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Entrevista a Gil Milheiro, professor, escritor e músico sanjoanense

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Espetáculo com “gentes” de S. João da Madeira

FOTO: Rui Guilherme
FOTO: Rui Guilherme
Banda "Os Dragões" no baile de finalistas no antigo Colégio de Oliveira de Azeméis
FOTO: Direitos Reservados
A banda "Prelúdio" no café Progresso em 1972
FOTO: Direitos Reservados
Gil Milheiro na atuação da banda "Prelúdio" no café Progresso em 1972
FOTO: Direitos Reservados
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Entrevista a Gil Milheiro, professor, escritor e músico sanjoanense

Gil Milheiro
Nasceu a 20 de outubro de 1948 em casa, na Rua Castilho, n.º 36, em S. João da Madeira.
Gil Milheiro é o irmão mais velho de uma família de oito irmãos. Frequentou a escola primária de Carquejido, o liceu no INA –Instituto Nun´Álvres (Caldinhas) em Santo Tirso e cursou História na Universidade do Porto.
Foi professor no antigo Colégio Castilho e na Escola Industrial e Comercial em S. João da Madeira. A partir de 1979 enveredou por uma carreira comercial trabalhando sucessivamente nos CTT (Direção Regional de Correios do Norte), Dielmar (Alcains – Castelo Branco), Edições Asa (Departamento Comercial) e, regressando às origens, terminou a sua carreira na Ecofilmes (entre 1992 e 2012).

Há pouco mais de um mês voltou à sua terra para apresentar “Pessoas de Fernando”. Qual a história deste projeto?
Fomos desafiados (o Miguel e eu) para a construção de um ambiente cénico-sonoro sobre uns textos de Fernando Pessoa, mais concretamente sobre o tema “Morte”. O amigo comum Rogério Ribeiro do Grupo Teatro Fantocheiro foi o responsável pela introdução do “bichinho”. Achámos que havia e há um potencial enorme por explorar na poesia portuguesa e decidimos, após umas tardes de maturação, avançar com este projeto. E, como gostamos de dizer e praticar, é um projeto que está em constante mutação. Neste momento, estamos já a desenvolver trabalho para uma edição em vídeo deste projeto.

Qual a ligação entre todos os elementos?
A agregação da Margarida Dias e da Manuela Melo foi, desde logo, uma mais-valia para o projeto. Duas excelentes declamadoras e cujas ‘dicas’ têm contribuído para uma melhoria do projeto.
Os músicos e amigos que nos acompanham são, desde há muito, comparsas do Miguel Fernandes. Colaboraram e colaboram com os diversos projetos que têm sido feitos numa entrega total. Bem-hajam Rui Dantas e Paulo Freitas.

O Gil está a trabalhar num projeto para a cidade. O que pode adiantar sobre o mesmo?
Tomando por base S. João da Madeira como um todo identitário, pensámos (Miguel e eu) na concretização de um espetáculo multimédia com intervenção/cooperação das ‘gentes’ de S. João da Madeira. Trata-se de um trabalho de pesquisa profunda e aturada que nos permita dar uma visão - a nossa visão - sobre S. João da Madeira.
Terá música original (todos os temas de produção nossa), textos de autores e poetas sanjoanenses e ... o resto só mesmo desvendaremos na altura de apresentação do trabalho.
Tudo isto terá o apoio e trabalho conjunto de alguns sanjoanenses com quem já fomos trocando algumas impressões.
“Pessoas de Fernando” envolve poesia, escrita e música. Quais os projetos musicais em que já esteve envolvido?
Recuando no tempo. Aprendi piano no INA - Instituto Nun’ Álvres e fiz parte do conjunto do colégio que, de 15 em 15 dias, aos domingos, abrilhantava umas tardes de domingo para compensar os alunos que, em regime de internato, apenas iam a casa nas férias de Natal e/ou Verão. Aqui no colégio também participei em algumas peças de teatro.

“Tive e tenho orgulho em fazer parte da história do grupo sanjoanense ´Os Dragões´”

O Gil fez parte da banda sanjoanense “Dragões” ...
Em 1968 juntamente com o José Manuel Moita passámos a integrar a banda sanjoanense “Os Dragões”. Durante os meses de Verão, eu, o Zé Manel e o Benjamim ensaiávamos – fora de horas, diria eu – sobretudo temas originais que íamos compondo, além de outras músicas da época. Surgiu a oportunidade (com a minha vinda de Coimbra para o Porto) de podermos trabalhar mais amiúde.
Entretanto, a guerra colonial já tinha levado o João Carlos Martins (baterista) e o Talino (viola ritmo) para as suas fileiras e o Zé Santos (teclista) também saiu, restando apenas o Carlos Pádua e o Benjamim Maia.
A inauguração dum espaço de referência na restauração sanjoanense - o restaurante Mutamba - dá aos “Dragões” a oportunidade de um trabalho contínuo todos os fins de semana com jantares aos sábados e matinés aos domingos que, estou certo, muitos sanjoanenses recordam.

Os “Dragões” compunham e tocavam temas originais. Chegaram a ser gravados?
Sobre os temas originais é verdade que não chegámos a gravá-los. Mais verdade ainda, se me é permitido dizer, é a intenção de os gravar. Já por diversas vezes falámos sobre este desiderato, o Benjamim Maia e eu. Pode ser que ainda se consiga arranjar alguma coisa agora que as novas tecnologias nos possibilitam trabalhar à distância.

O seu percurso musical continuou com “Prelúdio”. Qual a história desta outra banda?
O conjunto “Prelúdio” pertence à minha última fase antes da Guerra Colonial me ter também retirado destas lides musicais. Com curta existência, entre junho de 72 e 1 de janeiro de 74, era composto pelo Artur Silva (viola solo e ritmo), Correia Dias (viola baixo), Manuel Serafim (baterista) e por mim (teclista). Eu era o único sanjoanense.
Alguns dos espetáculos/bailes que fizemos em S. João da Madeira foram para os finalistas da escola industrial, baile de fim de ano de finalistas do liceu. As restantes atuações foram por Estarreja, Aveiro, Ovar...

A música continuou depois do serviço militar?
Após regressar do serviço militar ainda toquei nos conjuntos “Promotion 6” do Porto e estive também no ressurgimento de “Os Dragões” em 1991. Tive e tenho orgulho em fazer parte - ainda que pequena - da história deste grupo sanjoanense.

“Um livro sobre memórias vividas e partilhadas. Talvez para 2019...”

O Gil também fez parte do Núcleo de Teatro Amador (NAT)...
A participação no NAT - Núcleo Amador de Teatro foi, para mim, uma experiência muito marcante. Lembro-me da primeira peça “Biedermann e os incendiários”. Ainda era no tempo da censura e da Pide-DGS e lá estava a “sombra ou a mosca” no ensaio geral... Enfim, histórias de outras épocas que importa não olvidar.
Por fim, mas não no fim, o grupo Cultura Viva a que dei contribuição ativa e com quem me diverti imenso. Um obrigado a todos consubstanciado com um abraço ao seu mentor Magalhães dos Santos.

Voltou a fazer teatro?
À exceção do nosso dia a dia não voltei.

A poesia e a escrita sempre estiveram no seu “caminho”. Quantos livros publicou?
Tenho, até ao momento, dois livros publicados: “Poemas de Amor” (1997) e “(n)O Conforto das Palavras” (2012).

O Gil está com alguma obra em curso?
Em trabalho aturado - e mais demorado do que o previsto - um livro sobre memórias vividas e partilhadas. Talvez para 2019...

Qual o significado da leitura e da escrita no seu quotidiano?
Sou um leitor compulsivo. Devo-o, sem qualquer dúvida, à minha professora da instrução primária, a professora Carolina, que cedo me incentivou a descobrir mais e mais na leitura, e aos meus pais que, de uma forma ou de outra, nunca colocaram quaisquer entraves a esta paixão.

“Ele tinha dois poemas interessantes para podermos participar no Festival da Canção”

Álvaro Lopes interpretou “Num Campo de Margaridas”, letra de Mário Tavares e música de Gil Milheiro, no Festival da Canção em 1992.
Essa foi uma época muito interessante e profícua. O Mário Tavares - amigo de longa data - telefonou-me para as Edições Asa a perguntar se tinha algumas músicas/canções a precisarem de letra pois ele tinha dois poemas que achava que seriam interessantes para podermos participar no Festival da Canção. Claro que disse que sim, talvez pudessem ser adaptadas. Enviou-me de imediato os poemas por fax, li e respondi que sim, sabendo que tinha muito trabalho pela frente. O que só soube no dia seguinte (uma terça-feira) é que o prazo terminava nessa sexta-feira! Compromissos são compromissos. Mãos-à-obra. Liguei ao João Carlos Martins (era em casa dele que os ressuscitados “Dragões” ensaiavam) e combinei passar lá a seguir ao jantar. Alinhavei uns toques de melodia e acordes, gravados num leitor-gravador de cassetes e fui para casa ouvindo e ouvindo e ouvindo...
No dia seguinte marquei estúdio de gravação da maquete num saudoso amigo destas lides musicais e de vida - Fernando Rangel - prometendo-lhe que seria uma coisa para uma ou duas horas de gravação.
Perguntei ao Talino se queria dar uma ajuda tocando viola baixo na gravação e nessa noite de quarta-feira voltámos a casa do João para mais um ensaio... Aqui já a música ia fazendo algum sentido... Faltavam mais uns músicos que o Mário Tavares já tinha arregimentado - bateria e viola solo/ritmo (se não me falha a memória pertenciam ao grupo do Marante).
A aventura continuou na quinta-feira, pelas 22h00, no Estúdios Fortes & Rangel. Qualquer coisa como duas horas de ensaios e acerto dos respetivos músicos à base da canção; mais uma hora bem puxada da voz do Mário Tavares (vocalista na maquete); mais outra horita de diversas teclas e, finalmente, duas horas de magia do mestre Fernando Rangel e a maquete estava pronta. Eram 5h00 da madrugada!

A maquete ficou pronta a tempo?
O Mário tratou de fazer chegar a Lisboa a tempo quer a maquete, quer os diversos documentos obrigatórios. Depois foi esperar. Em dezembro de 1991, talvez a sete ou oito não posso precisar bem, estava em casa de amigos e surge na TV o anúncio das 15 canções selecionadas para concorrerem ao festival. Depois de todos os consagrados (e eram bastantes na altura) surgiu em 15.º lugar ‘Num Campo de Margaridas’... Ufa, nem queria acreditar.
Tratámos depois de arranjar um vocalista pois o Mário não podia e surgiu o Álvaro Lopes, a quem agradecemos todo o empenho posto na defesa da canção.

Disse que a música foi mal-entendida...porquê?
Ter dito que foi mal-entendida? Pois, ironicamente. Uma canção de gente do Norte (autores, vocalista, músicos e orquestrador o maestro Paulino Garcia), sem qualquer editora a proteger, mas com uma letra (poema, digo eu) e uma canção que recebeu encómios de membros do júri de seleção estava ali para compor o ramalhete. Enfim foi um prazer enorme poder tê-la apresentado ao país.

Quais as pessoas que mais o marcaram na música, na poesia, na escrita...
Na Música os The Beatles, Chicago Transit Authority, Simon & Garfunkel, Leonard Cohen e Bob Dylan. Já na escrita Ramos Rosa, José Gomes Ferreira, Fernando Pessoa, Sophia Mello Breyner e Pablo Neruda.

“Há tanta felicidade ao nosso alcance que até dá pena o desperdício a que a votamos...”

Pondera algum dia deixar o “coração” do Alto Minho para regressar à terra natal?
Tenho agora maior disponibilidade para poder investir melhor o meu tempo. Levanto-me, habitualmente, pelas 7h00/07h30. Tomo o pequeno-almoço e faço uma caminhada de aproximadamente uma hora a uma hora e meia junto às margens do Rio Lima.
Em seguida e até ao almoço trabalho no meu teclado (Yamaha DGX – 650) e vou fazendo pequenas gravações de melodias que depois serão buriladas.
Após o almoço, um chat social no café com familiares e amigos. A seguir é variável pois depende do que houver para fazer em casa.
Dias há em que saímos e vamos fazer reconhecimentos de aldeias e lugares escondidos neste Alto Minho. Adorámos fazer esse tipo de escapada de uma tarde ou um dia que seja. Há tanta felicidade ao nosso alcance que até dá pena o desperdício a que a votamos...
O dia termina com um jantar frugal, um pouco de TV, leitura e dormir.

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