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“É um meio extremamente exigente, mas no qual se é valorizado enquanto profissional”

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“Tenho tido uma excelente experiência a trabalhar na indústria aeroespacial”

FOTO: Direitos Reservados
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“É um meio extremamente exigente, mas no qual se é valorizado enquanto profissional”

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Pedro Lopes
Este sanjoanense tem 38 anos, vive em Birmingham e é engenheiro de projeto no Reino Unido.
Os estudos começaram na Escola dos Ribeiros, depois na EB2,3 e posteriormente na Escola Secundária Oliveira Júnior. Seguiu-se a licenciatura (pré-Bolonha) em Engenharia Cerâmica e do Vidro pela Universidade de Aveiro e a pós-graduação em Engenharia Industrial pelo Instituto Superior de Engenharia do Porto. Pedro Lopes esteve “vários anos ligado à indústria metalomecânica, principalmente em funções de Otimização de Processos (Melhoria Contínua), embora tenha tido passagens (relativamente curtas) pela eletrónica de consumo e pela grande distribuição”, contou ao labor. A maior parte das empresas onde trabalhou eram multinacionais.

O que o levou a deixar a sua cidade, o seu país?
Basicamente a busca de uma melhor qualidade de vida, salários competitivos e também valorização pessoal e profissional. A oportunidade surgiu quase por acaso em 2014 e, com 34 anos, decidi não deixar passar o desafio.

“O facto de ter sido na indústria aeroespacial foi uma casualidade”

Onde está a trabalhar?
Estou a trabalhar numa empresa chamada Paul Fabrications. A empresa faz parte de um grupo norte-americano chamado Unitech Aerospace.

Quais as suas funções na empresa?
Sou engenheiro de projeto. Sou um dos responsáveis pela industrialização de novos produtos. Em termos gerais, sou o responsável pela gestão do processo desde que o protótipo é apresentado pelo cliente até ao início da produção em série desse componente.

O que o levou a escolher a indústria aeroespacial?
Não foi propriamente uma escolha. A oportunidade surgiu através de um ex-colega de trabalho que me falou da vaga. Então decidi mandar o meu CV e depois de todo o processo de recrutamento, a posição foi-me oferecida. O facto de ter sido na indústria aeroespacial foi uma casualidade, já que a função que desempenhava na área da Melhoria Contínua é adaptável a diferentes áreas de negócio.

“A indústria aeroespacial é como um grande petroleiro... Não é de repente que muda de direção!”

Quais os maiores desafios deste trabalho?
Bem, como deve imaginar, a margem de erro que nos é permitida é zero. Como tal, há que perceber uma série de normas e especificações que balizam todo o trabalho de desenvolvimento e produção. O controlo é apertadíssimo e não é fácil mudar processos. Costumo dizer que a indústria aeroespacial é como um grande petroleiro... Não é de repente que muda de direção! É uma área muito avessa à mudança porque se algo funciona tem que haver uma enorme justificação para que as coisas comecem a ser feitas de outra forma. Isto é válido para materiais, processos de fabrico, desenho das peças, etc..

Este é o primeiro emprego fora de Portugal?
Não. Trabalho na Paul Fabrications desde novembro de 2017. Até aí e desde setembro de 2014 que trabalhava numa empresa chamada Mettis Aerospace, também no Reino Unido.

Foi sozinho?
Sim.

“Há uma falta tremenda de profissionais qualificados no Reino Unido”

O Pedro teve facilidade em mudar de emprego?
Sim. Há uma falta tremenda de profissionais qualificados no Reino Unido, principalmente nas áreas da Engenharia e da Saúde. Normalmente cada três ou quatro semanas recebo um telefonema de uma agência de recrutamento...

Conhece muita gente?
Sim, felizmente envolvi-me muito cedo na “cena” musical local, o que me permite conhecer muita gente. Por acaso não tenho muitos amigos portugueses cá.

Quais os pratos e bebidas característicos?
Por incrível que pareça, a zona de Birmingham é conhecida pela comida indiana! O “Balti” (tipo de caril que é cozinhado num wok, ao invés de lentamente numa panela) foi, segundo consta, inventado para estes lados na década de 70 do século passado.
Birmingham é a segunda maior cidade do Reino Unido, por isso não falta oferta em termos gastronómicos, embora seja curioso que não haja um restaurante português.

“Birmingham é o berço do heavy metal”

Sente falta da comida portuguesa?
Felizmente não me safo nada mal na cozinha e quando quero matar saudades meto as mãos à obra! Mas a diferença está na qualidade dos ingredientes...

Quais as tradições?
Não será propriamente uma tradição, mas Birmingham é o berço do heavy metal. Saíram daqui bandas como os Black Sabbath, GBH, Napalm Death e Godflesh. Também são naturais da região membros de bandas como os Judas Priest, Deep Purple e Led Zeppelin. Ainda hoje existe essa predisposição para a música pesada. Creio que é um reflexo de ser uma cidade muito industrial.

Quais os locais emblemáticos?
Birmingham não tem grandes pontos de interesse. Exemplo disso é o centro comercial “Bullring” ser um dos ex-libris da cidade. Há edifícios interessantes como a Town Hall e o Birmingham Museum, mas pouco mais. A “desculpa” oficial é o facto de a cidade ter sido bombardeada na II Guerra Mundial. Em termos de construção mais recente, a biblioteca da cidade proporciona uma vista avassaladora sobre a cidade. A título de curiosidade, Birmingham tem mais canais do que Veneza!
A cidade tem parques bonitos. Diz a lenda que o Highbury Park serviu de inspiração ao Tolkien para idealizar o Shire...

“O custo de vida que, à parte das rendas, é muito semelhante a Portugal”

Como são os habitantes/o povo do local onde está?
Não gosto muito de generalizar. Há de tudo, como na farmácia! Tenho-me cruzado com pessoas incríveis e com gente que não interessa, como em todo o lado. Como é uma cidade grande, acaba por haver uma mistura grande de culturas que no fundo caracteriza a maior parte das grandes cidades europeias.

O que mais o surpreendeu?
Surpreendeu-me o custo de vida que, à parte das rendas, é muito semelhante a Portugal. Posso dizer que não me surpreendeu verificar que a baixa produtividade dos países do Sul da Europa, nomeadamente de Portugal, é um mito. Achava interessante que a certa altura se pudesse olhar para a gestão das empresas com algum sentido crítico, porque se calhar é onde reside o ónus, mas isso dava para outra entrevista!

O que levou a quebrar esse mito?
Simplesmente perceber que é o que acontece em qualquer lugar se a gestão das empresas se alhear daquilo que é necessário para que os seus trabalhadores possam desempenhar a sua função de uma forma mais produtiva.

Qual é o seu olhar crítico sobre a gestão das empresas?
Como disse, isso dá pano para mangas...Creio que ainda existe muito o hábito da vilanização do trabalhador. Porque é preguiçoso e vai aproveitar todas as oportunidades para fazer o menos possível, o que acaba por afetar a produtividade. Não me recordo de ver a discussão focada nos baixos salários e na grande diferença de rendimentos entre o topo e a base das empresas, na aposta na formação dos trabalhadores, na falta de condições... Antes de criticarem os trabalhadores, já pararam para pensar se lhes deram as ferramentas suficientes para desenvolverem as suas funções de uma forma mais produtiva? Seja em termos de formação ou de equipamento, ou até só de ouvir as suas ideias... Acho que ainda há um caminho grande a percorrer, principalmente nas pequenas e médias empresas...

O que mais custou a adaptar?
O clima é miserável, mas isso não foi propriamente surpresa...Eu sou de adaptação fácil.

“Nunca senti necessidade de, por exemplo, pedir um aumento e raras são as vezes em que trabalho para lá do horário normal”

Há alguma expressão típica do local onde está?
Há várias! O sotaque “Brummie” também foi votado o pior do Reino Unido! “Y’alright, mate?” (olá, tudo bem?) e “Tara-a-bit” (até logo) são dois exemplos. Depois há coisas engraçadas como referirem-se às rotundas como “islands” em vez de “roundabouts”. Quem seguiu a série “Peaky Blinders” já tem uma ideia de como é o sotaque local.

Que sítios costuma frequentar?
Vou muito a concertos. Tenho a sorte de estar numa cidade de passagem quase obrigatória, pelo que já perdi a conta às bandas que vi. Além disso, costumo ir a alguns pubs e a uma pequena galeria de arte contemporânea chamada Ikon Gallery. A associação cultural Centrala e o Mockingbird Cinema também fazem parte do meu roteiro habitual.

“Vir para o Reino Unido deu-me oportunidade para fazer coisas que dificilmente conseguiria em Portugal”

Qual o balanço desta aventura pessoal e profissional?
O balanço é extremamente positivo. A nível profissional tenho tido uma excelente experiência a trabalhar na indústria aeroespacial. É um meio extremamente exigente, mas no qual se é valorizado enquanto profissional. Nunca senti necessidade de, por exemplo, pedir um aumento e raras são as vezes em que trabalho para lá do horário normal. A postura do empregador é completamente diferente. Em termos pessoais, vir para o Reino Unido deu-me oportunidade para fazer coisas que dificilmente conseguiria em Portugal. Consigo viajar imenso e vivo uma vida confortável, sem grandes preocupações a nível financeiro. Pude também continuar a fazer música e isso proporcionou-me fazer amigos e conhecer gente interessante na “cena” local. Desde o ano passado que faço parte da organização de um festival chamado Supersonic Festival.

No início da entrevista disse que desde muito cedo se envolveu na música local. Como entrou para a organização do festival?
Três meses depois de estar cá comecei a tocar numa banda local. Em novembro de 2016 tocámos na festa de abertura do festival. Depois desse concerto, falei com pessoas da organização e ofereci os meus préstimos. Falei-lhes da experiência que tinha adquirido em organização de eventos, nomeadamente nos anos em que estive ligado à Associação Académica da Universidade de Aveiro e a organização do Supersonic acolheu-me de braços abertos!

Qual o nome da banda?
Eu toco baixo numa banda chamada Stinky Wizzleteat. A banda existe desde 2009, mas voltou ao ativo há três anos atrás depois de um hiato. A banda já lançou dois EP's e um álbum, sendo que eu só participei no último EP que foi lançado no ano passado.

“O slogan do festival é “for curious audiences” e quem vai dificilmente não será surpreendido!”

O que pode dizer sobre o Supersonic Festival?
O Supersonic Festival é um festival de música que já tem alguns anos. É caracterizado por oferecer ao público um leque variadíssimo de opções em termos sonoros. O slogan do festival é “for curious audiences” (para públicos curiosos) e quem vai dificilmente não será surpreendido! Depois de ter estado envolvido no ano passado, posso dizer que se trata de um festival “para adultos”. Não há grande cobertura mediática e quem lá vai vai pela música.

Qual o seu papel na organização do evento?
Eu faço o que for preciso durante o fim de semana do festival. Para ter uma ideia, o ano passado fui responsável pela abertura da bilheteira e a coordenação dos voluntários no concerto de abertura. Foi um concerto da Anna von Hausswolf no edifício da Town Hall. Nessa noite também fiz acompanhamento aos artistas. No resto dos dias fui o responsável pela venda de merchandising, quer do festival, quer das bandas. No fundo, sou pau para toda a colher!

“Nunca tive problemas em lidar com a distância”

Visita frequentemente S. João da Madeira?
Nem por isso. Normalmente volto no Verão e na altura do Natal. Infelizmente há poucos voos diretos para o Porto e os preços não são propriamente convidativos.

Como é que o Pedro e a família lidam com a distância?
Felizmente a tecnologia permite uma sensação de proximidade. Falamos praticamente todas as semanas e ou eu vou a Portugal ou os meus pais vêm cá. Nunca tive problemas em lidar com a distância. Passei o ano de 2005 no Brasil e também vivi quatro anos em Lisboa. Acho que é uma questão de hábito. Também tenho sempre alguma sensação de “segurança” ao pensar que em meia dúzia de horas posso estar em casa...

Do que sente mais falta?
Da família e amigos, obviamente, mas, além disso, do mar.

Do que é que sentirá falta, do local onde está, se um dia for para outro país ou regressar a Portugal?
Certamente dos amigos que fiz aqui.

Os seus planos passam por voltar a Portugal?
Nunca se sabe o que pode acontecer no futuro, mas para já não está no meu horizonte. Já sei que o meu pai não vai gostar nada de ler isto...

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