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“Faço histórias intencionalmente esquisitas”

FOTO: Rui Guilherme
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Sofia Neto, de 28 anos, faz “coisas diferentes para projetos diferentes”, entre as quais “histórias intencionalmente esquisitas”. Foi assim que a desenhadora, licenciada em Artes Plásticas-Multimédia e mestre em Banda Desenhada (BD), definiu o seu trabalho ao labor.
Depois de concluir o mestrado na EESI - Ecole Européenne Supérieure de l' Image, em Angoulême (França), esta jovem artista regressou em 2013 a S. João da Madeira, onde nasceu e seguiu Artes na Escola Básica e Secundária Dr. Serafim Leite, e começou a “mexer-se”, que é como quem diz “a fazer pela vida” numa cidade e num país onde a BD tem pouca tradição. Se bem que agora Portugal parece estar a “despertar” para esta forma de arte, começando a haver “muitos eventos de grande qualidade, tanto de banda desenhada como de ilustração”.
“Conhecia banda desenhada de todo o lado menos de Portugal e, por isso, comecei a tentar perceber quem fazia banda desenhada no nosso país. Fui falar com o Nuno Sousa e o Marco Mendes no Porto e entrando um bocadinho nesse mundo”, contou à nossa reportagem, acrescentando que, também na altura, se propôs a dar um curso de Banda Desenhada no Centro de Arte de S. João da Madeira, proposta que “simpaticamente o professor Victor Costa [diretor na altura] aceitou”.
Sofia Neto começou então por dar aulas no Centro de Arte, depois no Clube de Desenho no Porto e, presentemente, também leciona na ESAG - Escola Superior Artística de Guimarães. Mas atenção que o seu dia-a-dia não se resume ao ensino.

Sofia Neto distinguida com o Prémio Geraldes Lino

A ilustradora tem dois livros publicados pela Mundo Fantasma - Down Below (2015) e Eco (2016) - e uma publicação editada em 2017 pela Bedeteca de Beja no contexto da coleção Toupeira, Bizarras. Ainda em Beja e também no ano passado, foi distinguida com o Prémio Geraldes Lino, “atribuído a autores que ainda estão a começar a carreira”.
Para além disso, coedita, com Marco Mendes, a revista de banda desenhada Carne e Osso, faz parte da comissão organizadora do Encontro Internacional de Ilustração de S. João da Madeira e nestas últimas duas edições da Campanha Poesia à Mesa foi ela quem desenhou os rostos dos poetas homenageados.

Lançamento de “Cicatriz” para breve

Está para breve o lançamento de mais um livro de BD da sua autoria. Chama-se “Cicatriz”, conta com a edição da Polvo Editora e, ao longo das suas 60 páginas, o leitor vai encontrar tudo menos banda desenhada convencional.
Sem entrar em grandes pormenores, Sofia Neto adiantou que em “Cicatriz” “seguimos uma protagonista que está a fazer um percurso e vamos percebendo o percurso que ela está a fazer à medida que vai encontrando outros personagens”. “O contacto - prosseguiu - com essas outras pessoas vai desvendando as suas vivências, aquilo que é o mundo, o que se passa a nível político. Vamos descobrindo um estado das coisas que não é o nosso e vamos percebendo que ela tem um objetivo no percurso que está a fazer”.

“Nunca me vi a fazer outra coisa que não isto”

“Desde muito cedo” que Sofia Neto soube que ia seguir Artes. O seu pai sempre gostou muito de desenhar e ela própria desenha desde muito nova. Por isso disse ao labor que “nunca me vi a fazer outra coisa que não isto”.
Aquela que é hoje responsável pelo curso de Narrativa Gráfica no Centro de Arte de S. João da Madeira recorda-se de, em pequenina, “perder-se de amores” pela Turma da Mónica, Tintim, Astérix, Lucky Luke. Mas também pelo Fascículo Ilustrado, do Diário de Notícias, pelas revistas dos anos 70 de BD francesa do seu pai, “que foram importantes para perceber que se faziam outras coisas muito diferentes do que estava habituada a ver”.
De igual modo, “canais como o Panda e o Cartoon Network foram importantes para perceber que havia outras formas de desenhar, outros personagens”.

“S. João da Madeira é uma terra muito focada na criatividade rentável”

S. João da Madeira dá-lhe “estabilidade por várias razões”. Aqui, Sofia Neto pode “trabalhar confortavelmente” e “estamos perto do Porto e de Guimarães”, outras duas cidades a que está ligada profissionalmente.
Mas a docente também tem noção que “mexer-se fora de S. João da Madeira” é vital para “a evolução da carreira”. Na sua ótica, “temos a responsabilidade de sair da nossa zona de conforto, falar com outras pessoas, ver como as coisas são feitas nos outros sítios”.
Aliás, é o que tem feito desde que chegou ao mercado de trabalho: “autoeditei-me, fui a festivais, falei com editores. Não fiquei parada à espera. Por exemplo, o livro que estou a fazer para a Polvo surgiu de um contacto na Comic Con Portugal, no Porto”. Porque, na sua opinião, ter um site ou estar nas redes sociais é importante, mas a divulgação do trabalho não se pode limitar a isto.
Voltando à sua terra natal, Sofia Neto considera que “S. João da Madeira é uma terra muito focada num tipo de criatividade que é rentável” quando também devia focar-se na “outra criatividade”. A sanjoanense de gema afirmou já ter falado “com empresários e responsáveis por incubadoras que não compreendem o facto de alguém querer ser profissional de uma área artística sem querer ter uma empresa”.
Os interessados em contactar Sofia Neto podem fazê-lo através do email sofiacoreneto@gmail.com. Os seus trabalhos podem ser vistos em http://cargocollective.com/sofiacoreneto, Instagram, Facebook e Tumblr.

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