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“Heróis desconhecidos” do 25 de Abril evocados na Torre da Oliva

FOTO: Gisélia Nunes
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Este último domingo foi a emoção que falou mais alto no edifício da Torre da Oliva, em S. João da Madeira (SJM). Numa sala a abarrotar pelas costuras, o general Pedro de Pezarat Correia evocou os “heróis desconhecidos” do 25 de Abril, que “me fazem sentir tão pequenino”. Referia-se aos que “estiveram presos, foram torturados e, mesmo assim, continuaram firmes nas suas convicções”.
No dia 25 de abril de 1974, este elemento integrante do movimento militar que gizou a revolução não estava no país. Encontrava-se numa “comissão de serviço” no Leste de Angola quando teve “a notícia da queda do Regime e da vitória do MFA [Movimento das Forças Armadas]”.
Pezarat Correia confessou à numerosa assistência, que o ouvia atentamente, que “foi uma frustração não ter participado aqui [Portugal] no derrube da ditadura”. No entanto, também não deixou de “defender a sua dama”, que é como quem diz o MFA. Este, na sua ótica, desempenhou “um papel extremamente importante”, sem o qual “o 25 de Abril podia ter-se perdido nas colónias” e “dificilmente se teria aguentado aqui”.
Na “cidade do labor”, o capitão de Abril quis esclarecer que, não obstante terem sido os militares que “fizeram um golpe para derrubar a ditadura”, “foi o povo nas ruas que, depois, deu início à revolução”. Ou seja, “o regime que hoje existe é fruto do empenhamento do povo português nas ruas”, reforçou a ideia.
Pezarat Correia ainda deixou um aviso: “o processo democrático está em recessão em todo o mundo”, sendo, por isso, “cada vez mais importante cultivar estes valores [de Abril], para negar o fascismo”.

“Cresci com histórias de perseguição”
Daniel Oliveira Vieira foi outro dos convidados do painel temático “Portugal antes de 25 de Abril”, inserido nas Comemorações Populares do 25 de Abril em S. João da Madeira e que contou com uma compilação de várias músicas alusivas ao período histórico selecionadas por Manuel Rocha, músico da Brigada Victor Jara.
A convite da Assembleia Municipal (AM), aquele jovem de 32 anos, vereador do Município de Gondomar eleito pelo PCP, partilhou a história de clandestinidade vivida pelo seu avô (da parte da mãe), natural da Quintã (SJM). “Cresci com histórias de S. João da Madeira” e “com histórias de perseguição (…). Sou neto de Mário de Oliveira. Mas, na realidade, Oliveira é um nome que não existe. Mário de Oliveira era o nome de clandestinidade”, referiu, acrescentando: “tenho aqui a ficha da PIDE dele. Chamava-se António Ribeiro de Lima, cuja alcunha era ‘Pedreirinha’ e a profissão era sapateiro”.
O avô de Daniel Oliveira Vieira foi uma das “120 pessoas detidas” num “dos mais violentos episódios do Movimento Operário durante o Estado Novo” que teve lugar em SJM em 1943 e um dos quatro a serem “obrigados a mergulhar na clandestinidade”. António Ribeiro de Lima conseguiu fugir, mas depois foi preso em 1957 e condenado em 1958. Passou mais de seis anos nas prisões fascistas, a maior parte em Peniche. Tudo isto “com consequências profundas” para a sua família.


“Não deixem voltar atrás a nova Escola!”
Também a voz de Eva Cruz se fez ouvir na ocasião. A professora de Inglês e Alemão partilhou com os presentes o seu amor pela “Escola do 25 de Abril”, que ajudou a construir, mas também o seu percurso escolar, numa altura em que “a escola era profundamente injusta”.
A antiga docente da “João da Silva Correia” recordou os seus tempos de criança, em que “nem todos frequentavam a escola” e em que entre os que o faziam havia os que “iam para a escola com os pés descalços” e até - imagine-se - “faziam chichi para aquecer os pés”.
Seguidamente, fez menção às épocas em que andou no liceu - “em que éramos conhecidos pelos números e não pelos nomes” e “nas prateleiras mais recônditas da biblioteca havia livros proibidos” - e, depois, na universidade, onde continuava a haver “uma formatação das mentalidades”.
Já formada, foi dar aulas para Braga e, na altura, “vi que nada ou pouco tinha mudado em relação ao que tinha sido a minha aprendizagem”.
Em seu entender, “com a bendita revolução de Abril a Escola passou a ser outra”, daí ter apelado no passado dia 22: “não deixem voltar atrás a nova Escola!”
De igual modo, Mário Crespo e Jorge Sequeira deram o seu contributo para esta iniciativa. Pela segunda vez a participar nas celebrações do 25 de Abril em SJM, o jornalista relatou que estava em Moçambique “ [a cumprir serviço militar obrigatório] com alguns camaradas que, em síntese, nos deram uma vida decente”. E não perdeu a oportunidade de fazer “uma homenagem pública a Pezarat Correia” pelo seu “papel na dignificação do combatente de Ultramar”.
Já o presidente da Câmara Municipal de SJM e também advogado fez ver que “a mulher antes do 25 de Abril não existia” pura e simplesmente: “era um ser menor à luz da Constituição e da Lei”.
Conforme adiantou, “o 25 de Abril modificou as estruturas fundamentais da sociedade, sendo exemplo disso o que sucedeu com o estatuto da mulher”. “Para as mulheres, o 25 de Abril foi verdadeiramente um ato de libertação”, sublinhou.

Novo painel temático dia 28
No sábado, dia 28, às 18h00, há novo painel temático - “Portugal depois de 25 de Abril” - promovido pela AM, com a colaboração da edilidade e da junta de freguesia.
Desta vez, os oradores são os arquitetos Gomes Fernandes (ex-secretário de Estado do Ordenamento e Ambiente e ex-vereador da Câmara Municipal do Porto), Joaquim Milheiro (dirigente do setor de Ordenamento, Planeamento e Ambiente da câmara de S. João da Madeira), Manuel Carlos Silva (ex-diretor-geral da APICCAPS), Pedro Nuno Oliveira (investigador) e Joaquim Almeida (ex-coordenador da União dos Sindicatos de Aveiro). A entrada é livre.
 

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