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Era um artista autodidata a dar os primeiros passos, a crescer a olhos vistos até perder a vida com apenas 22 anos num acidente de automóvel

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O Mané estava “à frente do seu tempo”

Luís Pinho em casa dos pais
FOTO: Direitos Reservados
Luís Pinho
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Obra de Luís Pinho
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Obra de Luís Pinho
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Obra de Luís Pinho
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Obra de Luís Pinho
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Era um artista autodidata a dar os primeiros passos, a crescer a olhos vistos até perder a vida com apenas 22 anos num acidente de automóvel

O artista sanjoanense Luís Manuel Pinho, conhecido como Mané, nasceu a 16 de maio de 1946 em casa, como era na altura, na Rua do Calvário, em S. João da Madeira.
Os pais mudaram-se três anos mais tarde para uma casa que construíram na Avenida Benjamim Araújo. A casa ainda existe e é de todos os herdeiros.
O casal Américo Pinho e Maria Rosa Pinho teve cinco filhos de seus nomes Maria da Graça Pinho já falecida, Daniel Pinho, Luís Manuel Pinho já falecido, Maria Margarida Pinho e João Pedro Pinho.
O Mané era "uma pessoa normal". Ele tinha cabelo escuro, cerca de um metro e 75 de altura e olhos esverdeados meios acastanhados, recordou o irmão Daniel Pinho.
Uma das fotografias de Mané mostra que usou bigode entre os 18 e os 20 anos. "Não me recordo dele com bigode porque nos últimos dois anos da vida dele estive em Angola" na Guerra do Ultramar, mas o seu uso esteve muito provavelmente relacionado com a moda de então, considerou o irmão ao labor.
O jovem Luís Pinho fez a escola primária na escola de Carquejido que era "a escola dos bombeiros" e funcionava no edifício onde hoje é a escola Conde Dias Garcia. O percurso escolar continuaria no Colégio Castilho e mais tarde no Colégio de Ermesinde.
Mané começou a desenhar e a pintar com 15 anos. Um dos trabalhos recuperados dele remete para o ano de 1961/1962 e representa "uma fase muito embrionária, muito primária", contou Salomé Pinho, filha de Daniel Pinho e sobrinha do artista.
"Ele desenhava uma Dona Elvira com uma facilidade incrível", isto é, desenhava qualquer carro antigo, revelou Daniel Pinho.
O desenho e a pintura eram o dom de Luís Manuel Pinho que "não chegou a seguir o percurso académico", mas "o sonho dele era ir para Belas Artes", confessou o irmão.
A ideia de ter de cumprir serviço militar levava-o a "pensar em saltar do país, era avesso a guerras". Então, "ele falava em Paris que estava na altura na berra, era a capital das artes", confidenciou Daniel Pinho ao labor.
O Mané era "uma pessoa bem-disposta, alegre, onde estivesse a casa estava cheia, extrovertido", descreveu o irmão.
O artista sanjoanense pintava na garagem dos pais sempre acompanhado de música. Certo dia, Daniel Pinho foi até ao encontro do irmão na garagem, como era habitual, e este disse-lhe: "olha estou a montar uma chocadeira!" com o primo Sidónio Pardal. "Eles davam-se muito bem", indicou Daniel Pinho, bem como reconheceu que "nesse tempo nem se ouvia falar em aviários nem nada". "Ele tinha um caixote com duas lâmpadas e dois ovos a chocar", contou o irmão.
"Hoje, vendo bem as coisas, ele estava um bocadito, um bocadito é favor, à frente do seu tempo", reconheceu Daniel Pinho.
O primeiro emprego de Luís Pinho foi na empresa Pinho & Llorens, Lda., fundada pelo pai Américo Pinho, hoje é conhecida como CIPADE, porque "naquele tempo os filhos tinham de ser industriais, qualquer coisa menos artistas", explicou Daniel Pinho.
Ele começou na empresa, mas "hoje, se fosse vivo, não estaria aqui. A vocação dele não era estar aqui", admitiu o irmão. Pelo menos não na empresa, "o que não quer dizer que não estivesse em S. João da Madeira", esclareceu Salomé Pinho, continuando, "dá-me a sensação pelas conversas que tive com a minha avó que o meu tio gostava muito e tinha um núcleo muito duro de amigos em S. João da Madeira".
Os pais apoiavam o dom do desenho e da pintura de Luís Pinho, mas "o meu avô queria garantir que ele tivesse algum conforto na vida e desse dinheiro fizesse o que quisesse". Ou seja, estaria sempre livre de o aplicar em arte, salientou Salomé Pinho. Aliás, "ele nunca teve proibição de desenhar e pintar", fazendo-o sempre na garagem da casa dos pais, constatou Daniel Pinho.
O Mané era um artista autodidata que estava a dar os primeiros passos, a crescer a olhos vistos até perder a vida num acidente de automóvel com apenas 22 anos de idade em junho de 1968. A obra e a vida de Luís Manuel Pinho, de "Mané", ficaria assim inacabada.

"Luís Pinho é dotado de uma sensibilidade artística simplesmente extraordinária"
Uma coisa é certa. Ele e outros começaram a abrir um caminho para a cultura na cidade sanjoanense.
A primeira Exposição de Pintura - Obras de Luís Pinho foi realizada no dia 10 de abril de 1968, pelas 21h30, no Cineteatro Avenida em S. João da Madeira.
O artista "Luís Pinho é dotado de uma sensibilidade artística simplesmente extraordinária", escreveu na altura o escritor João da Silva Correia, autor do livro "Unhas Negras", sobre a mostra do artista sanjoanense.
Citando novamente João da Silva Correia, "em resumo: Parece-nos que os vinte e dois anos do pintor já estão ultrapassados, largamente ultrapassados, pela exuberância artística da sua obra, que é já um valor inestimável, na grande Terra onde nasceu. Bem merece os incentivos de todos nós, pela honra que nos dá. Como conterrâneo de grande classe". O escritor sanjoanense deixa "como nota comovente na exposição de Luís Pinho - a modéstia quase angustiosa da apresentação dos seus trabalhos. Os cavaletes em que se exibiam os quadros, eram constituídos por taliscas de pinho nu, entrecruzadas e pregadas entre si; enquanto que as molduras eram de papelão, do vulgar de escuro, daquele que a indústria utiliza, para embalagem dos seus produtos. Apesar de artisticamente dispostas, essas pseudo - molduras confrangiam. Não pelo simples desassombro da sincera patente: mas porque os quadros expostos daquele jovem, mereciam bastante melhor".
Então João da Silva Correia decide dizer ao artista: - "Oiça, Luís Pinho: Porque não se dirige à Fundação Calouste Gulbenkian, uma instituição de benemerência, em ponto grande, concentrada na pessoa do Dr. Azeredo Perdigão?". Ele responde com um sorriso triste: - "Já pensei nisso, mas desisti. Sabe? A Fundação Calouste Gulbenkian é, de facto uma organização de assistência do mais alto poder (veja-se a sua espantosa dádiva para as vítimas das recentes inundações no Ribatejo!). Mas tantos casos, tantos, lhe aparecerão diariamente, em artes, em assistência, em bolsas de estudo, em enfermagem, em ciências, em tudo enfim, do que já devem de estar mais do que muito saturados. Depois...era preciso levar-lhes os meus trabalhos devidamente encaixilhados, para, na Fundação, fornecerem juízo exato, quanto ao seu valor e desvalor. Se os levasse como aqui estão, quem não se riria?!...".
O primeiro passo deste autodidata para dar a conhecer a sua obra foi na sua terra natal. E de outra forma não podia e não dava para ser. "O mundo da pintura é muito complicado. É meio mundo a tentar tramar outro meio. As pessoas têm de começar devagarinho e o importante era ser feliz. Isso acho que o meu tio era bastante", afirmou com toda a certeza Salomé Pinho e o seu pai Daniel Pinho.
"Embora o trabalho dele fosse pesado, mas isso é emocional, é o estado de alma para aquele trabalho, não é estado de alma para com o mundo", esclareceu a sobrinha do artista sanjoanense.
A segunda Exposição de Pintura - Obras de Luís Pinho seria inaugurada na Associação dos Estudantes do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas em Lisboa.

"Uma pessoa extremamente curiosa e investigava muito. Experimentava tudo"
A Exposição de Pintura Luís Pinho - Uma Obra Inacabada foi inaugurada a 16 de maio deste ano nos Paços da Cultura.
A primeira e única exposição sobre a obra do artista sanjoanense desde a sua morte em 1968. A inauguração foi realizada precisamente no dia em que Mané completaria 71 anos de vida.
As 43 obras de Luís Pinho realizadas maioritariamente entre 1965 e 1968 podem ser visitadas livremente até setembro.
O trabalho de Mané demonstra que era "uma pessoa extremamente curiosa e investigava muito. Tudo que fossem artistas de várias correntes, experimentava tudo", descreveu Salomé Pinho.
"Se formos a ver todo o trabalho dele, ele não tem uma linha definida e seria impossível. Embora tivesse uma grande maturidade no trabalho, é muito difícil quase impossível aos 22 anos ter-se uma linha definida. Mas ele realmente em todas as técnicas que experimentou – essencialmente o expressionismo, impressionismo e surrealismo – era bom naquilo que fazia. Acima de tudo o que acho que há no trabalho dele são estados de alma que é muito importante em quem usa essas correntes. A criatividade era toda dele. Isso não se ensina. Ou se tem ou não se tem. Depois aplicava a técnica da corrente que tinha acabado de ler, de estudar. Experimentava. O trabalho dele é uma série de experiências", complementou a sobrinha do artista.
"Para mim, o trabalho dele era muito bom. Ele com esta idade tinha uma maturidade em termos pictóricos que a maior parte das pessoas não tem. Só o tem no quarto ou quinto ano da faculdade. Não se acaba um curso já com uma corrente definida. Encontra-se um caminho, mas não está tudo traçado", reforçou Salomé Pinho.
Os materiais usados nas 43 obras são "o pastel seco e o carvão. Entretanto, as obras que estou a restaurar têm duas telas, uma a óleo, outra a acrílico com pastel seco – técnica mista, outra a pastel seco e óleo", deu a conhecer a sobrinha de Mané.
Outra característica de Luís Pinho era "a facilidade incrível em criar movimento no trabalho. O trabalho dele de forma alguma seria estático. Não vemos um trabalho dele em que estava completamente parado", manifestou Salomé Pinho.
Neste momento, a família tem 43 obras de Luís Pinho dadas a conhecer nos Paços da Cultura e mais 23 que estão a ser restauradas.
As obras de Mané são património familiar. A ideia é "recuperar, restaurar e emoldurar tudo. Era um gosto que ele tinha. Ele deixou isso patente. A tristeza dele na altura era não ter hipóteses financeiras para mandar emoldurar os trabalhos e daí ter vergonha de ir à Gulbenkian, onde queria ir, para mostrar a obra dele e alguém fazer uma avaliação do trabalho", assumiu Salomé Pinho, tal como foi dado a conhecer anteriormente.
A Exposição de Pintura Luís Pinho - Uma Obra Inacabada depois dos Paços da Cultura poderá ir para outro sítio. "Estamos em conversações", confirmou a sobrinha do artista sanjoanense, sem adiantar mais pormenores.
"Quer queiramos quer não, quem entra naquela sala sente que há uma presença muito forte do meu tio". Por isso, "sem sombra de dúvida, esteja ele onde estiver, assim como os meus avós e a minha tia, acho que estão super felizes", afiançou Salomé Pinho.

“O Luís sofreu as agruras de um sistema de ensino inculto e obscuro que marginalizou o aluno sobredotado”
Ao contemplar os quadros de Luís Pinho "é evidente o poder comunicativo das imagens e a sua personalidade estruturada e assertiva, de quem sabe o que quer realizar na vida e tem a certeza de estar à altura de o fazer bem. Sendo uma pessoa alegre, extrovertida e animado conversador, pré-anunciava os seus períodos de misantropia que considerava retiros para a reflexão e pintura", segundo o primo Sidónio Pardal, conhecido arquiteto paisagista sanjoanense.
Contudo, "em nenhuma das instituições de ensino que frequentou, escola primária e colégios, encontrou alguém que valorizasse ou, simplesmente, reconhecesse o dom excecional do aluno para o desenho e a pintura. Pelo contrário, esta faculdade, expressa desde criança, foi desprezada e o Luís sofreu as agruras de um sistema de ensino inculto e obscuro que marginalizou o aluno sobredotado. O artista fica assim sujeito a um percurso atribulado, conflituoso, onde dificilmente encontrava as respostas à sua curiosidade viva. Tornou-se assim um inadaptado, vítima dos programas escolares vigentes à época, o que lhe causou algum mau-estar", relatou o primo. O Mané era "desperto e atento ao mundo das artes e da cultura em geral, era um mau aluno! dentro do sistema. Não obstante, era estudioso, consciente da debilidade dos seus conhecimentos ainda pouco alicerçados e procurava dar resposta à sede de saber através de um esforço autodidata, fora do círculo-oficial das artes e do seu ensino. O desencontro e confronto de ideias entre o pensamento dominante institucionalizado e as vanguardas das artes são quase inevitáveis como parte de um processo natural. Embora, consciente dessa situação, sofria profundamente por não frequentar as escolas onde teria oportunidade de aprender a dominar as diversas técnicas de pintura, em particular, do óleo sobre a tela, tarefa que tinha programado para iniciar em finais de 1968", recordou Sidónio Pardal.
Infelizmente, não teria tempo para concretizar essas técnicas de pintura. "Um acidente de automóvel tirou-lhe a vida em junho de 1968 e fica a doer para a eternidade a trágica falta de um familiar e amigo e a perda de um génio nos seus primeiros passos com toda a obra que ficou por realizar e que sentimos como tesouro cultural que nos foi sonegado", revela o primo.
O acervo de Luís Manuel Pinho, de Mané, será salvaguardado de geração em geração pela sua família do artista. Um compromisso assumido hoje, amanhã e sempre.



Pensamentos soltos de Mané

“Os homens pobres de imaginação vivem na tradição, na indigestão do passado.”

“O saturamento destrói a imaginação.”

“Cá estou eu numa tarde esplêndida novamente contigo, livre de pessoas, isolado, num mundo de pinceis, quadros, flores, livros desordenados pensando em ti e escutando um poema do Dylan ´Queen Jane Approximately´.”

“Ultimamente tenho-me debatido afincadamente com a minha finalidade. A arte é a minha vida, no entanto vários atritos são levantados...não sabem o que é a arte, não a vivem e se eu não luto por mim angariando conhecimentos para alicerçar com pujança a minha finalidade, estaria perdido. Outro dos problemas é a tropa, quatro anos perdidos. É natural que já vá este ano para Paris. Não há que temer se analisarmos racionalmente os nossos problemas.”

“Falamos toda a tarde sobre arte. Ela foi franca dizendo-me não só os prós, mas outrossim os contras da minha pintura. Pediu-me para deixar de saltitar nos diversos estilos, deixar, por enquanto, as cores e pintar somente a preto e branco. Vi realmente alguém que tentou interpretar os meus quadros procurando fazer-me ver que, realmente, tenho que pintar não só para mim como principalmente para outros seres que povoam a terra.”

“Falei com o Mestre Alves da Silva e convidei-o para vir ver as obras ao meu atelier. (...). Todavia, na sexta, quando o convidei disse-lhe que trabalho uma obra por dia e este disse: amigo Manel, tenha cuidado, não caia na comercialização – não disse nada ele continuou – o artista tem minutos grandes e é nesse tempo que ele deve ir ao encontro da obra, exteriorizá-la na tela. Pensei; amanhã dar-te-ei uma resposta. Entrou no meu atelier viu todas as criações espalhadas em exposição. – Então mestre acha que estou a comercializar arte? – Meu caro amigo, vejo que não pois sabe, é certo que o artista tem minutos, mas, contudo, a meu ver, não deve arrastar-se num quietismo até que esse minuto apareça. Porque mesmo assim ele não sabe se esse minuto é ele.
Portanto, todos os dias trabalho, e ao fim de um período vejo a evolução, (...) faço a coletânea dos bons e os outros ficam como estudos.”

“Para haver arte é necessário que haja paixão, miséria e tristeza; é uma flor de rocha que exige um vento áspero e rude. Sem isto a arte é plagiada.”

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