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“Se me derem a escolher vou querer ficar aqui”

FOTO: Diana Familiar
FOTO: Diana Familiar
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Entrevista a Rosa Maria Gomes, comissário da PSP

Natural de S. Cosme e residente em Ovar, Rosa Maria Gomes frequentou a Escola Prática de Polícia, em Torres Novas, onde lecionou durante quase 20 anos. A seguir à conclusão do concurso, começou a carreira de agente em Cascais. Depois, passou para subchefe em Alcântara e também exerceu funções no Porto e em Espinho.
Rosa Maria Gomes foi Subcomissário da Esquadra da Polícia de Segurança Pública (PSP) de S. João da Madeira desde 23 de dezembro de 2013. Recentemente, esteve entre os 179 comissários nomeados recentemente pelo ministro da Administração Interna. A nomeação foi tornada pública em Diário da República, a 18 de outubro, e levou à passagem da PSP sanjoanense a uma das esquadras complexas do país, uma vez que estas são comandadas por um comissário. 

O que é uma esquadra complexa?
Uma esquadra que tem várias valências, ou seja, não tem apenas a esquadra em si e o atendimento ao público. Temos uma secretaria do trânsito que trata da parte burocrática e operacional do trânsito. Temos também programas especiais da Polícia de Segurança Pública que é o “Programa Escola Segura” e o apoio aos idosos e o apoio às vítimas de violência doméstica. Temos ainda a investigação criminal, a parte dos elementos “à civil”. Nesta esquadra, sozinha, é como se tivéssemos um mundo à parte. Consigo trabalhar sozinha sem pedir o apoio de ninguém. Já tínhamos todas estas valências, mas era considerada uma esquadra normal como aquelas que apenas têm o atendimento.

O que mudará?
A esquadra da PSP de S. João da Madeira admite um comissário a comandar esta esquadra e pode ter como adjunto um subcomissário, que seria o ideal.

Mas não terá?
Por enquanto não.

Uma das incertezas desta mudança é a sua continuação por cá. Já tem alguma certeza?
Para já não fui sequer colocada. O que é que isso quer dizer? Eu ainda estou aqui porque era subcomissário. Nós fomos promovidos no dia 18 de outubro, tomámos posse em Aveiro e agora estamos à espera que o nosso diretor nacional nos coloque. Agora estamos nos comandos onde estávamos, mas não quer dizer que fiquemos nos comandos onde estávamos. A colocação será por antiguidade. Temos uma listagem. Fomos promovidos 179. Cada um escolhe as suas preferências, já o fizemos, depois eles vão vendo as preferências e vendo mediante as vagas.

Quais foram as suas preferências?
Pedi em primeiro lugar para Aveiro e depois para o Porto. Quando chegar a Aveiro eles vão ver que é preciso cinco Comissários e vão ver os pedidos por antiguidade e os primeiros cinco são colocados em Aveiro. Como sou a sexta a escolher na lista das promoções e como um é dos Açores e os outros de Lisboa, não devem querer vir para Aveiro. Portanto, devo ser a primeira a ter lugar em Aveiro e a ter lugar de certeza. Depois, o Comandante Distrital vai-me colocar. Ou me deixa ficar aqui porque posso ou entenderá colocar-me noutra escolha.

A escolha não dependerá de si?
Se me derem a escolher vou querer ficar aqui. Mas o nosso comandante pode dizer: “tu já estiveste aí. Agora vais para outro local”.

A passagem a esquadra complexa implicará um aumento no número de agentes?
Seria o ideal, mas neste momento os agentes que há são só os que há. Não acabou nenhuma escola para que pudesse haver reforços para qualquer divisão ou para qualquer comando. Vai iniciar agora uma e quando terminar virão mais agentes. Portanto, os que estão estão colocados. Se os vão tirar de um lugar para colocar aqui sem colocar outros de onde foram tirados, o défice vai ser igual. Só posso distribuir quando há novos a entrar. Neste momento, não é o caso.

Quantos agentes tem a PSP local?
56 agentes operacionais, contando comigo e com o chefe principal. Destes, três mulheres (eu, uma agente na secretaria do trânsito e outra no acompanhamento dos idosos e apoio à vítima).

“Estive 22 anos no posto de subcomissário”
Recentemente passou de subcomissário a comissário da esquadra da PSP de S. João da Madeira. Estava à espera desta promoção?

Há muito tempo. Repare que entrei na polícia em 1987 como agente. Em 1991 fui ao curso de subchefes e fui promovida em janeiro de 1992 como chefe e em 1995 fui para o instituto fazer um ano para ser oficial de polícia. Se as coisas estivessem como estaria estipulado, passados cinco anos poderia concorrer ao posto imediato de comissário. De 1996 até agora veja. As avaliações mudaram, antigamente era por antiguidade, a meu ver era o mais justo, mas passaram a ser por avaliações curriculares. Abre um concurso, outros recorrem. O que abre num ano e devia ser resolvido nesse ano, às vezes, demora dois ou três. Eu estive 22 anos no posto de subcomissário. Enfim, é a vida.

Como é um dia normal do comissário?
Depende. Nunca tenho dias muito normais...

Vamos do mais simples para o mais difícil...
Um dia mais simples é chegar à esquadra por volta das 9h00 e entrar ao serviço. Antes da 9h00 tomo o pequeno almoço, fardo-me e venho para o meu gabinete assinar expediente. O que é isso? Tudo aquilo que aconteceu ao fim de semana, se falarmos de uma segunda-feira, é me colocado em documentos, feito em computador e posto em suporte papel para eu despachar. Assim como eletronicamente. Quer dizer que tenho uns números que procuro no computador e vou despachar. Se disser que vai para tribunal, ele vai mesmo para tribunal. Então vou analisar o documento, o que aconteceu e para onde tenho de enviar. Por exemplo, se for um acidente de trabalho não vou enviar para a câmara municipal nem para o tribunal vou enviar sim para a Autoridade para as Condições do Trabalho para analisarem e verem quem e o quê é que falhou. Se alguém veio cá dizer que foi a um café queria o livro de reclamações e não deram, vou analisar e enviar para a ASAE para que saiba que alguém no dia “x”, à hora “y” pediu o livro de reclamações e não lhe deram. E assim sucessivamente. Cada situação há-de ter uma entidade responsável para tentar resolver o assunto que me estão a relatar. Por exemplo, no outro fim de semana aconteceu muitas quedas de árvores, objetos e enviei o expediente para a câmara municipal para analisar se houve responsabilidade do próprio Município para que tenha de ressarcir as pessoas pelos danos sofridos. Quando as pessoas não se entendem os casos são direcionados diretamente para o tribunal.

“Às vezes o tempo que tenho não chega para aquilo que tenho para fazer”
E depois?

Depois de despachar o expediente, há sempre coisas. Pessoas que me telefonam por causa disto e daquilo, precisam de falar comigo, às vezes pessoas que me querem ouvir, desabafar sobre problemas, reuniões, comparências nas escolas. Tenho sempre imenso que fazer. Às vezes o tempo que tenho não chega para aquilo que tenho para fazer. Nós fazemos parte das duas comissões (eu da alargada e o adjunto da restrita) da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ). Além das reuniões, há situações que aparecem. Ontem (quinta-feira) foi um dia com uma situação muito mesmo muito confusa de resolver. Mas temos sempre de resolver. Vejo o que a lei diz porque a lei é lei e é soberana, mas também o bem-estar da criança. E a minha maior preocupação era o bem-estar da criança, mas de acordo com a lei.

Não deve ser fácil...
Não é nada fácil.

Quais as maiores ocorrências?
S. João da Madeira é muito pacífico. No entanto, temos situações. Muitas que envolvem as crianças em situações de separações em famílias monoparentais que jogam com as crianças e é muito desagradável. Temos situações de violência doméstica só em si, entre eles, e que não envolvem crianças. Essencialmente é isso. Depois temos os pequenos furtos e os roubos. Muito poucos. E ainda bem.
Há muita gente que não sabe a diferença entre um roubo e um furto. Ambos são a retirada de objetos, só que o roubo implica violência. É muito mais grave um roubo do que um furto. Temos aqui em S. João da Madeira. Temos muitas situações em que os indivíduos não são de cá, são de fora, são as ditas “encomendas”.

“Não podemos agradar a gregos e a troianos, mas uma coisa é certa nós estamos cá sempre”
O que funciona bem na cidade?

A Polícia de Segurança Pública (risos). É a verdade. Nós funcionamos 24 horas sobre 24 horas, mas funcionamos sempre bem. Sabe que não vivemos num mundo perfeito. Costumava dizer aos meus alunos: ninguém é perfeito. Se pensam que são, estão enganados. Nem o JC era. Eles diziam: quem era JC? E eu respondia: Jesus Cristo. Não podemos agradar a gregos e a troianos, mas uma coisa é certa nós estamos cá sempre.
Quais as características fundamentais para ser comissário?
Às vezes as pessoas dizem é a comandante. A comandante não manda, mas comanda. É preciso saber comandar e não é fácil. Estamos a lidar com seres humanos, pessoas, com sentimentos, muitos deles são mais velhos do que eu. No entanto, há que ser ponderado. Às vezes, não estou nos meus melhores dias, mas há que reconhecer e ser humilde. Se falhar, reconhecer. Eu sou capaz de reconhecer se falhar e de pedir desculpa. Isso é muito importante. Basta ser um ser humano para falhar.

O que poderia melhorar?
Como sabe mudou muita coisa em S. João da Madeira. Nós estamos à espera porque há muita coisa que não está tão bem como deveria de estar. Já reunimos, falámos com a câmara e estamos à espera que se possa por em prática várias coisas que são necessárias alterar. Do género, sinalização mal colocada, paragens de autocarro em cima de passadeiras, entre outras. É muito importante haver um importante relacionamento entre todas as forças quer os tribunais que é o judicial, a segurança que somos nós e a administração que é a câmara. A câmara não é mais nem menos do que a representação do Estado, mas a nível local. Logicamente que estas três entidades têm de se dar bem. Estamos a contar que as situações mais graves e pendentes sejam resolvidas a curto prazo.

“De vez em quando há uma situação ou outra de bullying, mas cada vez menos”
A câmara anunciou a compra de um carro para o “Programa Escola Segura”. Quais os resultados deste projeto de grande impacto junto dos jovens?

O “Programa Escola Segura” em S. João da Madeira é eficaz. Os agentes vão todos os dias a todas as escolas, podem não ser só eles, pode ir o carro patrulha, fazer as entradas e as saídas nas escolas. Tentamos estar sempre presentes. Depois o Celestino e o Tonecas conhecem praticamente todos os alunos, estão sempre atentos.

Qual o maior problema dos jovens?
Neste momento, temos o eterno problema de fumar “uns charritos”. Parece que é moda e que não passa de moda. Tentamos o máximo possível, mas não temos um polícia por pessoa para chamar à atenção.

E casos de bullying?
Não, desse tipo de casos não. Tivemos foi...lembra-se de ouvir falar da “Baleia Azul”. Um surto. Aqui nem houve assim grandes casos. Acho que as pessoas tomaram consciência do perigo que era. Não houve grandes seguidores. De vez em quando há uma situação ou outra de bullying, mas cada vez menos.

As novas regras de contornar rotundas continuam a ser difíceis de cumprir por parte dos condutores?
Sim, os condutores continuam a contornar muito mal. Nós andamos a prevenir e já andamos a fazer algumas autuações. Nós vamos avisando, mas de vez em quando autuamos. Nesta altura, estamos natalícios. Mas não posso permitir que as pessoas estacionem em cima dos passeios, no lugar reservado a deficientes porque penso que não é admissível nem que seja como costumam dizer: “é só para...”.

“Não respeitam nada (os parcómetros)”
As pessoas respeitam o parcómetro?

Nada. Elas não respeitam nada. Repare, noutro país qualquer, se as pessoas estacionarem num lugar com parcómetro não estão preocupadas se a policia está a fiscalizar ou não porque pagam o parcómetro. Eles sabem que assim é que está correto. Em S. João é os polícias estão aí ou não? Só quando veem os polícias é que colocam a moeda. O que quer dizer que até então estiveram em infração.

Como está a questão dos parcómetros?
Eles (câmara) estão a acabar de formar os elementos deles para poderem proceder à fiscalização. Eles em termos legais ainda não estão aptos para serem eles a fiscalizar. Nós fiscalizamos dentro da medida do possível. Como sabe o efetivo é curto, reduzido e o que sucede é que há operações que temos de fazer, ocorrências a que temos que ir, claro que os parcómetros vão ficando para trás. Sempre que possível passamos lá, mas não é uma prioridade. Há tempos fiscalizavam todos os dias nas horas extras. Era um serviço requisitado e pago. Ou seja, os agentes estavam nas horas de folga. No horário público não tenho agentes suficientes para fiscalizar.

“Olhe trabalhar em S. João da Madeira seria o meu presente de Natal”
Qual o balanço de quatro anos à frente da esquadra da PSP de S. João da Madeira?

Positivo, muito positivo. Tirando aquelas coisas que acontecem e irão sempre acontecer. Temos todos um bom relacionamento.

É um cargo que vai continuar em 2018?
Não sei...

Quais as metas traçadas para o próximo ano?
Olhe, trabalhar em S. João da Madeira seria, para mim, o meu presente de Natal.


Curiosidades
“Nós funcionamos em sistema de hierarquia. A base e depois o topo. O topo é o nosso diretor nacional, na base temos os agentes. Temos três carreiras na polícia: a carreira de agentes, a carreira de chefes e a carreira de oficiais. Na carreira de agentes temos agentes, agentes principais e iremos ter agentes coordenadores. Depois vem a carreira de chefes em que temos os chefes, os chefes principais e os chefes coordenadores. O meu adjunto o chefe principal Evaristo está agora à espera para frequentar um curso pa passar a ser chefe coordenador.
Depois temos as carreiras dos oficias em que temos uma vertente muito maior: os subcomissários, os comissários, os subintendentes, os intendentes, os superintendentes e os superintendentes chefes”.

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