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Entrevista a Carlota Amado, pianista sanjoanense que está em Munique

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“A música clássica está enraizada na cultura do povo alemão”

Carlota Amado num café em Munique
FOTO: Direitos Reservados
Jardim do Castelo Nyphemburg
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Marienplatz Munique
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Rio Isar Munique
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Weissenburgerplatz Munique
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Entrevista a Carlota Amado, pianista sanjoanense que está em Munique

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Carlota Amado Santos Leite tem 29 anos, é natural de S. João da Madeira, pianista concertista a solo e em música de camara e ainda professora de piano na Ismaning Musikschule, Klavierschule München, em Munique na Alemanha.
A pianista sanjoanense iniciou os seus estudos musicais aos seis anos de idade e a partir dos oito “cada vez se tornou mais sério”, contou ao labor.
Carlota Amado é licenciada em Piano pela Universidade de Aveiro, frequentou o programa “Erasmus” e concluiu o mestrado em Música na Hochschule für Musik Karlsruhe. A jovem sanjoanense iniciou os estudos na Academia de Música de S. João da Madeira aos seis anos e prosseguiu-os aos oito na escola Curso de Música Silva Monteiro no Porto.

O que recorda dos primeiros anos de aprendizagem de música?
Recordo que tudo acontecia com naturalidade, mas fui sempre muito disciplinada, praticando todos os dias. O tempo dedicado ao piano foi aumentando gradualmente ao longo dos anos.

“Desde criança mostrei muito interesse pela música”

A iniciativa de aprender música foi sua ou de familiares?
A iniciativa partiu da minha mãe, que considerava a música tão importante como qualquer outra disciplina. Além disso, desde criança mostrei muito interesse pela música.

Porquê o piano?
A minha avó e a minha mãe estudaram piano, sendo esse o instrumento que eu conheci de perto desde cedo e que despertou o meu interesse.

O que a levou a deixar a sua cidade, o seu país?
Saí do meu país ao abrigo do programa “Erasmus” com o intuito de estudar num ambiente internacional e poder conhecer de perto culturas diferentes.

Como foi a experiência Erasmus na Alemanha?
A experiência Erasmus foi muito positiva. Conheci muita gente de diversas nacionalidades, abri os meus horizontes. Foi muito enriquecedora quer a nível musical quer a nível pessoal.

“Chego a falar quatro línguas num dia”

A experiência no estrangeiro continuou até então. Como tem sido?
Estou muito adaptada, adoro o meio multicultural em que vivo. Chego a falar quatro línguas num dia. Claro que às vezes tenho saudades de “casa”, mas posso sempre apanhar um voo num instante!

Onde está a trabalhar?
Em Munique.

Está a trabalhar em alguma empresa/instituição?
Sim.

Onde?
Ismaning Musikschule, Klavierschule München.

Há quanto tempo?
Desde 2014.

Podemos considerar que é uma trabalhadora independente?
Sim, sou trabalhadora independente e ainda professora efetiva de piano num conservatório público.

De que forma desenvolve o seu trabalho?
Trabalho como pianista independente, atuando a solo e com vários grupos de música de câmara (piano a quatro mãos, dois pianos, trio e quarteto de cordas, etc.) e sou professora efetiva de piano num conservatório público.

Este é o primeiro emprego fora de Portugal?
Sim.

Foi sozinha?
Sim.

“Realmente percebemos como o mundo é grande e como as culturas são tão diferentes”

Conhece muita gente?
Sim, conheço principalmente estrangeiros, da Sérvia, Croácia, Montenegro, Grécia, Espanha, Japão, França, e também alguns portugueses, quase todos ligados à música.

Como é conviver com tantas pessoas de culturas diferentes?
Eu adoro. Realmente percebemos como o mundo é grande e como as culturas são tão diferentes.

Como foram os primeiros tempos?
Foram de adaptação e exploração da cidade.

Quais os pratos e bebidas característicos?
Cerveja, vinho branco, perna de porco assada.

Quais as tradições?
A famosa “Oktoberfest”, Festa da Cerveja onde se pode provar a cerveja das várias marcas alemãs: Franziskaner, Paulaner, etc..

Quais os locais emblemáticos?
“Marienplatz”, a praça principal da cidade; “Englische Garten”, Jardim dos Ingleses; Ópera de Munique; “Gasteig”, edifício onde atua a Orquestra Filarmónica de Munique; “Pinakotheken”, um conjunto de vários Museus; e “Nymphemburg Schloss”, um castelo.

O que distingue o local onde está?
A organização da cidade, a limpeza, a facilidade de transportes, a diversidade diária de oferta cultural.

Como são os habitantes/o povo do local onde está?
Em Munique cerca de 40% da população é estrangeira. Por incrível que pareça às vezes até se torna difícil encontrar um alemão. Vejo os alemães como pessoas um pouco distantes, podem até parecer frios, mas após alguma convivência tornam-se bastante mais afetivos. Desde crianças os alemães são educados de forma a serem independentes e muito respeitadores. Penso que às vezes a ligação familiar não é tão forte como a sentida nos países latinos ou Balcãs.

O que mais a surpreendeu?
Quando vim para Alemanha estudar, em 2008, deparei-me com classes de alunos e professores de elevado nível. Fiquei surpreendida com as excelentes condições que a universidade oferecia aos alunos, a qualidade e quantidade de pianos em salas de estudo num edifício especialmente projetado para o efeito, assim como nas salas de aula e auditórios.

“Não me custou muito a adaptação”

O que mais custou a adaptar?
Na verdade, não me custou muito a adaptação, pois o entusiasmo e a vontade de evoluir superaram qualquer dificuldade.

A língua foi um entrave?
No início foi difícil, pois tive que aprender a língua rapidamente. Embora toda a gente falasse Inglês, na universidade foi-me exigido que ao fim de três meses falasse o básico do Alemão.

Há alguma expressão típica do local onde está?
“Mia san mia” é uma expressão usada na Baviera que significa “Nós somos nós”.

Como é a Baviera?
Sinceramente ainda não tive oportunidade de conhecer muito da Baviera, para além da cidade de Munique e das pistas de ski de Garmisch Partenkirchen.

A bicicleta é “o meu principal meio de transporte”

Que sítios costuma frequentar?
Assisto semanalmente a concertos de solistas, de orquestras e a musicais. Pratico dança como hobby. Com os amigos frequento restaurantes de variadas culturas gastronómicas tais como persa, grega, as tapas espanholas...
Faço muitos quilómetros de bicicleta, pois é o meu principal meio de transporte.

Qual a sensação do principal meio de transporte ser a bicicleta?
A bicicleta, como principal meio de transporte, dá-me uma sensação de liberdade e de maior controlo do tempo necessário nas minhas deslocações.

Sente falta da gastronomia portuguesa? Se sim, de quê em particular?
Sim, especialmente de peixe grelhado.

“Os músicos, assim como todos os artistas, para serem verdadeiramente respeitados em Portugal, têm de ser em primeiro lugar reconhecidos no estrangeiro”

Qual o balanço desta aventura pessoal e profissional?
Profissionalmente sinto-me muito mais realizada, as oportunidades são muitas. Estou num país em que a música está completamente enraizada na cultura e isso nota-se a todos os níveis. Os músicos neste país são verdadeiramente respeitados.
A nível pessoal como sempre fui aventureira e adoro viajar, não me importo de andar de um lado para o outro. Sempre que posso, visito a minha família em Portugal, pelo menos três vezes por ano.

Os músicos não são verdadeiramente respeitados em Portugal?
Os músicos, assim como todos os artistas, para serem verdadeiramente respeitados em Portugal, têm de ser em primeiro lugar reconhecidos no estrangeiro. Além disso em Portugal não se valoriza da mesma forma a cultura, não se reconhecendo aos músicos o direito à remuneração pelo seu trabalho, da mesma forma que noutras profissões.

Quais as principais diferenças que sente na área da cultura entre Portugal e a Alemanha?
Penso que o nível dos músicos portugueses tem vindo a crescer, embora sintam a necessidade de estudar e de procurar oportunidades para mostrar o seu trabalho no estrangeiro. Sente-se uma grande diferença no meio envolvente e falha na qualidade da organização, marketing e publicidade dos eventos em Portugal.
A música clássica está enraizada na cultura alemã o que contrasta com o que se passa em Portugal, onde a música clássica não é devidamente apoiada nem desperta grande interesse à maioria da população.

Do que sente mais falta?
Da família, do sol e do mar.

“Não tenho medo de mudanças”

Do que é que sentirá falta, do local onde está, se um dia for para outro país ou regressar a Portugal?
Sentirei falta da eficiência das pessoas em qualquer situação ou trabalho. Acho impressionante como é tudo tratado a tempo e horas e ninguém falha com a sua parte. A burocracia é bastante menor do que em Portugal, o que também facilita a concretização de qualquer projeto profissional ou mesmo a resolução de situações rotineiras.

Os seus planos passam por voltar a Portugal?
Não gosto de fazer planos a longo prazo. Para já estou bem assim, mas estou consciente que um dia isso possa mudar...Depois vê-se, não tenho medo de mudanças.

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