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“É uma honra pertencer à associação mais antiga da cidade”

FOTO: Direitos Reservados
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Ana Sousa tem 20 anos, é natural de São Miguel do Souto e está a frequentar a licenciatura em Música, na vertente de performance, na Universidade de Aveiro, com o professor Fernando Ramos.
Os estudos musicais começaram na Banda de Música do Souto em 2007, passando pela Academia de Música de Santa Maria da Feira e pelo Conservatório de Música do Porto, onde terminou, em 2015, o curso com 20 valores.
Ana Sousa recebeu a Medalha de Mérito de Melhor Aluna do curso secundário desta instituição pela Câmara Municipal do Porto.
A jovem saxofonista frequentou várias masterclasses, festivais de saxofone, o Congresso Europeu de Saxofones 2017 e o Festival BSP Júnior 2017. Também já arrecadou diversos prémios. Neste momento, Ana Sousa desenvolve atividades performativas em diferentes campos musicas e formações. Entre as quais está incluída a Banda de Música de S. João da Madeira.


A Ana iniciou os estudos musicais com que idade?
Comecei a estudar Música aos nove anos na banda da minha terra (Souto). Lembro-me de começar a aprender Música com outras crianças da minha idade e de gostarmos todos muito daquilo, em grande parte porque era uma constante descoberta e os professores tornavam a aprendizagem muito divertida através de jogos, desafios e de atividades dos quais todos gostávamos.

A iniciativa foi sua ou de familiares?
Curiosamente, de nenhum dos dois. Fui incentivada a aprender Música pelo professor André Correia, que na altura orientava a AEC de Música na minha escola primária. Lembro-me de fazer uma pequena audição de flauta de bisel na escola e de no final ele me ter convidado a ir aprender Música para a escola da banda da minha terra (Souto).

O que a levou a escolher o saxofone?
Mais uma vez, foi influência do meu professor porque era o instrumento que ele tocava e para o qual me orientou.

Quais as caraterísticas deste instrumento?
O saxofone é um instrumento de sopro que prima pela sua versatilidade, pois pode ser utilizado em diversos estilos de música, possuindo um som moldável e transmutável de acordo com a intenção e o gosto de cada saxofonista. Para mim, é um instrumento apaixonante pois permite-me expressar e comunicar musicalmente através de um som fascinante e de música cativante. Como o saxofone é um instrumento muito recente (inventado por Adolphe Sax em meados de 1840), os compositores dedicam-se à exploração das suas potencialidades e a música escrita para ele é bastante atual, refletindo influências da sociedade contemporânea, como o jazz e o minimalismo.

A Ana terminou a sua formação com 20 valores no Conservatório de Música do Porto. Como foi receber uma medalha de mérito pelo seu trabalho?
Foi uma enorme honra receber esta medalha e ser considerada a melhor aluna do curso secundário no ano de 2015 porque o Conservatório de Música do Porto é uma instituição com 100 anos de existência e por onde passaram alguns dos músicos mais influentes em Portugal. Senti isto como um grande reconhecimento e valorização do meu trabalho, que só foi possível graças ao apoio de todos os meus professores e amigos, pois sempre me inspiraram a fazer mais e a ser cada vez melhor. Terminar a minha formação de saxofone com 20 valores foi uma forma de reconhecimento da minha evolução enquanto música, refletindo o meu trabalho e dedicação para ser cada vez melhor e a minha procura constante em fazer música.

O que é preciso para atingir este nível de excelência no estudo da música?
Um balanço entre três coisas: trabalho, paixão e inspiração. A paixão é essencial pois quando faço algo de que gosto encontro sempre motivação e procuro formas de o fazer constantemente. A inspiração encontro-a nas pequenas coisas da vida, como na natureza, em pessoas e na própria música. Aliado às duas anteriores, o trabalho traz a concretização dos nossos objetivos e vontades e, sem ele, nada seria possível; é necessária muita dedicação para fazer música, mas prefiro encarar isto como a realização da nossa paixão.

Agora está a frequentar a licenciatura em Música. Quando decidiu que a Música seria o seu futuro?
Há alguns anos atrás, algures no 8.º ano: na altura estudava na Academia de Música de Santa Maria da Feira e tinha um grupo de amigos que me fez ganhar um gosto enorme pela Música e professores que sempre me apoiaram e incentivaram a seguir o meu sonho. Quando chegou aquela altura no final do 9.º ano em que tive de decidir o que queria estudar no secundário, não hesitei: já sabia que queria fazer da Música a minha vida.

Uma das suas atividades performativas é na Banda de Música (BM) de S. João da Madeira (SJM). Desde quando?
Estou com a BM de SJM desde dezembro de 2014 como executante e desde dezembro de 2015 como professora de saxofone. É uma honra pertencer à associação mais antiga da cidade de SJM e ver que atualmente é formada por uma grande quantidade de jovens com uma vontade enorme de fazer música e, ao mesmo tempo, por pessoas mais experientes que partilham as suas vivências. Desta forma, a banda torna-se um local de partilha de conhecimentos e histórias, enquanto se faz música.

Também desenvolve a Escola Arte do Som e Notas de Arte na escola da BM de SJM. O que pode dizer sobre estas atividades pedagógicas?
A pedagogia é um desafio, sem dúvida. Através do ensino revejo-me nas minhas diversas fases, desde o início em que comecei a aprender, passando por momentos de grande curiosidade e descoberta, pelas primeiras audições e concertos, ou pela preparação de um grande solo… E como tudo isto ainda é recente para mim, consigo identificar-me com muitas das situações pelas quais os meus alunos passam e pelos problemas que enfrentam, e ajudá-los a ultrapassar e a concretizar seus objetivos. Procuro sempre que as aulas sejam um espaço aberto, de experimentação e descoberta através dos sentidos, como a audição; e a tudo isto acresce sempre um trabalho disciplinado e exigente.

A Ana já frequentou diversas masterclasses. Qual a sua preferida?
Acho que não consigo definir uma em particular, mas de certa forma todas acabam por me influenciar, quer musicalmente quer como pessoa. Lembro-me de ouvir uma expressão pelo professor Mario Marzi que dizia: “a imaginação é a melhor forma de resolver um problema” e ainda hoje penso sobre isto quando encontro alguma dificuldade. Foi em masterclasses que conheci o meu atual professor de saxofone, o professor Fernando Ramos, e foi através delas que decidi que era com ele com quem eu queria trabalhar no futuro devido à sua visão sobre a música e a sua abordagem nas aulas. As masterclasses são uma ótima forma de contactar com professores de todo o mundo e tenho a sorte de ter trabalhado com mais de 20 professores diferentes e de aproveitar o que cada um deles tem de melhor.

Quais os critérios usados na escolha do repertório?
Cada um deve tocar aquilo que gosta e isso parte dos gostos pessoais de cada indivíduo. Pessoalmente adoro música mais recente e contemporânea. Gosto de explorar o potencial do instrumento através de técnicas expansíveis; de descobrir novas formar de conceptualizar a arte e, em particular, a música; das novas sonoridades encontradas pelos compositores; e de inovar, ser diferente, trazer algo de novo para o palco. O repertório escolhido para este recital reflete isso mesmo, focando-se na música contemporânea e abordando diferentes facetas destas.

O que é que as pessoas podem esperar deste recital com dois saxofonistas?
Vai ser um recital muito versátil e contrastante! Foram escolhidas obras que exploram o potencial do saxofone em diferentes contextos, cobrindo o barroco, minimalismo, contemporâneo e música eletrónica. Por outro lado, o facto de partilhar o recital com um grande amigo, traz muita cumplicidade e descontração, tanto para nós músicos, como para o público que poderá desfrutar de música cativante e agradável.

É a primeira vez que tocará em duo?
Neste recital apenas iremos tocar uma obra em duo, que será a última e se baseia no minimalismo; uma corrente artística do século XX que explora a música através da repetição. Em duo de saxofones, de uma forma mais séria, sim, é a primeira vez. No entanto, já tive outros projetos na formação de duo, como por exemplo com acordeão em que interpretámos um repertório baseado em tangos e música mais ligeira.

A Ana tem projetos de saxofone a solo e em quarteto. Qual a história destas experiências?
Já toco em quarteto de saxofones desde os meus 14 anos; na altura juntei-me com um grupo de amigos numa masterclasse para tocarmos em conjunto e acabámos por criar um quarteto que durou alguns anos. Mas já fiz parte de vários quartetos com diferentes pessoas, muitas vezes associados à escola que frequentava; um deles foi no Conservatório de Música do Porto e posso dizer que evoluí muito com esses músicos. A música de câmara é essencial na formação de um músico pois faz-nos ouvir os outros enquanto também nós precisamos de ser ouvidos, e faz-nos crescer ao trabalhar em conjunto, muitas vezes com amigos. Os meus projetos a solo são baseados na música de que gosto de tocar e exploram muito a música contemporânea. Neste recital poderão ouvir um pouco deste meu trabalho.

Quais os projetos futuros?
Primeiro, gostaria de continuar a trabalhar naquilo que tenho vindo a desenvolver e a explorar até agora pois são áreas que me dão bastante prazer. Por outro lado, gostaria de explorar coisas novas, como direção, composição e performance de uma forma mais profunda e integrada com outras manifestações artísticas, como dança ou artes visuais. Acho que a música acima de tudo é uma arte e a arte é algo aberto e em constante partilha e interligação, por isso devemos procurar a interdisciplinaridade. Gostaria, também, de vivenciar a música noutros centros culturais e de trabalhar ou estudar noutro país para conhecer novas culturas, formas de fazer música e ter outras referências e influências.

Qual o significado da Música na sua vida?
A Música é uma forma de expressão artística e de comunicação não verbal. Através dela coneto-me comigo mesma e encontro orientação para a minha vida. A música ajuda-me a ser uma pessoa mais compreensível e aberta a novas ideias, pois não há propriamente nada que nós não possamos fazer na música e, de certa forma, tento transpor isso para a minha vida: fazer aquilo que quero e que gosto. Posso dizer que a música é uma das minhas maiores paixões e que exerce um papel fundamental na minha vida.




Musicatos com dois saxofonistas

O Musicatos apresenta os saxofonistas Ana Sousa e António Neves no dia 27 de janeiro, pelas 17h00, nos Paços da Cultura.
A entrada, como é habitual, é gratuita, mas com lotação limitada ao espaço da sala de espetáculos.
O nosso jornal publica esta semana a entrevista a Ana Sousa e na próxima semana a António Neves.

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