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“Em Portugal somos ´mais um´ num ensino que está a passar por momentos difíceis”

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Sanjoanenses no Mundo

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Nuno Valente dos Santos
Este sanjoanense tem 43 anos, vive e dá aulas de Educação Física na Escola Portuguesa de São Tomé e Príncipe.
O percurso escolar começou na Creche do Centro Infantil de S. João da Madeira, mais conhecido como “Infantário do IOS”, da Santa Casa da Misericórdia. Frequentou a Escola Conde Dias Garcia, a “Escola dos Bombeiros”, a EB2/3, o “Ciclo”, e a Escola Secundária Dr. Serafim Leite. O ensino secundário foi feito na Escola Secundária Soares Basto em Oliveira de Azeméis. O ensino superior começou com o curso de Educação Física e Desporto na Universidade de Trás os Montes e Alto Douro e terminou na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Mais tarde tirou o Curso de Direção e Gestão de Ginásios, Piscinas e Health Clubs e lecionou alguns anos nos concelhos de S. João da Madeira e Oliveira de Azeméis nas Atividades de Enriquecimento Curricular do 1º Ciclo.

O que o levou a deixar a sua cidade, o seu país?
Basicamente, a busca de melhor qualidade de vida, redefinir os meus objetivos de vida e a procura de valorização pessoal e profissional.
O interesse de viajar e de fazer voluntariado em África era uma ideia que ia amadurecendo e se ia definindo durante estes anos. Em 2009, a minha irmã ligou-me e disse-me para pesquisar uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD) sediada em Lisboa, a WACT - We Are Changing Together. “Acho que vais gostar”, disse ela. A formação iniciou-se em outubro de 2009 e no dia 25 de junho de 2010 estava a aterrar em São Tomé para coordenar o projeto da WACT Spirit 2010.
Apaixonei-me desde logo pelo país e decidi procurar trabalho. Durante o desenvolvimento dos projetos e as consecutivas vindas à cidade capital, comecei a distribuir o meu curriculum por várias instituições.
Em setembro do mesmo ano comecei a lecionar no Instituto Diocesano de Formação João Paulo II que hoje se chama Escola Portuguesa de São Tomé e Príncipe - Centro de Ensino da Língua Portuguesa.

Há quanto tempo está a trabalhar em São Tomé e Príncipe?
Há oito anos que vivo e trabalho em São Tomé.

Dá aulas no mesmo sítio desde que chegou?
Sim.

“O trabalho e os projetos que desenvolvo são reconhecidos e isso é muito gratificante”

Quais as suas funções?
Sou professor e coordenador do Grupo Disciplinar de Educação Física.

Este é o primeiro emprego fora de Portugal?
Sim.

Foi sozinho?
Vim para São Tomé com a equipa de voluntários da WACT. Eles regressaram e eu fiquei.

De que forma é que é valorizado pessoal e profissionalmente?
Em São Tomé, um país que tem pouco mais de 200 mil habitantes, estou uma escola com um universo de 500 alunos, onde toda a comunidade educativa se conhece. Juntos trabalhamos diariamente na melhoria das condições escolares do processo ensino-aprendizagem, tudo para o sucesso dos nossos alunos. Conhecemos todos os alunos da escola, os seus pais e encarregados de educação e isso é muito importante e benéfico para atingirmos os objetivos que nos propusemos atingir num país muito carente em vários domínios, mas onde podemos fazer a diferença, sermos agentes de mudança, contribuindo para o desenvolvimento e crescimento dos jovens e do país. O trabalho e os projetos que desenvolvo são reconhecidos pelos atletas, alunos, pais e encarregados de educação e isso é muito gratificante.

Não conseguiu esta valorização em Portugal?
Em Portugal somos “mais um” num ensino que está a passar por momentos difíceis, onde não conseguimos estabilizar profissionalmente que tem depois, inevitavelmente, consequências a nível pessoal. Foi devido a essa instabilidade, falta de valorização e reconhecimento que também contribuiu para que saísse de Portugal.

“Conseguimos escapar à sociedade inundada de materialismo e consumismo que invade diariamente os nossos sentidos”

Em que aspetos encontrou melhor qualidade de vida?
A minha definição de qualidade de vida é ter um trabalho que me completa, é ter tempo para dedicar à família, é ter tempo para brincar com o meu filho e emocionar-me sempre que ele sorri para mim, é ter tempo para estar e conviver com os amigos, é ter tempo para encontrar na rua um ex-aluno e conversar com ele.
A vida por cá tem as mesmas 24 horas, mas parecem “durar” mais tempo. Cá ainda conseguimos escapar à sociedade inundada de materialismo e consumismo que invade diariamente os nossos sentidos, que parece nos impor uma formatação padronizada que muitas vezes não se encaixa nas nossas vidas.

Conhece muita gente? Portugueses e estrangeiros?
Sim. Costumo dizer que a cidade de São Tomé é uma “aldeia” porque todos se conhecem. Existe uma grande comunidade portuguesa em São Tomé que tem os seus negócios, as suas empresas ou está a trabalhar nas inúmeras cooperações e organizações não-governamentais. Isto acontece de igual forma com outras nacionalidades cá em São Tomé e Príncipe.

“Trabalhar com poucos ou nenhuns materiais fez-me ser ainda mais criativo na busca de materiais e aulas alternativas”

Como descreveria estes oito anos a viver e a trabalhar aí?
São oito anos muito enriquecedores e fez-me crescer tanto a nível pessoal como profissional. Trabalhar com poucos ou nenhuns materiais fez-me ser ainda mais criativo na busca de materiais e aulas alternativas. Cá nada é impossível, basta ter vontade, ser resiliente e procurar alternativas para chegar aonde queremos e cumprir com os objetivos propostos. Viver e trabalhar num país pobre, mas com um potencial tremendo fez-me aprender a relativizar os problemas e dificuldades com que me deparo todos os dias. Perceber que sou um privilegiado ao lado de quem “luta” diariamente para trazer ao fim do dia alimento para a família, para pagar os estudos dos filhos, para ter acesso a melhores condições e assistência na saúde, enfim, inúmeras coisas de quem é pobre num país pobre.

Quais os pratos e bebidas característicos?
A variedade da fruta e o seu sabor, nomeadamente o Mamão, o Ananás do Príncipe, a Cajá-manga, o delicioso Maracujá do tamanho de um melão, a Jáca e muitos outros frutos tropicais. A variedade de peixe e o seu sabor sempre acompanhado com muita malagueta, Mata-bala ou Fruta-pão. Existem vários pratos tradicionais santomenses e que normalmente são confecionados com o azeite de palma, folhas de várias plantas endémicas, o peixe fumado ou salgado e a típica malagueta: o Calulu de peixe ou de frango, a Feijoada à Moda da Terra, o Molho de Peixe, as caldeiradas e as moquecas de peixe.
Quanto às bebidas características do país, temos a Cacharamba e o Vinho de Palma, as bebidas alcoólicas típicas do país, a primeira que é a aguardente de cana de açúcar e a segunda obtida a partir da fermentação alcoólica da seiva de várias espécies de palmeiras.

Quais as tradições?
O “Bocado” - É uma manifestação cultural, de caráter religioso, que se realiza geralmente na quarta-feira de cinzas. Neste dia, as famílias reúnem-se no quintal ou à volta de uma mesa onde a matriarca ou o patriarca serve à boca a comida típica, por norma é o Calulu de peixe, izaquente de azeite de palma e o milho doce, à sua família por ordem de idades, do mais velho até ao mais novo.
O ato do "Bocado" acontece no momento em que a matriarca ou o patriarca retira a comida da panela e a leva à boca dos membros da família.
Lavar o ano velho - O "Banho Santo" é uma tradição que se repete todos os anos em São Tomé e Príncipe. No primeiro dia de cada novo ano, as pessoas vão às praias para "lavar" o ano velho e preparar o corpo para as coisas boas no ano que começou.

Quais os locais emblemáticos?
Começar o dia com uma visita pela fresquinha aos mercados municipais onde encontramos uma explosão de cores e cheiros com tudo o que à gastronomia da ilha diz respeito: peixe, fruta, legumes, vegetais com um piso de roupa, calçado e tecidos africanos e outro piso com os marceneiros e o seu mobiliário.
Passear pela Baía Ana Chaves até ao forte de São Sebastião. No forte, poderão entrar e visitar o Museu Nacional, que conta um pouco da história do país.
Passear pelas várias praças da cidade visitando as drogarias e lojas de época em edifícios coloniais que parecem nos transportar no tempo.
No final do dia, visitar o largo da Capela de Nossa Senhora do Bom Despacho. É um ótimo local para tirar fotografias com a cidade em plano de fundo, principalmente ao pôr-do-sol.

“O país entranhou-se na minha pele no momento em que saí do avião”

Como são os habitantes/o povo do local onde está?
Simpáticos e atrevidos no bom sentido.

O que mais o surpreendeu?
A simplicidade e facilidade com que se pode viver com pouco, mas bem.

O que mais custou a adaptar?
Não tive dificuldades nenhumas em adaptar-me ao país, às pessoas, à alimentação e aos seus costumes. O país entranhou-se na minha pele no momento em que saí do avião.

Há alguma expressão típica do local onde está?
Leve-leve significa com muita calma, sem pressa, devagarinho, suavemente.

Que sítios costuma frequentar?
As praias do Norte da ilha para mergulhar e relaxar; alguns bares da cidade capital para me divertir e encontrar amigos; a localidade piscatória de Micoló para comer peixe, polvo e choco grelhado; as visitas à comunidade da Roça Agostinho Neto para encontrar os amigos santomenses de longa data.

Qual o balanço desta aventura pessoal e profissional?
Muito positivo. Estou a fazer o que gosto mais que é dar aulas, convivendo com crianças, adolescentes e jovens e poder deixar a minha marca contribuindo para o futuro do país.
Sentir-me útil profissionalmente e realizado no desenvolvimento de alguns projetos pessoais e desfrutar da vida em conjunto com a minha mulher e o nosso filho recém-chegado.

“Não faço planos. Era para ficar cá só seis meses e já estou há oito anos”

O Nuno conheceu a sua mulher em São Tomé?
Conheci a minha mulher numa estação de rádio local. Eu e mais dois colegas de escola, o Pedro e o André, realizávamos um programa de rádio, três vezes por semana, chamado “Baías do Atlântico”. O “Oceano Pacífico” de cá. A Samy participava num programa de cariz cultural antes do nosso e foi assim que nos conhecemos e iniciámos uma amizade que ainda hoje perdura.

Ela conhece Portugal?
Sim. Já fomos passar férias a Portugal e também conhece S. João da Madeira.

O Nuno visita com frequência S. João da Madeira?
Normalmente uma vez por ano vou a Portugal e, claro, a S. João da Madeira para matar saudades da família e amigos.

Do que sente mais falta?
Da família, dos amigos, da gastronomia portuguesa e, poderá parecer estranho por viver numa ilha, do mar do Norte de Portugal, das suas ondas e do cheiro da sua maresia.

Do que é que sentirá falta, do local onde está, se um dia for para outro país ou regressar a Portugal?
Praticamente de tudo menos da distância que está de Portugal.

Os seus planos passam por voltar a Portugal?
Um dia…Não faço planos. Era para ficar cá só seis meses e já estou há oito anos. Enquanto gostar de estar cá, me sentir útil e realizado e me quiserem cá…

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