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Prana lançam “Ser Nenhum”, amanhã, às 22h00, na Casa da Criatividade

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“É o disco mais autobiográfico”

FOTO: Nuno Santos Ferreira
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Prana lançam “Ser Nenhum”, amanhã, às 22h00, na Casa da Criatividade

Os Prana...
São Miguel Lestre, voz e baixo, João Ferreira, guitarra, e Diogo Leite, bateria. A história começou num ambiente relaxado, com serões em noites de Verão, cervejas e um jardim, o Jardim Municipal de S. João da Madeira, onde Miguel e João conheceram-se “musicalmente”. Um pouco depois, entra em cena Diogo Leite. Depois do EP “1” em 2008, dos álbuns “Trapo Trapézio” em 2011 e “O Amor e outros Azares” em 2014, agora é tempo de “Ser Nenhum”.
O lançamento do terceiro álbum dos Prana é já amanhã, dia 16 de fevereiro, pelas 22h00, na Casa da Criatividade.
À conversa com o labor esteve Diogo Leite em nome de todos os elementos dos Prana.

Os bilhetes para o concerto já estão praticamente esgotados. Que reação têm a isto?
Claro que é sempre bom porque no momento em que estávamos a selecionar o local de escolha de lançamento estávamos a pensar fazê-lo fora de S. João da Madeira. Na verdade, já tocámos ali algumas vezes e estávamos com algum receio que fosse “chover no molhado”. Por outro lado, faz todo o sentido. Por que não tocar na casa ou em casa, não é? Não esquecendo que é uma belíssima casa a nível de acústica e logística. A cereja em cima do bolo foi a facilidade que houve em trabalhar este concerto. Neste caso, a câmara municipal e a Casa da Criatividade foram incríveis com aquela brincadeira dos diretos que fizemos. Ou seja, o álbum já está cá fora porque cederam-nos o espaço com aquela logística incrível em que toda a gente esteve ali de braços abertos numa de querer ajudar. Nós todas as terças e quintas publicávamos duas músicas em direto com as gravações lá feitas. Apesar do álbum só sair esta semana, as pessoas mais do que ouvir já nos viram mesmo a tocar num formato bem intimíssimo. Esta semana fizemos o direto completo das filmagens todas. Foi interessante. Já deu para ver quais os temas mais “orelhudos”, a reação das pessoas.

“É a primeira vez que trabalhamos apenas os três sozinhos”

Quantos temas são?
13. Este disco é muito direcionado para o número três. Na verdade, é a primeira vez que trabalhamos apenas os três sozinhos. Assumimos o trio. Até aqui éramos um quarteto. Já trabalhamos com o Elísio Donas dos Ornatos, o Miguel Ferreira dos Clã, a Ana Moreira que é da casa (S. João da Madeira), o André que foi o primeiro guitarrista e reparámos que era sempre o quarto elemento por motivos diferentes e alheios que muitas vezes se tornava “a pedra no sapato” no bom sentido da expressão.

O que é as pessoas podem esperar da apresentação deste terceiro álbum?
Este disco, na verdade, foi o disco mais complexo e mais duro de ser criado.

Porquê?
Estávamos os três com a nossa vida pessoal um bocado às aranhas. Foi muito complexo. E depois partiu de alguém: isto assim vai ser muito duro. Não estava a resultar. Então tivemos uma excelente ideia que recomendo a todas as bandas, a todo o pessoal criador, que, de um momento para o outro, tem de sair dos problemas pessoais e bora lá criar. Alugamos uma casa a um amigo nosso, fomos para Arouca, daí o disco também ter um tema que é “Boa noite Arouca”.
Desligamos tudo e quando chegamos à casa reparamos que nem rede tínhamos no telemóvel. Apesar de estarmos a meia dúzia de quilómetros, era um outro espaço em que estávamos em contacto uns com os outros diariamente. Só estávamos para aquilo. Foi uma forma incrível de nos conhecermos e mesmo esta questão de criatividade diferente, a três, foi muito melhor.

É caso para dizer que se “encontraram” todos?
Completamente. Foi mesmo incrível.

Que histórias contam estes 13 temas?
A escrita de todos os temas é da autoria do Miguel. Portanto, o máximo que por vezes fazemos, porque ele pede, é ajudar no conteúdo, conceito, tema e muitas vezes no próprio nome do tema. Agora a escrita, ele escreve bem, nós os dois (João e Diogo) jamais chegaríamos àquele nível, adoramos a escrita. O que ele diz reflete...

O que vocês estavam a passar no momento da gravação?
Sim. E mais do que isso ele próprio o diz, ainda o disse na semana passada numa entrevista, que é o disco mais autobiográfico que ele fez. Até aqui havia algum receio de falar de nós próprios e pelos vistos é o disco que falou mais dele, de nós e daquilo que estávamos a passar e a sentir naquela altura.

“Até ao Verão o mesmo disco irá sair pela primeira vez em vinil”

Quem for ao lançamento poderá comprar o disco?
Sim. O disco já está à venda no próprio dia 16 na Casa da Criatividade. Até ao Verão o mesmo disco irá sair pela primeira vez em vinil. Não tem a ver com o fator moda. Até porque não somos banda de moda, nem música de moda. Acho que é uma teimosia nossa. Isso deu com que tivéssemos uma parceria com o criador da nossa capa que é o Locca Faria, um brasileiro que está ligado a muitas novelas da Globo, a muitas capas de disco brasileiros e não só. Isso foi um dos pontos chave e cruciais para ele trabalhar da forma como trabalhou connosco. Com ele também conseguimos, um bocadinho por teimosia dele, e ainda bem, mudar a imagem da banda. Tínhamos algum complexo nosso. Nunca gostámos de colocar as nossas caras no disco. Tínhamos algum receio com isso e é preciso vir um senhor fazer um monte de quilómetros para dizer que faz todo o sentido e mais algum. Temos o disco, pósteres, cartazes de concerto com um formato que não tem nada a ver com o que temos feito até aos dias de hoje.

Vocês lançaram o EP “1” em 2008 e agora vão lançar o terceiro álbum em 2018. Como eram os Prana há 10 anos?
Há 10 anos éramos completamente inconscientes. Havia ensaios ao domingo de manhã em que não íamos à cama no sábado. Isso aconteceu várias vezes. Lembro-me de um episódio que ainda há dias contávamos entre nós quando estávamos em Arouca a delirar uns com os outros. Uma das coisas mais importantes na altura que fizemos foi participar no programa Aquário, que já não existe, infelizmente, no Porto Canal. Era dificílimo ir lá. Todas as bandas mandavam maquetes, CD’s, cassetes. Nós enviamos a gravação de um ensaio, nem tínhamos disco ainda. E os fulanos entraram em contacto connosco, marcaram. Ficou marcado. A dado momento estávamos a ensaiar para esse dia, julgávamos que era no dia a seguir (segunda-feira). Estávamos quase de direta a ensaiar na nossa sala de ensaios antiga, até que o responsável nos liga: então Diogo, tudo bem? Onde estão? Eu disse: está tudo bem, estamos a ensaiar. E ele: sim, mas a gravação começa dentro de 10 minutos. Foi louco.

“Começamos a conhecer as ratoeiras deste mercado neste país tão complexo”

Como são os Prana agora?
Estamos mais maduros, mal era. A parte da estupidez está sempre ali um bocadinho e ainda bem e isso reflete-se nos concertos. Acho que é uma das coisas que não sei como é que as pessoas sentem, mas é um comentário que se ouve: vocês têm uma cena os três inacreditável. Não tem a ver a nível técnico, mas com sintonia.
Estamos mais conscientes, mais organizados, também sabemos e começamos a conhecer as ratoeiras deste mercado neste país tão complexo. Por isso mesmo fizemos um disco quase com as nossas próprias regras. Pela primeira vez não estávamos a pintar ou a criar a pensar isto tem de ser para ali ou para acolá. Não. Isto tem de ser da forma como estamos a sentir. Se gostarmos, está-se bem. Muito honestamente, se calhar, no passado, corremos esse risco. Não é direcionar a música porque isso chega a ser quase prostituição, desculpa o termo, mas estávamos sempre naquela preocupação e este foi mesmo olha tu gostas, também gosto.

Foram fiéis a si próprios...
É a melhor expressão para definir isso. E há aqui um aspeto muito importante. Neste disco há aqui um tema que não entrou no disco anterior porque foi dito: é pá se calhar isto não. Passado uma série de anos mostramos a outras pessoas, produtores e disseram: isto onde é que estava, isto é a mesma banda?

Qual era o tema?
“Um segundo antes de acordar”. É irónico porque o próprio tema também começa como se estivesses a ouvir um vinil antigo, distorcia e não sei quê e é um dos temas mais fortes do disco e que agora faz todo o sentido e encaixa ali que nem uma luva.

É difícil vingar ou tentar no mundo da música em Portugal?
Completamente. Nós próprios temos muitas pérolas dentro de gavetas por diferentes motivos. Não quero estar aqui a identificar a culpa é deste ou daquele. Apesar de sermos um país bastante pequeno, várias decisões e opiniões passam por poucas pessoas. Ficamos aborrecidos, tristes e até justifica por fazermos assim este disco. Não quero passar a ideia que fizemos o disco para os três, não é isso, mas gostamos pronto. Nós é que temos de representar, colocar aquela informação cá para fora, sentir aquilo...se nós próprios não sentirmos, quem é que vai sentir? Ninguém.

“Um disco mais eletrónico, mais orgânico, não tão direcionado para a acústica disto ou daquilo”

Como descreverias a vossa música quando começaram e agora?
É quase uns sonhadores versos realidade.

Que diferenças notaram nas sonoridades?
Está muito mais dançante, eletrónico, não tão acústico. Quando começamos era muito direcionado para o grande piano, a Ana estava no Piano, eram canções mais ligadas à acústica. Aqui não, muito pelo contrário. Aliás, o João teve um trabalho redobrado porque teve de pensar nas linhas de guitarra, nas linhas de teclado, uma vertente que até agora volta e meia tentávamos, mas ainda não era o momento. É um disco mais eletrónico, mais orgânico, não tão direcionado para a beleza, a acústica disto ou daquilo. Agora a grande diferença é que é um disco que pode tocar numa discoteca e até aqui gostavas de estar num auditório com um copo de vinho a saborear.

“São 10 anos num país difícil em que se trabalha tanto à base do “nim””

Como imaginam os Prana daqui a 10 anos?
Acima de tudo, daqui a 10 anos quero continuar a encontrar-me com estes dois grandes malucos semanalmente com os nossos problemas, risadas, brincadeiras completamente estúpidas e inconscientes. Acima de tudo, isso é que foi o pilar de muita coisa que já aconteceu aqui. São 10 anos, não são 10 dias, num país difícil em que se trabalha tanto, se elabora tanto à base do “nim”, nem não nem sim. Tu crias, fazes, mexes porque se há coisa que somos, modéstia à parte, é uma banda irrequieta.

Já estão a trabalhar noutros projetos?
Acabámos de fazer um disco e já estamos a iniciar novamente o “Prana Convida”, a querer fazer canções que já saíram em disco com uma nova roupagem. A nível de música estamos a sempre a mudar e mesmo nós os três gostamos de coisas muito diferentes. Eu sou cada vez mais direcionado para o jazz, o João para a música clássica, o Miguel digamos que é o rocker da banda. Acaba sempre por funcionar e acontecem cenas incríveis. Há comunicação entre nós e se há coisa que nos preocupa, como num relacionamento, é que a coisa entre em monotonia e muitas vezes até somos criticados porque nos concertos não tocamos as músicas tal e qual como saíram no disco. Nós somos diferentes, compramos novos instrumentos, vemos a música de maneira diferente, gostamos de fazer arranjos de maneiras diferentes.

O primeiro álbum “Trapo Trapézio” de que forma vos definiu enquanto banda?
É o álbum em que o estilo é mais notório, mais claro. Nós estávamos a passar uma fase circense, malucos, doidos, ainda que tivéssemos uma rapariga na banda, por mais certinha que ela fosse e é tipo chegava a momentos em que não dava mesmo. É um bocado aquele conceito quando não consegues vencê-los, junta-te a eles. Lembro-me que fomos para Lisboa gravar este disco em duas etapas. Foi incrível. Eram sessões complicadas porque davas entrada nos estúdios da Valentim de Carvalho às 9h00 e saías às 18h00. Depois tínhamos o jantar, estávamos a passar os serões no hotel e tínhamos de apanhar ar fresco. Quando íamos para Alfama, meu deus. Lembro-me de um bar com um conceito inacreditável. Tinha café, bebidas, livros e instrumentos. Entre poesia, aulas de guitarra, íamos para ali curtir. Quase que durante o dia gravávamos disco e à noite íamos recarregar as energias naquele bar. Mas lá está muita da energia, maluqueiras desse disco vem dessa convivência, dessas noites.

“Quando reparámos tínhamos todos os elementos dos Xutos a ver o concerto”

A partir daí dão um “salto” do panorama regional para o nacional da música...
É incrível. Lembro-me de estar na Praça em S. João da Madeira e chegar a um bar que já nem existe e dizer dentro de momentos vamos dar na Antena 3 e fomos a correr para dentro do carro ouvir a nossa primeira vez na rádio. Era uma música que nem foi logo escolhida para os Talentos Fnac, a escolhida foi Etanol, mas a que chamou a atenção do Henrique Amaro foi a Cordula, um tema mais escuro, negro, denso. Uma ajuda inacreditável sem dúvida. Depois não podemos esquecer que quando se colocava esse disco a primeira música que tocava era a nossa. O assobio ficou logo na cabeça e foi um bom cartão de visita para muitas coisas.

Do género...
Nunca me esqueço da primeira vez que abrimos Blasted e Xutos quando reparámos tínhamos todos os elementos dos Xutos na ala do palco a ver o concerto. Por muito fixe que sejam não acredito que façam isso com todas as pessoas muito menos num dia de queima em que já começas a tocar tardíssimo – neste caso era do Porto – posso dizer que enquanto músico foi uma carga positiva. Aí foi o nosso primeiro contacto com o Zé Pedro. Passámos do namoro para o casamento, quando fomos tocar ao bar “Popular Alvalade” em Lisboa e na primeira fila estava o Zé Pedro sentado a curtir. Foi inacreditável. Passou a noite toda connosco. Dali surge uma nova ligação.

“Estávamos mais organizados, conscientes, queríamos novas salas, evoluir o próprio espetáculo”

Que tipo de amor falava o segundo álbum “Amor e outros Azares”?
Aí já começam os nossos filmes com os amores, as nossas histórias, peripécias com os amores atuais, passados, passados que viraram atuais. Eram amores desejados, boémios, duração muito curta. Neste álbum estávamos mais organizados, mais conscientes, queríamos novas salas, evoluir o próprio espetáculo.

E tudo isto foi possível graças ao encontro entre o Miguel, o João e o Diogo...
O primeiro namoro deles (Miguel e João) aconteceu numa viagem de finalistas em que alguém propõe que cantem um tema e basicamente acaba com Dj residente a colocar um play por cima porque não estava a correr bem. Conhecendo-os da forma como os conheço, lutadores, foi uma cena tipo ainda vamos mostrar isto e as pessoas vão ter de ouvir. Eles começaram a ensaiar de forma descomprometida. Na altura, o quarto elemento, o André, apresentou-me, passado algum tempo ele saiu e eu fiquei. Eles passaram para uma sala de ensaios mais organizada com bateria em minha casa.

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