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Entrevista a Liliana Amorim, enfermeira na Clinique Romande de Réadaptation (CRR – SUVA), em Sion, na Suíça

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“Hoje em dia emigrar é bastante mais fácil do que antigamente”

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Entrevista a Liliana Amorim, enfermeira na Clinique Romande de Réadaptation (CRR – SUVA), em Sion, na Suíça

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Liliana Amorim
A jovem sanjoanense terminou a licenciatura em Enfermagem no ano de 2008 pela Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa de Oliveira de Azeméis. Trabalhou cerca de dois anos na Unidade de Cuidados Continuados de Tábua. Desde que emigrou, trabalhou durante quatro anos e meio num Lar de Idosos, em Fully, e trabalha, desde agosto do ano passado, na Clinique Romande de Rèadaptation (CRR – SUVA), em Sion, na Suíça.
Liliana Amorim andou na EB1 de Fundo de Vila, depois na EB2,3 e na Escola Secundária João da Silva Correia.

O que a levou a deixar a sua cidade, o seu país?
Tomar a decisão de deixar o meu país foi extremamente difícil e levou-me alguns meses, mas a falta de trabalho e as condições de trabalho muito precárias que ofereciam não permitiram outra escolha.

Onde está a trabalhar?
Desde agosto de 2016 estou a trabalhar em Sion, cantão do Valais, na SUVA - Clinique Romande de Réadaption

Quais as suas funções na empresa?
Sou enfermeira de cuidados gerais no serviço de Traumatologia.

Este é o primeiro emprego fora de Portugal?
Não, já é o segundo. Anteriormente tinha trabalhado cerca de quatro anos num lar de idosos aqui na Suíça.

“Penso que fui vista com alguma desconfiança no início, tive que provar o que valia”

Como foi a experiência no lar de idosos?
O lar chama-se Foyer Soeur Louise Bron em Fully (Valais) e no seu global a experiência foi positiva. Apesar de não ser a primeira portuguesa a lá trabalhar, fui a primeira como enfermeira, havia sim muitas auxiliares…enfermeiras portuguesas ainda não. E penso que fui vista com alguma desconfiança no início, tive que provar o que valia. O facto de praticamente não falar Francês dificultou a integração, mas ao mesmo tempo posso afirmar que se hoje sei falar Francês foi muito graças à equipa que me acolheu.
Profissionalmente, apesar de não ser um trabalho tecnicamente atrativo para os enfermeiros, decidi lá continuar durante algum tempo pois estavam a apostar na minha formação e na minha carreira no sentido da gestão da equipa. Fui nomeada enfermeira referente de equipa e a direção ofereceu-me uma Pós-graduação em Gestão de Equipa. Este é o tipo de situações que infelizmente nunca se veem no nosso país.

Foi sozinha?
No dia em que parti, vim com os meus pais que tinham emigrado seis meses antes. Mas aqui na Suíça tenho grande parte da minha família materna e também família paterna. Para trás tinha deixado o meu marido, na altura namorado.

Mais tarde o seu namorado, atualmente marido, juntou-se a si na Suíça?
Sim, um ano e meio depois, em abril de 2013, o André veio para a Suíça. Ele também é enfermeiro e poucos meses depois também encontrou trabalho num hospital próximo.

Conhece muita gente?
A minha ‘rede social’ não é muito grande. Tenho alguns amigos, são sobretudo portugueses, e depois vêm os colegas de trabalho… suíços, portugueses e franceses, essencialmente.

“É muito difícil deixar tudo aquilo a que pertencemos para trás”

Há quanto tempo está a trabalhar na Suíça?
Estou a trabalhar na Suíça desde janeiro de 2012.

Como foram os primeiros tempos?
Muito complicados, muitas noites mal dormidas e muitas viagens para o trabalho feitas a chorar. É muito difícil deixar tudo aquilo a que pertencemos para trás e chegar a um novo país, uma nova cultura, novos hábitos, um país onde estavam quase -20° e nevava imenso, sem conseguir dizer uma frase completa e com imensa papelada para tratar. Penso muitas vezes nesses primeiros meses e dou muito valor àquilo que alcancei. Hoje sinto-me perfeitamente integrada, gosto de aqui viver, sou feliz, mas jamais esquecerei como foi quando aqui cheguei.

Quais os pratos e bebidas característicos?
Bem, a Suíça tem uma gastronomia bastante variada. Aqui na região onde vivo, o Valais, as especialidades são a raclette (um queijo típico derretido, acompanhado de batatas cozidas, pickles e também presunto, salame, etc…) e a assiette valaisanne (prato composto por uma variedade de carnes secas e fumadas, algum queijo, acompanhados por pão de centeio e pickles).
Esta região do Valais é também conhecida pelos seus vinhos. As imensas vinhas que se erguem nas montanhas fazem lembrar a nossa região do Douro vinhateiro. Os vinhos mais conhecidos são o Pinot Noir, o Fendant e o Petite Arvine.

Quais as tradições?
Para além do ski, uma grande tradição aqui do Valais são os ‘combats de reines’, uma espécie de batalha entre vacas de uma determinada espécie. Depois a Suíça é conhecida pelos chocolates, os relógios…

“Na estância de Zermatt existe Col du Cervin, a montanha piramidal das embalagens do Toblerone”

Quais os locais emblemáticos?
A região do Valais fica nos Alpes Suíços e por isso os locais mais conhecidos são as suas estâncias de ski, particularmente a estância de Verbier e a de Zermatt. Na estância de Zermatt existe o famoso Col du Cervin, aquela montanha piramidal que aparece nas embalagens do chocolate Toblerone.

Como são os habitantes/o povo do local onde está?
Os habitantes desta região em particular são especiais. As gerações mais jovens assemelham-se muito aos jovens do Sul da Europa, mas as gerações mais antigas, do meu ponto de vista, são ainda muito fechadas sobre si mesmas. De início têm alguma dificuldade em aceitar os estrangeiros que vieram para trabalhar, sobretudo os que cá chegaram com formação superior.

“Aqui a vida começa bem cedo, muito cedo mesmo”

O que mais a surpreendeu?
Os horários! Aqui a vida começa bem cedo, muito cedo mesmo. Tudo o que é comércio e serviços públicos começam em média uma hora mais cedo do que em Portugal. No meu caso, por exemplo, enquanto o turno da manhã em Portugal só começa às 8h00, aqui normalmente começa às 7h00, ou mesmo às 6h30 como no meu anterior trabalho. Claro que depois, ao fim do dia, as pessoas chegam a casa também mais cedo, os bares e restaurantes também fecham cedo. A partir das 21h30/22h00, encontra-se muito pouca gente na rua. Penso que nos grandes centros urbanos como Genéve e Lausanne seja diferente.
O que também me espantou foi, ainda nesta questão dos horários, o funcionamento dos hipermercados e centros comerciais. Para começar, tudo está fechado ao domingo. Depois, durante a semana fecham por volta das 18h30 e ainda mais cedo ao sábado. Agora quando vou a Portugal até é estranho poder fazer compras à noite ou ao domingo…

O que mais custou a adaptar?
A barreira do Francês foi complicada de ultrapassar nos primeiros meses. Sobretudo para poder trabalhar e prestar cuidados com qualidade, é preciso ter algum domínio da língua. Uma vez superada esta dificuldade e assim que me habituei aos horários, a adaptação ao país e a esta região não foi difícil.

“Hoje conseguimos comunicar com toda a gente em qualquer sítio”

O que poderia melhorar?
Não há muito a melhorar. Até acho que hoje em dia emigrar é bastante mais fácil do que antigamente. Hoje conseguimos comunicar com toda a gente em qualquer sítio, conseguimos ver e ouvir a televisão e a rádio portuguesa, encontramos aqui e ali um restaurante ou uma padaria portuguesa. Estas ‘pequenas’ coisas, que aos olhos de quem está no seu país parecem insignificantes, para quem está fora são os pequenos tesouros que nos tornam a vida um nadinha mais confortável.

Há alguma expressão típica do local onde está?
Sim, imensas. Aqui no Valais, como as pessoas estão muito focadas naquilo que é seu, na sua vila, no seu bairro, nas pequenas vilas praticamente todos se conhecem, todos têm ou uma pequena vinha, ou animais, ou campo de cultivo. Por isso quando veem alguém que não sabem quem é, saem de forma quase automática frases como: “Onde tens as tuas vinhas?”, “Onde tens as tuas vacas?”, “És filho de quem?”. É engraçado…

Tem alguma pequena vinha, animais ou campo de cultivo?
Não, não. E estas frases são mais típicas das gerações mais antigas e eles fazem-nas àqueles suíços que sabem que não são das redondezas. Eles veem bem quem é estrangeiro…

Que sítios costuma frequentar?
A vida de enfermeira, com os seus horários irregulares, não permite uma vida social muito ativa, mas quando temos algum tempo livre gostamos sobretudo de passear pelas montanhas ou pelos inúmeros lagos que existem na região.

“Apesar de ter sido uma escolha difícil, foi a escolha acertada”

Qual o balanço desta aventura pessoal e profissional?
Faço um balanço positivo, muito positivo. Primeiro, apesar de ter sido uma escolha difícil, foi sem dúvida a escolha acertada. A nível profissional, ofereceram-me sempre condições de trabalho excelentes e apostaram na minha formação, existindo sempre a possibilidade de progressão na carreira. A nível pessoal o balanço é ainda mais positivo. Hoje posso pensar na possibilidade de constituir família de forma segura, sabendo que a nível financeiro normalmente não existirão complicações e que socialmente este é um país seguro e que favorece a natalidade.

Do que sente mais falta?
Da família e dos amigos que estão em Portugal. Do mar, das esplanadas à beira-mar, do peixe e do marisco frescos. Dos jantares e cafés com os amigos…

Do que é que sentirá falta, do local onde está, se um dia for para outro país ou regressar a Portugal?
Da calma e segurança da região onde vivo. Do sol de Inverno, da neve, das casas bem quentinhas quando estão -10° lá fora…

Os seus planos passam por voltar a Portugal?
Sim, um dia com certeza. Não sei se daqui a 10 ou 20 anos, ou se apenas quando estivermos reformados. Mas sem dúvida que voltarei a viver no meu Portugal.

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