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Como é que se volta atrás depois de percebermos quem somos e o que queremos fazer? Uma viagem fez com que um psicólogo com raízes sanjoanenses descobrisse que precisa tanto de viajar e de escrever como do ar que respira

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Nascido para viajar

FOTO: Direitos Reservados
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Como é que se volta atrás depois de percebermos quem somos e o que queremos fazer? Uma viagem fez com que um psicólogo com raízes sanjoanenses descobrisse que precisa tanto de viajar e de escrever como do ar que respira

Chama-se António Pedro Moreira, tem 33 anos e digamos que nasceu literalmente para viajar. “Viajar é a minha cena”, disse em entrevista ao labor este jovem viajante que é de Vale de Cambra, mas cuja outra metade do seu código genético é de S. João da Madeira, terra de onde é também a mãe e que o acolheu “há dois anos e pico”
Em Coimbra estudou Psicologia Clínica e dali saiu com um canudo rumo à Noruega para fazer um estágio profissional. Seguiu-se Inglaterra, onde trabalhou como psicólogo clínico durante dois anos. Até que foi à Índia em 2009 e percebeu o que realmente queria fazer: abandonar o certo e abraçar o incerto.
“Daqui Ali - De Portugal a Singapura por Terra” e "Daqui Ali - De Portugal à África do Sul de Bicicleta" são dois dos livros da sua autoria.
Foi à Índia, em 2009, apenas durante duas semanas. O que se passou lá para mudar a sua vida?
Passo a vida a ouvir dizer que sou um “ganda maluco”. Mas acho que de maluco não tenho nada. O que aconteceu comigo na Índia foi o seguinte: estava em Goa e não estava a curtir muito.
Um dia apanhei boleia de um senhor de 60 e tal [anos], que me disse que Goa já não era o que era e que devia ir a Hampi. É aqui que numa noite estou rodeado para aí por 15 pessoas e que percebo que quem estava a viajar há menos tempo era eu.
Na altura, deu-se-me o clique. É verdade que sempre gostei muito de viajar. Mas despedir-me e ir à descoberta do mundo nunca me tinha ocorrido como uma forma de vida. Voltei a Inglaterra. Anunciei o meu despedimento e parti em 2011 para Singapura.

Porquê Singapura?
Porque estava num canto [do mundo]. A minha ideia era ir até um canto qualquer.

Quanto demorou a viagem?
A viagem demorou nove meses e meio. Fiz 50.000 quilómetros (km) por terra, 20.000 dos quais à boleia quando até então nunca tinha andado à boleia. Fiz 20.000 km de autocarro e 10.000 km de comboio. Passei por 34 países. E, sim, esta foi uma viagem que mudou tudo, porque percebi o que é que queria fazer. Quando uma pessoa descobre, sei lá, um sabor, ou uma pessoa, ou um hobby, ou uma maneira de estar na vida, não dá para olhar mais para trás.

E fê-la sozinho?
Fiz metade sozinho, metade acompanhado.

Quando decidiu partir tinha consciência dos riscos?
Mais ou menos. O único receio que tinha prendia-se um bocado com o Paquistão.

Informou-se devidamente antes de “se fazer à estrada”?
Nem por isso. Porque, por exemplo, cheguei a ver num site inglês que contém informação acerca de outros países Portugal a aparecer como um país com moderado risco de terrorismo, quando, na verdade, nós nunca tivemos terrorismo.
Se bem que chegavam-me notícias de malta que tinha sido raptada no Paquistão. E por isso a minha ideia, na altura, era atravessar o Paquistão de autocarro e não de boleia, em três ou quatro dias, e depois ir para a Índia. Mas a verdade é que cheguei lá e esses quatro dias transformaram-se em 30 e tal, porque senti logo uma vibração muito fixe.


“Há uma diferença” “entre ser aventureiro e ser estúpido”
Ou seja, constatou in loco que afinal o que se dizia sobre o Paquistão não correspondia à realidade.
Sim. Não tem nada a ver. Mas obviamente que há uma diferença fulcral, eventualmente vital, entre ser aventureiro e ser estúpido. Ser aventureiro é uma pessoa ir para lugares onde não sabe muito bem o que é que vai acontecer. Ser estúpido é ir para um lugar que não conhece e onde sabe que há uma grande probabilidade de a coisa correr mal e mesmo assim ir. Valorizo a minha vida e é precisamente por isso que gosto de ser aventureiro. Quando estou em viagem ganho vida!

Quer isso dizer que até aos 27 anos [altura em que rumou a Singapura] não viveu verdadeiramente?
Vivi. Não vivi foi tanto. Sou capaz de descrever com certo grau de exatidão o que fiz em cada dia de ambas as minhas viagens.

Diga-me uma experiência que o tenha marcado pela positiva e outra pela negativa na viagem a Singapura.
Sei exatamente qual foi a negativa. Foi ter estado preso no Laos. Foi muito mau. Estava a fazer “tubing” - uma atividade super turística mas que é fixe. Não sei se fui drogado ou se simplesmente adormeci num bar, ou que é que aconteceu. Só sei que quando vim a mim estava na parte de trás de uma viatura descaraterizada, as pessoas [polícias] estavam vestidas à paisana. Pensei que tinha sido raptado. Uma pessoa achar que foi raptada, como deves imaginar, não é das melhores sensações.
Fui levado para a prisão, que lá é tipo um barracão com duas janelas tapadas com madeira. Era eu e mais 20 gajos, dentro de um barracão, com uma sanita no canto partida, e tudo urinado à volta. Na cela ao lado, havia uma gaja aos berros, que achava que era uma mulher que tinha sido raptada também e que estava a ser violada. Achei que ia morrer. Mas não morri e não morrer é uma cena que é espetacular.

O que aconteceu para a história não ter um desfecho trágico?
Tentei fazer uma revolução lá dentro.

Que língua falava?
Inglês. Lá fala-se muito o Inglês. Há muito turismo e o pessoal adapta-se. Na minha mente queria salvar aquela mulher que achava que estava a ser violada. Esperei que toda a gente adormecesse e dei um pontapé num gajo que achava que estava em conluio com os maus e começo a gritar “revolution!”, “revolution!”. Pus todos a olharem para mim, assim, estupefactos. E quando vejo que eles não fazem nada, baixo-me, peço-lhes desculpa e digo-lhes para não dizerem nada aos gajos de lá de fora porque não queria ser o primeiro a morrer.
Só nesta altura é que alguém diz que não vou morrer porque estou na prisão. Acabei por ficar lá duas noites e tive de pagar um suborno.
Já tive a sorte de estar para aí em 78 países. E, de facto, Portugal é super pacífico.

Já conheceu até ao momento 78 países?
Entre 77 e 80 países. Só nestas duas viagens fiz 50 e tal.

E a experiência positiva?
Lembro-me de uma vez estar à boleia na China e de aquilo estar a correr “bué” de mal. Eram para aí 11h00 da noite. Estava “bué” de frio e estava à beira de uma cabine de portagem onde estava uma menininha a trabalhar, que me convidou para entrar. Depois disso, surgiram a chefe dela e a polícia e acabei por ir para um hotel.
As viagens são feitas destas pessoas, como esta menina super fofinha, que vais encontrando e que são espetaculares para ti e te fazem sentir um certo elo humano. Esta é uma das várias razões pelas quais viajo.

Entretanto, regressa a Portugal. Quando cá chega já estava a pensar fazer uma nova viagem?
Sim. Porque isto de viajar é tipo um saudável vírus que se instala. Quando cheguei foi das primeiras coisas que tive de dizer à Graciete, na altura minha namorada, hoje minha esposa. Falei-lhe deste fascínio de vida do qual não podia mais abdicar.

Como é que a Graciete reagiu?
Na altura, tinha 27 anos. Namorávamos desde os 15. E a vantagem de alguém estar connosco há tanto tempo é que as pessoas conhecem-nos. Para ela não foi surpresa nenhuma.
Entretanto, lancei um livro sobre essa viagem, “Daqui Ali - De Portugal a Singapura por Terra”. Correu fixe, tendo em conta que foi uma edição de autor. Antes já tinha lançado dois livros de ficção, de contos, com uma editora. Mas percebi que os 10% com que um autor fica não são suficientes para viver daquilo. Hoje em dia tenho conseguido viver só da escrita.

Mas era algo que já sabia que ia acontecer mais cedo ou mais tarde ou foi preciso fazer as viagens para reforçar a ideia?
Desde que me lembro do conceito sonho, desde que aprendi o que significa ter um sonho que o meu sonho era ser escritor. Mas não é ser escritor, não é escrever por escrever, é viver daquilo que escrevo.
Quando fui de viagem não foi com o objetivo de depois lançar um livro, mas sabia que ia acontecer. A menos que tivesse uma seca de viagem que não ia lançar nada.
Lancei o livro. Mas depois voltei a Inglaterra para trabalhar.

Para arranjar um dinheirinho para voltar a viajar?
Arranjei uma cena espetacular. Apanhava um avião para Inglaterra, trabalhava cinco dias e depois apanhava o avião de volta para Portugal. Trabalhava uma semana por mês e ganhava entre 1000 a 1200 euros por mês, que era o que ganharia em Portugal a tempo inteiro.
Era como se tivesse três semanas de férias por mês. O resto do tempo trabalhava no meu livro, tanto na escrita como, posteriormente, na promoção. Passaram-se dois anos. Tudo bem que era espetacular, só que não era aquilo que queria.
Então, voltei a despedir-me e decidi ir para África de bicicleta. Na altura, tinha 29, 30 anos. E o máximo que tinha feito na minha vida de bicicleta tinha sido Vale de Cambra - S. João da Madeira (ida e volta), 24 km num só dia, e tinha sido há 15 anos. Quatro dias antes de partir não tinha nada. Não tinha bicicleta, não tinha nada.

Mas não se preparou fisicamente?
Não. Achei que para me preparar o melhor era fazer-me ao caminho. Então, quatro dias antes de partir, fui à Decathlon com os amigos e deixei lá 500 euros em equipamento. E depois fui buscar a bicicleta.
Comparando com as bicicletas que andam na rua é melhor. Custou-me 600 euros. Mas comparando com as bicicletas das outras pessoas que fazem Europa-África Sul não era assim por aí além.
Mas pronto. Parti no dia 4 de fevereiro de 2014 e a primeira etapa foi até Águeda [cerca de 40 km]. Era para demorar um ano, demorei 15 meses, porque em África as coisas nunca correm como exatamente uma pessoa planeia.
Tive o azar de passar por África na altura da última crise do [vírus] ébola, pelos países mais afetados (Guiné Conacry, Libéria, Serra Leoa). E por ter passado por esses países não me deixaram entrar nos Camarões, o que foi uma chatice.

“Sinto que joguei um bocadinho com a minha sanidade mental”
Ainda relativamente a esta viagem a África, diga-nos uma experiência positiva e uma negativa?
Em África estive detido na Nigéria. Lá eles pensavam que era um terrorista. Chamavam-me “Boko Haram”, que é um grupo que eles têm de terrorismo no nordeste.
Foi um bocado “ir de cavalo para burro” porque enquanto que em qualquer outro país africano o pessoal chamava-me de Jesus - porque em África eles chamam a qualquer branco de barba de Jesus - na Nigéria chamavam-me de terrorista. Foi o país mais duro mas não foi a experiência mais dura.
A experiência mais dura e, ao mesmo tempo, espetacular foi quando tive de fazer 500 km pela floresta do Gabão. Era muito duro, terra batida e muito calor todos os dias. Mas ao fim de cada dia chegava a uma aldeiazinha, daquelas que uma pessoa só imagina dos filmes mas que ali eram realidade, e o pessoal dava-me sempre um quarto. E isso é “bué” de fixe porque há aquela máxima, aquele lugar-comum, de que quem menos tem é quem mais dá e não sei quê. Mas é mesmo assim. Eu vivi isso.

Tem mesmo conhecimento de causa em relação a essa máxima?
Sim. É espetacular. Um dia, no Gabão, fui parar a uma família, que me disse que ia ter uma cerimónia no dia a seguir, a qual, aliás, deu origem à capa do livro [“Daqui Ali – De Portugal a África de Sul de Bicicleta”].
Uma cerimónia em que tomei o lugar de “xamã”, em que me pintaram de branco e em que depois de comer uma cena [iboga] tive visões porque supostamente era Deus que estava a falar através de mim.
Aquilo demorou para aí meia hora a “bater”. Começou por me dar uma certa leveza, mas depois comecei a ver coisas. Confesso que passei as 12 piores horas da minha vida toda. Tinha que segurar numa vassourinha e num totem, que não podia largar. Não podia comer, beber água, fumar cigarros, etc.. Não podia fazer nada, que era para não cortar a “moca”. E foi muito duro.
Mas pelo meio tive um ou outro momento em que senti uma profunda comunhão com a humanidade.
Sinto que joguei um bocadinho com a minha sanidade mental. Estava com medo de ficar assim para sempre. Mas depois quando passou a experiência tornou-se numa cena “bué” de positiva.

Entretanto, regressa a Portugal e começa a escrever mais um livro.
Comecei a escrever o livro dessa viagem. Demorei mais ou menos o mesmo tempo que demorei a lançar o outro (um ano e meio). Lancei-o em dezembro de 2016.


“Tive uma ideia espetacular que foi ir para a praia vender livros como quem vende bolas de Berlim”
Apresentou este último livro onde?
Um pouco por todo o lado. Já fiz 20, 30 apresentações. E tem corrido altamente. Não sei muito bem quais são as estatísticas dos vendedores independentes. Mas precisamente hoje chegou uma nova remessa de livros. Até hoje, num ano, vendi 2.000 livros, acho que para um autor independente não é muito normal.
Mas também, como quero viver disto, uma pessoa tem que pensar no que pode fazer e então tive uma ideia espetacular que foi ir para a praia vender livros como quem vende bolas de Berlim. Os meus pais têm apartamento na Quarteira, o que facilitou. Tinha ali uma base. E em 44 dias, na praia, vendi 500 livros, o que não é nada mau.

Onde podemos encontrar à venda os seus livros?
Na minha loja online (www.daquiali.com) e depois também tenho a minha página de Facebook (pedro on the road).

Viagem a Singapura ou viagem à África do Sul? Qual foi a que “mexeu” mais consigo?
Isso é um bocado como perguntar a um pai de que filho gosta mais ou perguntar a um filho de que pai gosta mais. Porque, uma foi à boleia, outra foi de bicicleta, uma foi na Ásia, outra foi em África. Se tivesse feito as duas de bicicleta aí era mais fácil de comparar. Ou então se tivesse feito as duas em África, mas uma de bicicleta e a outra à boleia. Percebes? Se tivesse um elemento comum às duas?
O único elemento comum às duas foi de que fui “daqui ali”. É só isso.

Já tem a ideia do próximo “Daqui Ali” a fervilhar na cabeça?
Sim. Mas não vai ser um “Daqui Ali”. Porque “Daqui Ali” tornou-se, para mim, uma espécie de conceito, que é sair de Portugal e ir por terra até a um canto qualquer. A primeira vez foi até Singapura. A segunda até África do Sul.
Na próxima viagem não vou sair de Portugal. Vou agora dia 28 de dezembro. Primeiro vou para Miami, passar o ano. Parece um sítio fixe para passar o ano [risos]. Depois vou dia 4 de fevereiro para o Panamá. Vai ser uma viagem mais curta, de quatro meses, e vou fazer a América Central toda e o México. Não vai ser um “Daqui Ali”. Vou explorar um novo estilo de escrita.
Os meus dois livros “Daqui Ali” são escritos de uma forma bastante verbal, que acho que é algo que fica bem num livro de viagens. Este próximo vou escrever de uma forma que já me é mais natural, mais densa digamos. Portanto, não é um “daqui ali”, também não é um “dali ali”, que acho que até era um título fixe mas podia confundir um bocado as pessoas. Será um livro de ficção.


CAIXA

15.000 Km ao longo de 22 países contados em livro

Contando com a colaboração da Junta de Freguesia de S. João da Madeira, António Pedro Moreira vai apresentar o seu mais recente livro, "Daqui Ali - De Portugal à África do Sul de Bicicleta", este sábado, pelas 16h00, nos Paços da Cultura.
Na cidade sanjoanense, o viajante que também é escritor vai partilhar com um auditório, que se espera vir a encher, histórias cheias de vida passadas durante 15 meses no continente africano.
Nesta viagem de bicicleta de 15.000 quilómetros (km), o autor valecambrense, com raízes sanjoanenses, atravessou, por exemplo, o deserto do Saara; passou uma tarde com revolucionários pela independência do Saara Ocidental; andou no comboio mais longo do mundo na Mauritânia, num louco desvio deserto adentro; foi detido na Serra Leoa por polícias bêbedos à meia-noite; foi parado pela polícia 23 vezes na Nigéria, confundido com terroristas dezenas de vezes e detido umas horas; fez de xamã numa alucinante cerimónia com uma tribo na floresta do Gabão; etc..

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