão Administrativa reúne-se pela primeira vez a 22 de maio
N’ O Regional de 1 de junho vem mencionada a sua primeira reunião pública que teve lugar a 22 de maio. Entre outras deliberações, foi aprovada a distribuição de pelouros: Secretaria e Tesouraria - Benjamim Valente; Polícia, Obras e Cemitérios - José da Silva Pinho; Trânsito, Jardins e Arborização - Armando Rodrigues Amorim; Saúde, Sanidade Pecuária, Matadouro e Aferições - Aureliano Magalhães; e Instrução e Biblioteca - José Casal.

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