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Uma vez bombeiro, sempre bombeiro

FOTO: Diana Familiar
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A história dos Bombeiros Voluntários tem muitos anos e decidimos conhecer três gerações diferentes de Soldados da Paz. Sentados à mesma mesa estavam Bruna Pinho, 17 anos, Hélder Alves, 31 anos, e Manuel dos Santos Oliveira, 80 anos.
Quando Bruna Pinho tinha apenas 10 anos decidiu que queria entrar para a Escola de Cadetes e Infantes, onde não é normal ter alunos desde tão pequeninos por iniciativa própria. A mãe comentou a abertura desta escola, ela pediu e está lá há sete anos. Neste momento, está prestes a começar uma nova etapa, a de estagiária, juntamente com os colegas que são bombeiros voluntários e profissionais no Quartel Operacional de S. João da Madeira. A jovem bombeira frequenta o curso de Técnico de Auxiliar de Saúde no Centro de Educação Integral durante a semana e a formação aos sábados na Escola de Infantes e Cadetes.
Nesta nova fase de bombeira voluntária prestes a ser estagiária, “estamos a conhecer a realidade. Ainda não temos formação para sair do quartel. Basicamente estou-me a integrar no que fazer juntamente com os meus colegas“.
No caso de Hélder Alves, as recordações dos bombeiros remontam aos seus seis anos quando fugia da Escola dos Condes diretamente para o Quartel Sede, na altura o primeiro quartel operacional sanjoanense, onde estava o pai e um tio bombeiros, porque “ficava fascinado com a ação dos carros e as âmbulâncias a sair“.
É caso para dizer que desde pequenino, muito por influência da família, queria ser bombeiro. Ele entrou para os bombeiros aos 14 anos, frequentou a escola de formação e por volta dos 19 anos era um bombeiro pronto. Ele entrou como bombeiro voluntário, hoje é bombeiro profissional. Neste momento, Hélder Alves ocupa o posto de Bombeiro Voluntário de 2ª e vai concorrer ao posto acima que é o de Bombeiro Voluntário de 1ª.
A diferença entre voluntário e profissional resume-se ao facto de o bombeiro profissional ter um horário de trabalho no quartel que no caso de Hélder Alves é de segunda a sexta-feira, das 13h00 às 21h00, e depois disso, tal como qualquer bombeiro voluntário, “dormir um noite por semana no quartel, passar um fim de semana por mês, fazer formação consoante ordem de serviço do comando, etc.“, explicou Hélder Alves ao labor.
O “catraio pequeno“ Manuel dos Santos Oliveira tinha 14 anos quando entrou em 1953 para os Bombeiros Voluntários porque tinha quatro tios que eram Soldados da Paz e na “casa de família só se falava de bombeiros“. À semelhança de Hélder Alves, andava na Escola dos Condes e fugia diretamente para o atual Quartel Sede.
Ele lembra-se de na altura ter sido recebido pelo comandante Américo Gonçalves e pelo segundo comandante Eduardo Ferreira da Almeida. “O segundo comandante deu-me uma lapada nas costas e disse para o primeiro: este vai ser um bombeiro dos nossos. E assim foi até à data em que estive no ativo“, recordou Manuel Oliveira ao labor.
A profissão de sapateiro foi sempre conciliada com a de bombeiro. Quando entrou para os bombeiros era analfabeto, sabia assinar o seu nome e pouco mais, e era Bombeiro Voluntário de 3ª classe. Entretanto quis comprar um carro, mas para tirar a carta tinha de ter a 4ª classe. E graças aos bombeiros conseguiu tirar a 4ª classe e não só. Na altura, estavam a ser feitos exames para os bombeiros de 3ª passarem a 2ª classe, os de 2ª a 1ª, os de 1ª a subchefe e de subchefe a chefe e não é que concorreu e foi aprovado em todos? “Eu subi esses lugares todos“, contou Manuel Oliveira ao labor.
O Chefe 24, número atribuído a cada bombeiro, neste caso a Manuel Oliveira, foi um Bombeiro Voluntário ativo desde os 15 até aos 65 anos. “Nunca tive uma repreensão por escrito, nem falta nenhuma a piquete e escala. Sempre exemplar“, revelou orgulhoso como não poderia deixar de estar. Mas desengane-se quem pensa que ser bombeiro é fácil e as diferenças ao longos anos são abismais. E ainda bem.

“Cheguei a ir para incêndios com o meu calçado. Não havia botins nem equipamentos de proteção“

As condições dos bombeiros em 1953 eram muito diferentes em comparação com as dos tempos que correm. “A diferença é como da água para o vinho“, diz logo Manuel Oliveira.
A começar pela frota automóvel que estava reduzida a três carros - a primeira ambulância só apareceu por volta de 1958 e só mais tarde tiveram mais carros – e a acabar com a inexistência de bombeiros profissionais. Atualmente, os bombeiros têm 37 viaturas (11 incêndios, 7 saúde, 10 auxiliares, 4 atrelados e 5 em exposição no museu sito no Quartel Sede). E precisamente no Quartel Operacional da altura, onde agora é o Quartel Sede, havia duas secretarias, uma sala de direção, o gabinete da direção e o salão nobre.
A corporação sanjoanense começou a ter mais serviço quando chegou a ambulância e Manuel Oliveira chegou a ser o bombeiro mais próximo do quartel. “Para a altura havia um bom grupo de bombeiros, não posso precisar bem o número“, disse Manuel Oliveira ao labor.
O piquete noturno foi criado por volta de 1960 e “ tínhamos o pequeno-almoço que era um trigo com um copo de café preto e leite para quem quisesse. Quem não tivesse falta ganhava prémio de 250 escudos no fim do ano. Isso foi acabando. Olhava-se mais para o dever“, relembrou o Chefe 24, sobre esta altura em que “passava-se tanto frio que eram usadas as cobertas de linho para fazer peso“.
As primeiras fardas apareceram para Manuel Oliveira e para outros quando eram “bombeiros prontos há muitos anos“. Se isto pode causar algum espanto, vai ficar ainda mais espantado. Os Bombeiros Voluntários daquela altura não tinham fardas, casacos, botins ou qualquer equipamento de proteção. “Cheguei a ir para incêndios com o meu calçado. Não havia botins nem sapatos de proteção. Não havia equipamentos de proteção. Tocava a sirene e íamos a fardar-nos no interior dos carros“, relatou o Chefe 24 ao labor.
Aos poucos e poucos as coisas foram melhorando, mas “não se adquiriu tudo de uma vez“, frisou Manuel Oliveira.
Tal como dissemos anteriormente, naquele tempo “não havia bombeiros a tempo inteiro apenas o quarteleiro que era a pessoa responsável por atender as chamadas“, recordou o Chefe 24. “Quando comecei era o senhor Avelino. Ele foi-se embora e veio um grande quarteleiro que foi o senhor Albano Silva, pai do Pedro Silva, diretor do labor. O pai dele foi um grande quarteleiro. Ele deu muito nome à nossa associação. Foi um homem com uma dedicação muito grande. A vida da associação mudou um bocadinho, mudou para melhor. Ele era muito zeloso, ele não podia ver um bombeiro encostado a uma viatura. Era de caminho um barulho. Era ele que fazia os dormitórios. Um homem muito dedicado à associação“, relembrou Manuel Oliveira sobre Albano Silva que era bombeiro e, mais tarde, se tornou quarteleiro. O quarteleiro dos tempos atuais é um operador de central com formação que reciona chamadas, aciona pedidos de socorro e ativa os meios. Eles têm o horário de trabalho deles, mas depois também são voluntários.
No tempo do Chefe 24, a sirene tocava. “A sirene quando tocava não era só para um, mas para quem pudesse. Um toque prolongado era um acidente em S. João da Madeira (SJM), se fosse dois era um acidente fora, se fosse três era um incêndio em SJM, se fosse quatro era um incêndio fora da nossa área, se fosse quatro prolongados era uma desgraça, uma catástrofe em SJM“.
E as histórias vividas por este e outros bombeiros naquela época? “Histórias não faltam, muitas estão por contar. Se quiser saber histórias estou uma semana a contar histórias“, assegurou Manuel Oliveira ao labor.

Os familiares são “bombeiros sem farda“

Como todos sabemos, os Bombeiros Voluntários dedicam muito do seu tempo à proteção de pessoas e bens. Por vezes, para não dizer sempre, as famílias não lidam bem com isso. “Estou casado há 57 anos e tive alguns desentendimentos com a minha mulher, alguns por minha culpa“, admitiu o Chefe 24. "Os bombeiros estavam à frente de tudo, menina," e "os bombeiros eram tudo", assumiu Manuel Oliveira ao labor.
No caso de Hélder Alves, primeiro com os avós, com quem vivia até há bem pouco tempo, e agora com a companheira, há a noção de que sempre que sai “ficam com o coração nas mãos“. Os familiares são “os bombeiros sem farda“, descreveu o bombeiro voluntário, aproveitando para mencionar que os bombeiros têm piquetes, escalas para formação e outras atividades ligadas à corporação. “O suporte familiar é muito importante para saber gerir a parte psicológica“ porque nem todos os dias conseguem salvar vidas, salientou Hélder Alves ao labor.
A divisão do tempo entre bombeiros e família já começa a ser sentida pela futura estagiária Bruna Pinho. “ Apesar de a família já começar a sentir com a presença nos piquetes, nas formações, estou preparada“, reagiu a bombeira voluntária ao labor.
A formação dos bombeiros é cada vez mais importante. Enquanto Bruna Pinho tem formação desde os 10 anos e Hélder Alves atualiza constantemente a formação, no tempo de Manuel Oliveira teve de fazer um curso de primeiros socorros, que ia sendo atualizado, e depois um curso de INEM.
Por falar em formação, a aprendizagem de manobras de suporte básico de vida devia de ser do interesse da sociedade, dizem os bombeiros, para que em determinadas situações, por exemplo de paragem cardiorespiratória, as manobras sejam continuadas por eles até que chegue o suporte avançado de vida. É certo que nem sempre isso significa o salvamento de uma vida, mas “se todas as partes funcionarem entre si é o caminho para o sucesso“, acredita Hélder Alves.
Os peditórios porta a porta são outra função dos bombeiros que nem sempre corre da melhor forma. “Os peditórios não são fáceis“, reconheceu Manuel Oliveira, não sem lembrar que é “preciso conseguir manter este nível de dar confiança para a proteção de pessoas e bens“.
“Os bombeiros não são só para grandes incêndios, grandes desastres, mas para as pequenas coisas do dia a dia“, acrescentou o Chefe 24 ao labor.

Os voluntários versus profissionais

“O voluntariado poderá acabar“, respondeu imeditamente Manuel Oliveira quando questionado sobre a extinção do bombeiro voluntário, passando a ser, num futuro próximo, todo o corpo de bombeiros profissional.
“Não digo acabar na totalidade, mas estamos a caminhar para tempos em que algum profissionalização vai ser precisa“, admitiu Hélder Alves, relembrando que quando entrou eram mais de 100 no ativo, agora apenas 70. Por enquanto, a única certeza é a de que “quem o fez até agora, acredito que fará até ao fim de vida útil cá dentro“, assumiu o bombeiro profissional.
Uma outra certeza é a de que os Bombeiros Voluntários têm “600 e tal anos de história que não desaparece de um momento para o outro“, concluiu Hélder Alves ao labor.

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