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Ricardo Vilhena, membro da equipa financeira da empresa “Premier Research” na Polónia

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“Os portugueses são um povo aventureiro”

Entrada para a Old Town (com o Castelo Real à Direita)
FOTO: Direitos Reservados
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Ricardo Vilhena, membro da equipa financeira da empresa “Premier Research” na Polónia

Ricardo Vilhena
Tem 32 anos, é natural do Pinheiro da Bemposta, mas todo o seu percurso escolar e de vida foi feito em S. João da Madeira.
“Sempre morei no Pinheiro da Bemposta, mas toda a minha vida foi em S. João da Madeira. O meu grupo de amigos é todo de S. João”, disse Ricardo Vilhena ao labor.
O jovem, que também se considera “sanjoanense”, andou no infantário I.O.S, depois na EB1 dos Ribeiros, na EB2,3 e por fim na Escola Secundária Dr. Serafim Leite em S. João da Madeira. O percurso académico continuou na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. O percurso profissional passou por Portugal, Malásia e Polónia.
Neste momento, Ricardo Vilhena está a trabalhar no Departamento de Contas a Pagar
da empresa americana Premier Research na Polónia.

O que o levou a deixar a sua cidade, o seu país?
Ainda durante os estudos académicos, estive seis meses em Varsóvia ao abrigo do programa Erasmus. Desde então sempre tive em mente ter uma nova experiência no exterior (agora a nível profissional). Terminei os estudos em 2010 e ainda trabalhei dois anos em Coimbra até que me inscrevi no programa INOV Contact (programa de estágios internacionais coordenado pela AICEP) e, sorte a minha, fui selecionado e colocado no escritório da AICEP em Kuala Lumpur (Malásia). O estágio durou seis meses e quando regressei Portugal estava, infelizmente, numa difícil situação económica! Na procura de melhores ofertas de trabalho, voltei para a Polónia (primeiro para Cracóvia e depois Varsóvia) e por cá continuo.

Então vamos por partes. Como foi a primeira experiência em Varsóvia?
Completamente diferente da que estou a viver agora, mas também muito boa. Vim (com mais um amigo que estudava na mesma faculdade) para Varsóvia em Setembro e foi como aterrar de pára-quedas numa cidade que nos é completamente desconhecida (e com um idioma também ele totalmente diferente). No entanto, e estando no âmbito do programa Erasmus, facilmente se trava amizade e conhecimento com outros estudantes (portugueses, espanhois, polacos, franceses...) na mesma situação e a adaptação torna-se muito mais fácil. A ESN (Erasmus Students Network) também nos ajuda bastante, quer em termos de adaptação à cidade e procura de casa, quer na criação de eventos para os estudantes de Erasmus.
As aulas eram lecionadas em Inglês (mesmo para alunos Polacos), pelo que não houve grandes problemas nesse sentido.
O mais difícil foi passar o Inverno (visto que estive de Setembro a Fevereiro) com temperaturas de -20º, às quais não estamos habituados em Portugal. No entanto, o espírito de aventura e a partilha de experiências facilmente se sobrepuseram às temperaturas que se faziam sentir.

E depois na Malásia?
Digamos que passei de um clima que pode atingir os -20º para um clima onde a temperatura média é de 27º (que é muito mais do meu agrado). Mais uma vez, foi chegar a um país, uma cidade que nos é completamente desconhecida e com uma cultura completamente diferente da cultura Europeia. A adaptação (sobretudo ao clima e comida) foi um bocado mais demorada que no caso da Polónia. No entanto, tive a sorte de já ter casa (o meu colega que também foi selecionado para Kuala Lumpur tinha ido umas semanas mais cedo) quando lá cheguei, o que facilitou na adaptação ao novo ritmo de vida.
Ao início estranha-se a diferença no fuso horário (mais sete horas que em Portugal) quando queremos contactar familiares e/ou amigos, mas há sempre disponibilidade de ambas as partes a certa altura do dia.
Apesar de estar no outro lado do mundo, encontram-se muitos europeus a trabalhar na Malásia e a comunidade portuguesa está bem representada (e cada vez a crescer mais).

A aventura no estrangeiro continuou em Cracóvia. Como foi a experiência?
Esta foi sem dúvida a menos boa. Em termos pessoais foi, como todas as outras, positiva, mas em termos profissionais foi difícil. Apesar de o mercado de trabalho ser bastante atrativo e com bastantes ofertas, infelizmente, não consegui arranjar trabalho (apesar das entrevistas que fazia). Houve alturas que desanimei e pensei que se calhar o melhor seria voltar a Portugal. Ao início, só enviava curriculos para ofertas relacionadas com a minha área de estudos (área financeira), até que decidi enviar para todas as ofertas em que falar português era requisito obrigatório. Foi então que fui selecionado para integrar a equipa portuguesa de um call center (em Varsóvia) que prestava apoio (eletrónico) à GALP. Não era o trabalho que procurava, mas era trabalho e não me arrependo pois apesar do pouco tempo que trabalhei no call center, conheci pessoas fantásticas e com as quais mantenho contacto quase diário.

E agora, como está a ser novamente em Varsóvia?
Apesar de estar a trabalhar (na altura no call center), nunca deixei de enviar currículos para a área que, realmente, pretendia. Com a ajuda de um colega (que entregou diretamente o meu CV no departamento de recrutamento) consegui integrar uma equipa (há diferentes equipas dependendo do projeto/cliente) portuguesa do departamento de contas a pagar da Accenture. Depois de ganhar experiência na área financeira, a visibilidade em redes de trabalho como o Linkedin é maior e, curiosamente, fui contactado por uma empresa de Cracóvia (com a qual já tinha tido entrevista) para integrar a equipa espanhola (do departamento de contas a pagar) e desta vez estavam dispostos a oferecer quase o dobro do que eu tinha pedido anteriormente! No entanto, e visto que me sentia bem em Varsóvia, rejeitei a proposta e por cá continuo (agora numa outra empresa).

“Na Polónia a comunidade de portugueses é ainda maior”

Há quanto tempo está a trabalhar na Polónia?
Estou na Polónia desde Abril de 2013, mas, infelizmente, só comecei a trabalhar em Agosto de 2013. Portanto, fez quatro anos (em Agosto de 2017) que trabalho na Polónia.

Onde está a trabalhar?
De momento trabalho no departamento financeiro (no escritório da Polónia) de uma empresa americana (Premier Research).

Quais as suas funções na empresa?
A equipa financeira (de contas a pagar) na Polónia é composta por cinco pessoas e cada uma é responsável por diferentes mercados. Eu sou responsável pelo processamento de faturas e pagamentos para o mercado Espanhol e Inglês. O trabalho envolve mais tarefas, como elaboração de relatórios financeiros e auditoria e processamento de relatórios de despesas apresentados/submetidos pelos funcionários da empresa.

Conhece muita gente? Portugueses e estrangeiros?
Os portugueses são por norma um povo aventureiro e isso foi visível em Kuala Lumpur, pois a comunidade portuguesa era grande e sempre que possível encontravamo-nos (fosse em casa de alguém ou num restaurante/bar). Na Polónia, como é compreensível (um país mais perto de Portugal e com bastantes oportunidades de emprego para estrangeiros) a comunidade de portugueses é ainda maior.
Temos um pequeno grupo onde tentamos manter o contacto pelo menos uma vez por semana.
Quanto a estrangeiros, sendo a grande maioria das ofertas em centros de serviços partilhados, o encontro com outras nacionalidades é feito diariamente pelo que é fácil a interação e a criação de novas amizades.

Depois de Kuala Lumpur, embarcou numa viagem de dois meses pela Ásia...
Eu, o meu colega que estava comigo em Kuala Lumpur e mais cinco amigos, andámos durante dois meses de mochila às costas pela Ásia. Uma experiência excelente daí dizer que a experiência em Kuala Lumpur a nível pessoal foi muito mais enriquecedora do que a nível profissional. Confesso que no final destes dois meses só queria a minha cama em Portugal. Apesar de ser excitante estares a conhecer novos países, os transportes públicos nos sítios onde fomos eram muito subdesenvolvidos. Era complicado e cansativo, mas fazia parte da experiência, que foi toda ela sem grandes luxos. Quando voltei a Portugal, passada uma semana já queria outra vez a mochila às costas e voltar aquela vida de dormir pouco e caminhar muito.

Qual o país que mais gostou de conhecer?
A Tailândia, no geral, foi o que mais gostei porque dá-te um bocado dos dois mundos. Dá-te aquele mundo tropical, com praias paradisíacas, mas, ao mesmo tempo, tens uma cidade cosmopolita como Bangequoque. Os outros países que visitei também gostei, mas levava uma determinada expectativa que não correspondeu à realidade. Se calhar vai daí a minha desilusão. Creio que se não tivesse ido através do INOV para aquele lado do mundo, acho que nunca iria por iniciativa própria. Portanto, foi muito bom ter sido colocado em Kuala Lumpur e ter feito estas viagens.

Como lida a família com o seu espírito aventureiro?
Acredito que já foi mais difícil para eles enfrentar esta distância. Sempre que me iam levar ao aeroporto ficavam um bocado sentidos, eu também ficava, mas como família e, principalmente, como pais querem sempre o que é melhor para os filhos. Eles sabiam que isto era o que eu queria (e que achava melhor para mim), portanto apesar de ser difícil esta distância sempre estiveram lá para me apoiar. As novas tecnologias permitem-nos mesmo à distância estar sempre em contacto e essa barreira foi sempre ultrapassada dessa maneira. Quando chegas ao aeroporto e estão lá para te receber é sempre um momento recheado de alegria e emoção. Eu tenho uma vida estável na Polónia e eles compreendem que estar fora é o melhor.

“No Natal o bacalhau é substituído por 12 pratos que simbolizam prosperidade para o ano seguinte”

Quais os pratos e bebidas característicos?
A cozinha Polaca é, no geral, boa. Provavelmente os pratos mais característicos são:
Zurek - uma sopa bastante forte e saborosa, com ovo, chouriço, batata e por norma servida dentro de um pão; Pierogis – uma espécie de rissol (em termos de aspeto) que pode ser frito ou cozido. Os mais consumidos são os de carne, queijo branco e batata, repolho e cogumelos. Quanto a bebida, Vodka está no topo da lista.

Quais as tradições?
Na Páscoa, no Sábado (que antecede o Domingo de Páscoa) as pessoas preparam uma cesta com vários alimentos, entre os quais ovos (simboliza o nascimento), um pedaço de chouriço ou presunto, sal e pimenta, pão, um pedaço de bolo e um Cordeiro de Páscoa (simboliza a ressurreição de Jesus Cristo) feito de açúcar ou mesmo de plástico, para que seja abençoada. A comida é servida no pequeno-almoço do dia seguinte (portanto, no Domingo de Páscoa). O último dia festivo é a segunda-feira de Páscoa, conhecida como Śmigus-Dyngus (Wet Monday), onde rapazes e raparigas atiram água entre eles, como sinal de purificação.
No Natal o bacalhau é substituído por 12 pratos que simbolizam prosperidade para o ano seguinte. Na mesa há sempre uma cadeira e um prato a mais, para o caso de uma visita inesperada.

Quais são os 12 pratos?
Os 12 pratos (sopa, peixe, cogumelos com repolho, entre outros) simbolizam cada um dos meses do ano e estão dispostos na mesa e cada pessoa vai-se servindo.
Acaba por não existir um menu comum partilhado por todas as famílias, pois as sopas e peixes servidos podem ser diferentes.

O Ricardo abdica do bacalhau?
Durante todos estes anos que estive fora, nunca passei um Natal fora de casa. Nesse sentido, o bacalhau foi sempre o prato principal por alturas do Natal.
No entanto, e felizmente, a Polónia tem várias empresas com participação Portuguesa, sendo uma delas o supermercado Biedronka (que pertence ao grupo Jerónimo Martins). Por norma, existem sempre produtos portugueses (azeite, mel e bacalhau por exemplo) e frequentemente o supermercado promove produtos portugueses sendo possível nessas alturas encontrar queijos, sobremesas (natas do céu, pasteís de nata), enlatados, bolachas entre outros. Existe também uma loja que vende somente produtos portugueses, então mesmo estando longe é sempre possível matar saudades da nossa comida.

Quais os locais emblemáticos?
O edifício mais emblemático, não sendo o mais apreciável, é certamente o Palácio da Cultura e Ciência. O Palácio está no centro da cidade e a sua construção foi uma decisão soviética e descrita como uma oferta de Estaline. Para muitos, é no topo deste edifício que se tem a melhor vista sobre a cidade, precisamente por ser dos poucos locais onde não é possível ver o próprio palácio.
Warsaw Uprising Museum é também um local emblemático e histórico e representa o tributo aos habitantes de Varsóvia que lutaram (e morreram) pela independência de Varsóvia (contra os Alemães).
A Stare Miasto (cidade velha) foi completamente destruída durante a Segunda Guerra Mundial e (re)construída exatamente igual. No centro da praça encontramos a Sereia (símbolo da cidade) e conta a lenda que a Sereia estava a nadar no rio (Wisła) que atravessa a cidade quando foi capturada por um rico comerciante. Os pescadores, ouvindo-a chorar foram em seu auxílio e libertaram-na e desde então a Sereia prometeu ajudar a proteger a cidade e os seus habitantes.
O Castelo Real (situado na cidade velha) é também um marco da cidade e serviu durante séculos como residência oficial dos monarcas.

“O povo polaco é um povo fechado, muito devido ao passado histórico que viveram”

Como são os habitantes/o povo do local onde está?
O povo polaco é um povo fechado, muito devido ao passado histórico que viveram. Há caso mais extremos, representados por uma minoria que não vê com bons olhos a entrada de estrangeiros no país.
Nota-se, no entanto, uma mudança na população mais jovem, onde quase todos falam inglês (ou outras línguas) e possuem um grau académico, fruto da globalização e abertura da Polónia ao investimento estrangeiro.

O que mais o surpreendeu?
Pela negativa, o número de sem-abrigos que se pode encontrar pela cidade. Pela positiva, a quantidade de espaços verdes espalhados pela cidade, entre os quais os Jardins da Biblioteca (o jardim fica no topo do edifício) e Lazienki (Jardins Reais).

O que mais custou a adaptar?
O clima. As quatros estações não estão tão bem definidas, como por exemplo em Portugal. O Inverno é por norma bastante rigoroso (pode atingir os -25º) e longo. No entanto, todas as casas e transportes públicos estão equipados para fazer face a estas temperaturas (em casa por exemplo, ando sempre de calção e t-shirt). Já o Verão é mais curto e muito quente. Não estando perto do mar, é um bocado difícil suportar as elevadas temperaturas no Verão.

Há alguma expressão típica do local onde está?
“Sto lat” (100 anos) é usada para felicitar alguém no seu dia de aniversário. “Na zdrowie” é a palavra usada quando se brinda com os amigos e família.

“Apesar da barreira linguística, o balanço é bastante positivo”

Qual o balanço desta aventura pessoal e profissional?
Apesar da barreira linguística, o balanço é bastante positivo. Varsóvia é uma cidade cosmopolita, em constante crescimento e com um mercado de trabalho estável.
A qualidade de vida é bastante boa, o que nos dá algum conforto e segurança, quer a nível pessoal quer a nível profissional.

O Ricardo aprendeu a língua polaca?
Aprendi, mas não falo (e pouco percebo). Estive durante um semestre a aprender (A1) e consigo comunicar o básico (obrigado, bom dia, boa noite, o meu nome é Ricardo...), mas é uma língua bastante difícil (até para os polacos). Não significa que não se consiga aprender, mas é bastante diferente da nossa base, pelo que a aprendizagem fica mais difícil. O facto de no trabalho não ser obrigatório e no geral a população falar inglês, também nos leva a acomodar ao inglês.

Do que sente mais falta?
Da família, dos amigos e da praia.

Do que é que sentirá falta, do local onde está, se um dia for para outro país ou regressar a Portugal?
Da organização da cidade e facilidade de movimento entre vários pontos. Os transportes públicos são extremamente organizados e cobrem toda a cidade.

Os seus planos passam por voltar a Portugal?
Mais tarde ou mais cedo, gostaria de voltar. No entanto, agora a decisão tem de ser bem ponderada, pois quer eu, quer a minha mulher (que é polaca) temos um trabalho estável e que nos proporciona (na Polónia) uma boa qualidade de vida. Creio que num futuro próximo o regresso a Portugal será complicado.

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