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Bem-vindos ao “mundo encantado” da literatura infantojuvenil

FOTO: Diana Familiar
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Aproveitando o facto de na segunda-feira transata se ter assinalado mais um Dia Internacional do Livro Infantil, o labor foi ao encontro de duas autoras infantojuvenis com ligações a S. João da Madeira.
Tanto Ana Paula Oliveira como Maria Antónia Azevedo não são sanjoanenses. Uma é natural de Arrifana (Santa Maria da Feira) e a outra de Cesar (Oliveira de Azeméis), mas ambas residem e trabalham na cidade, curiosamente, na área do ensino e no Agrupamento de Escolas João da Silva Correia. A primeira como professora bibliotecária e de Português e a segunda como educadora de infância.

“O preço dos livros não ajuda a que a leitura se propague”
Em conversa com a nossa reportagem, as duas deram a conhecer o seu trabalho como escritoras abrindo as portas do mundo da literatura infantojuvenil. Um “mundo encantado” onde “vivem” fadas, princesas, bruxas, animais falantes, etc., que “fazem as delícias” dos miúdos, mas também de muitos graúdos.
Que o diga Ana Paula Oliveira. A docente adora literatura infantil, chegando ao ponto de comprar “mais livros infantis do que para adultos”, imagine-se. “Sinto prazer ao lê-los. Há livros maravilhosos”, confidenciou ao labor. No entanto, está consciente que estes não estão ao alcance de todas as famílias.
Em seu entender, “os pais gostam de literatura infantil e reconhecem a sua importância, mas o problema é que os livros são muito caros”. Uma opinião partilhada por Maria Antónia Azevedo: “o preço dos livros [geralmente acima dos 10 euros] não ajuda a que a leitura se propague”.
Se bem que há sempre a possibilidade de os pais requisitarem livros nas bibliotecas para os seus filhos. E, no caso do AE João da Silva Correia, “os meninos levam todos os fins de semana um livro para ler com os pais em casa”, contou Maria Antónia Azevedo.

Maria Antónia Azevedo ilustra os próprios livros
Maria Antónia Azevedo tem 58 anos, sete dos quais - mais coisa, menos coisa - passados a escrever e a ilustrar os próprios livros.
É verdade que sempre gostou de ler e de ouvir contar histórias. Ainda hoje pensa no avô “como um contador de histórias”, assim como se lembra do primeiro livro - “As Histórias de Coca-Bichinhos”, de Alice Gomes - que lhe foi oferecido por um tio que trabalhava numa tipografia. Mas “mais do que ler gostava de desenhar”.
“Desenhar nasceu comigo. É uma necessidade. Ainda hoje se não desenhar ou pintar todos os dias não fico bem. Para qualquer lado que vá tenho de levar sempre um bloco”, disse ao jornal, acrescentando que “só não fui artista plástica porque naquela altura havia aquele estigma de que quem fosse para Artes não tinha emprego” e “porque o curso de Educação de Infância era menos dispendioso”.
Maria Antónia Azevedo acabou por se formar educadora de infância, contudo, “já casada”, foi para o Centro de Arte de S. João da Madeira para “alimentar o bichinho” do desenho e da pintura.
A paixão pela literatura para a infância surgiu mais tarde, “devido ao meu contacto com as crianças” e “porque começaram a aparecer livros infantis espetaculares”. Começou a escrever e a ilustrar as suas histórias, porque podia guardá-las numa gaveta, algo que não podia fazer com as telas de grande dimensão que até então fora pintando.
Incentivada por “uma colega que estava nas bibliotecas”, acabou por avançar para a publicação do primeiro livro. Só que não foi fácil, porque “enviava as histórias para as editoras mas estas nem sequer me respondiam”. Inicialmente, foi mesmo “uma desilusão completa” até que decidiu comprar os seus livros para depois vendê-los.
Desde então já lançou quatro obras literárias - “Da horta para a compostagem” (2011), “O voo da Joaninha” (2015), “O António quer bater-me” (2016) e “Da liberdade ao rigor” (2018), este último um romance para adultos que “conta um bocadinho a minha história de vida [um pouco “dura], o que passei, que diz muito da minha família” - sendo que algumas delas se encontram disponíveis em algumas bibliotecas do concelho sanjoanense.

Escritoras são pouco conhecidas em S. João da Madeira
O não ser reconhecida na rua como autora e ilustradora não preocupa Maria Antónia Azevedo. “Até os meus alunos só sabem que as histórias são minhas depois de eu as contar e de saber a sua opinião”, que, aliás, “tem sido muito boa”, referiu ao semanário.
“Reconhecimentos à parte”, tem sido convidada para ir a escolas falar sobre os seus livros, mas nem sempre aceita os convites devido, sobretudo, a incompatibilidade de horários. Aliás, o mesmo acontece com Ana Paula Oliveira.
Quanto a novos trabalhos, Maria Antónia Azevedo tem dois “na forja”: um direcionado para a infância e um segundo romance cujos lançamentos não têm para já data prevista.

“Comecei a escrever por necessidade de animar a biblioteca”
Ana Paula Oliveira é professora há quase 36 anos e escritora “para aí há 20 anos”. “Comecei a escrever por necessidade de animar a biblioteca” da Escola EB 2,3 de Arrifana, onde a convidaram para ser professora bibliotecária, “e também porque tenho o hábito de desafiar os alunos a escrever”.
“Para lhes provar que aquilo que lhes pedia não era nada do outro mundo era a primeira a escrever para dar o exemplo”, revelou ao labor, prosseguindo: “sempre desafiei os alunos a participarem em concursos. Eu própria também participo. Pessoalmente já ganhei dois prémios. E na EB2,3 de Arrifana também ganhámos prémios com trabalhos de escrita”. “Aliás, há até quem me chame ‘papa concursos’ [risos]”, completou.
Mas atenção que “a leitura acompanha-me desde pequenina”. A sua relação com os livros já vem da infância: “sempre tive livros em casa e sempre ‘frequentei’ a biblioteca da Gulbenkian. Quando a carrinha da Gulbenkian ia a Arrifana era uma festa”.
Ana Paula Oliveira recorda-se, perfeitamente, do conto tradicional “Corre, corre, cabacinha” “que a minha avó nos contava imensas vezes” e também de “no 5º ou no 6º ano, não sei ao certo”, ter escrito uma composição “tão bonita que a professora pensou que a tinha copiado”.
Versando a ditadura e a liberdade, o seu primeiro livro - “Do cinzento ao azul celeste” - foi publicado em abril de 2009 e foi escrito depois de um aluno lhe ter perguntado “por que temos de andar tanto tempo na escola quando a escola é uma ‘seca’?”.
Ana Paula Oliveira é também autora d’ “O Santo Guloso”, “escrito propositadamente para contar aos mais novos a história de Santa Maria da Feira, das fogaças, do feriado de 20 de janeiro”; do conto “Palavras à solta” que faz parte da antologia de seis contos premiados “Papá, só mais uma”; do conto “Margens que me comprimem”, que integra um ‘livro-objeto’ da editora Artlogy; do livro “Trambolhão no passado” que retrata a história das Invasões Francesas em Arrifana; do conto "Nyambura", incluído na antologia 39 Poemas & Contos Contra o Racismo; de “Em poucas palavras”, composto por 77 microcontos, com 77 palavras exatas cada um. Relativamente a esta última publicação, surgiu na sequência de um desafio lançado pela escritora e bloguer Margarida Fonseca Santos.
Nesta troca de impressões com o labor, a escritora arrifanense deixou ainda um conselho aos pais: “que leiam com os filhos, que lhes comprem livros, que os habituem a criarem a sua própria biblioteca desde pequeninos”. Na sua ótica, “é importante que os pais partilhem leituras com os filhos”, porque “os afetos criam-se através dos livros”.
Registe-se, a título de curiosidade, que na Biblioteca Municipal Dr. Renato Araújo e nas bibliotecas escolares de S. João da Madeira existem “aproximadamente 21.739” livros direcionados para o público infantojuvenil, dos quais “cerca de 10.500” (valor estimado) foram requisitados entre 2017 e a passada terça-feira.
O labor tentou saber os mesmos dados relativamente à Biblioteca de Fundo de Vila, sob alçada da junta de freguesia, mas tal não foi possível até ao fecho da presente edição.






 

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