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Em 1983 Sérgio Salvador chegava a Portugal, vindo do Brasil, para representar a Sanjoanense. O que esperava ser uma experiência acabou por se tornar definitivo e hoje, 35 anos depois, tem Portugal como país e S. João da Madeira no coração. Em 2017 regressou ao clube alvinegro, agora como treinador da equipa sénior, e recentemente prolongou o vínculo com a Sanjoanense por mais uma época

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“A mensagem foi passada, eles ouviram, as vitórias apareceram, o público entusiasmou-se e tudo ficou mais fácil”

FOTO: Nuno S. Ferreira
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Em 1983 Sérgio Salvador chegava a Portugal, vindo do Brasil, para representar a Sanjoanense. O que esperava ser uma experiência acabou por se tornar definitivo e hoje, 35 anos depois, tem Portugal como país e S. João da Madeira no coração. Em 2017 regressou ao clube alvinegro, agora como treinador da equipa sénior, e recentemente prolongou o vínculo com a Sanjoanense por mais uma época

Labor: Quando chegou a Portugal a primeira experiência como jogador foi precisamente em S. João da Madeira, na Sanjoanense.

Sérgio Salvador: Isso foi em 1983, já vai há muito tempo. Vim com 23 anos e pensava fica um ano, conhecer a realidade e regressar ao Brasil, mas as coisas correram de maneira diferente e já estou cá já lá vão 35 anos. Costumo dizer que nasci no Brasil, mas em Portugal nasci em S. João da Madeira. Foi a primeira cidade para onde vim e que conheci. Estive aqui durante dois anos, que correram conforme o previsto e conseguimos manter a equipa na 1.ª Divisão. Desde essa data construí amizades que duram até hoje. Tenho uma ligação profunda com S. João da Madeira.

Entretanto saiu da Sanjoanense, mas acabaria por regressar, mais tarde, ao clube alvinegro.

Estive na Sanjoanense duas épocas completas, entretanto saí e fiz seis ou sete meses na Argentina. Quando regressei recebi um convite do Sangalhos e a partir daí passei por vários clubes de Aveiro. No meio disso saiu uma lei que considerava os brasileiros como estrangeiros e como eu não pude jogar até regularizar a situação vim para S. João da Madeira. Nesse ano a Sanjoanense estava na 2.ª Divisão e acabei por fazer os últimos seis meses no clube, que se encontrava numa situação complicada. Joguei os últimos nove jogos, onde vencemos oito e perdemos o último, com a Académica de Coimbra e, por isso, falhamos a subida de divisão.

A Sanjoanense foi uma boa escola para o começo da modalidade em Portugal?

Para mim foi. No Brasil jogava numa posição e quando vim para cá joguei noutra e aí já mudou muita coisa, mas adaptei-me com facilidade. Foi também aqui que me fui ambientando à maneira como se vivia na Europa, que é diferente do Brasil.
Lembro-me que no segundo ano na Sanjoanense tive uma proposta para sair, mas continuei no clube porque tinha dado a minha palavra e acho que isso acabou por ser bom, porque foram dois anos de continuidade num clube e terra que já conhecia, com pessoas que gostavam de mim e onde me sentia bem. Ajudou-me a moldar o tipo de homem que sou hoje, a minha maneira de pensar e até a minha educação, entre outras coisas.

Como atleta representou equipas do Brasil, Argentina e Portugal. A passagem por estes países contribuiu, de alguma forma, para o tipo de treinador que é hoje?

A vida é uma escola e nós temos de aprender e de nos adaptar aos lugares que não são nossos. Todos o lugares e clubes por onde passei e pessoas com quem contactei sempre me deixaram alguma coisa.
Tudo isso nos dá experiência e temos de tentar aprender e tirar o que pudermos para depois continuarmos a construir a carreira de jogador e mais tarde, para muitos, de treinador.

Em 2017 regressava à Sanjoanense, agora como treinador. Que análise faz da época que terminou?

Quando aceitei o convite sabia que vinha para um clube de gente que gosta de basquetebol, que enche pavilhões, que conhece a modalidade e com um grupo de pessoas que estava interessado em manter a modalidade viva. Sabia que não ia ser fácil porque a Proliga é um campeonato muito difícil onde um jogo pode decidir o futuro da equipa. Podemos chegar à última jornada com os mesmos pontos e um lance livre nos últimos segundos decidir toda uma época e empurrar a equipa para o grupo de baixo. Sabia que era um trabalho que tinha de ser bem pensado e que teria que tentar mudar alguma coisa em termos de mentalidades, fazer com que as pessoas pensassem mais longe e mais à frente. O trabalho principal foi esse. Fizemos com que a equipa ficasse mais ambiciosa e conseguimos ficar no grupo de cima. Aí fomos lutando jogo a jogo.

Foi então uma época positiva?

Não foi uma época excelente, mas foi muito boa, acima do que era esperado, e que terminou com o sentimento de que as coisas correram bem e que a tarefa que nos foi entregue foi cumprida.
Desde início propusemo-nos jogar sempre jogo a jogo e todos os fins de semana tínhamos a pressão em cima de nós. Quando alcançámos o grupo de cima a pressão aliviou, mas continuámos a querer mais e, por isso, mantivemos a mentalidade de lutar sempre jogo a jogo até chegarmos à última jornada ainda com possibilidade de subir.

E o que é que falhou para que a Sanjoanense não conseguisse a subida?

Tivemos dois grandes percalços ao longo da época, a derrota aqui com o Imortal e fora com o Benfica B. Foram dois jogos em que a equipa esteve diferente, não jogou da maneira que eu queria. Nesses encontros marcamos 80 e tal pontos, quando o nosso normal são 60 ou 70, mas também sofremos 80 e tal, quando o normal são 50 ou 60. Esses dois jogos acabaram por ditar a nossa não classificação para o grupo dos primeiros. Se tivéssemos mantido a nossa identidade, se calhar, as coisas tinham corrido de maneira diferente.

Ainda assim, a equipa acabou a disputar a subida quando a meta era a manutenção. Alguma vez pensou que no final da época poderia estar lutar por esse objetivo?

Este ano pediram-me a manutenção, mas na cabeça do treinador ele não quer só isso. Quer ganhar mais alguma coisa e vencer todos os jogos. Eu trabalhei sempre para colocar a equipa a ganhar e para que alcançasse a melhor classificação possível. É claro que no início, até que todos se começassem a encaixar, foi difícil, mas quando tudo começou a correr sabia que ia lutar pelos quatro primeiros. E quando vi que estava tudo encaixado e bem encaminhado comecei a colocar mais pressão nos jogadores.

E foi fácil mentalizar o grupo de trabalho para o novo objetivo?

Isto é tudo uma bola de neve. É importante que todo o grupo que está envolvido trabalhe para o mesmo lado e às vezes uma palavra pode ser bastante importante.
A ideia era fazer com que os jogadores acreditassem que podiam ganhar jogos e que pensassem em ir mais longe e isso demorou um bocado. Mas a mensagem foi passada, eles ouviram, as vitórias apareceram, o público entusiasmou-se e tudo ficou mais fácil.

Para além de treinador da equipa sénior acumulou funções como coordenador técnico do minibasquete. Que análise faz ao trabalho nos escalões mais jovens neste ano?

É um trabalho complicado porque é necessário acompanhar todas as equipas e às vezes é difícil quando se está ligado a outra coisa, como eu estou aos seniores. Numa primeira fase, quando começou o trabalho do minibasquete foi possível acompanhar os treinos e verifiquei que os técnicos trabalhavam bem e, por isso, não foi preciso mudar muita coisa. Acho que está tudo bem encaminhado, embora o número de praticantes possa aumentar ainda mais, mas para isso é necessário criar condições para que isso aconteça.

A secção está, então, no caminho certo.

Certíssimo. Tem que tentar aumentar o número de praticantes e dar continuidade ao trabalho de captação, como tem vindo a ser feito nas escolas ou nas paragens dos campeonatos da formação, com os campos de férias a serem aproveitados para puxar miúdos para o basquetebol. A partir dai a filtragem vai sendo feita naturalmente pelas equipas. Está no bom caminho, tem é que ser trabalhado para que possa ser dada continuidade nos restantes escalões, para que nos sub18 saiam jogadores para a equipa sénior.

Na próxima época volta a estar no comando da equipa sénior. Porque é que decidiu renovar?

O facto de ter o meu filho em S. João da Madeira, a ligação que tenho com a cidade e com as pessoas de cá e de me sentir bem nesta cidade e no clube foram fundamentais para a minha decisão. Quando me reuni com a direção e me fizeram a proposta, após um pequeno tempo de análise, acabei por aceitar porque sinto-me bem aqui.
Vou ficar mais um ano e espero que corra tudo bem para o clube e para a cidade, porque é uma responsabilidade muito grande representar o basquetebol da Sanjoanense, que é uma modalidade com história.

E em relação à equipa, irá sofrer muitas alterações?

Penso que vão haver muitas mexidas. Era muito bom que a base da equipa continuasse e tentássemos reforçar e melhorar só alguns setores, mas vai ser muito difícil, porque há jogadores que devido aos estudos ou por motivos profissionais vão deixar de jogar. Ainda assim, penso que aqueles que são o esqueleto da equipa vão permanecer.
Temos de reunir um grupo competitivo homogéneo e que tenha um fio de jogo e uma maneira de jogar que seja igual e que resulte em vitórias.

Quais serão os objetivos para a próxima época?

Vamos tentar melhorar um pouco, mas vai ser muito difícil porque as regras vão mudar. Vai ser possível, por exemplo, jogar com dois estrangeiros em vez de apenas um. Vai ser um campeonato complicado e não vamos traçar nenhuma meta. O nosso objetivo principal continua a ser a manutenção e vamos trabalhar para que seja garantida o mais cedo possível. A partir daí é lutar por mais alguma coisa. Não adianta pensar muito à frente porque neste campeonato da Proliga vai-se ganhar ou perder onde menos se espera.

A equipa vai entrar na terceira época na Proliga. Quando é que acha que o clube deve começar a trabalhar para assumir de início a subida de divisão?

Temos uma direção que se esforça, que trabalha e que pensa em melhorar. Temos um ótimo pavilhão com condições para fazer um bom trabalho e público que é assíduo. Nós temos é que melhorar em relação à época passada, pois não era nosso objetivo a subida de divisão e quase que acontecia.
Quando chegarmos a um campeonato e olharmos para as outras equipas e virmos que dá, é aí que o clube tem de apostar forte para subir. Essa será a altura certa.
Neste momento não adianta dar um passo maior do que as pernas se depois não se tem estrutura para continuar.
Para apostar numa subida de divisão é necessário estruturar e arranjar parceiros fortes, que gostem de basquetebol e que estejam ao lado do clube durante alguns anos. A Sanjoanense, pelo historial que tem no basquetebol, merece chegar à Liga e se isso acontecer fora dos planos, como esteve perto de se suceder este ano, S. João da Madeira tem capacidade para responder a isso.

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