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Entrevista a Sofia Silva, gestora sanjoanense em Milão

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“Toda a gente devia sair do seu país para alargar horizontes”

Amigos italianos Rapallo
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Amigas Portugueses de visita
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Sofia Silva em Milano Catedral Duomo
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Sofia Silva em Milano Catedral Duomo
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Sofia Silva com amigos em Pisa
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Entrevista a Sofia Silva, gestora sanjoanense em Milão

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Sofia Silva
Tem 32 anos, é natural de S. João da Madeira e gestora de todas as lojas monomarca franchising da Dsquared2 no mundo inteiro.
A sanjoanense Sofia Silva é a primeira portuguesa a trabalhar nesta casa de moda italiana em Milão.
O seu percurso académico começou na EB1 dos Ribeiros, passou pela EB2,3 e pela Escola Dr. Serafim Leite e terminou com a licenciatura em Gestão de Empresas pela Universidade Católica do Porto. Mais tarde, tirou o mestrado em Fashion Design and Experience Management em Itália. O percurso profissional de Sofia Silva já passou por Portugal, Suíça e Itália.

Qual a sua primeira experiência no estrangeiro?
Durante a licenciatura tive a oportunidade de estar seis meses fora, em Milão, onde hoje trabalho. Foram seis meses muito interessantes. Foi aí que tive um primeiro contacto com a indústria da moda porque tive um curso ligado à gestão de empresas de moda. Naquele momento senti um clique sobre o que fazer e qual a indústria em que me queria focalizar. Depois da licenciatura quis logo fazer o master (mestrado), mas não fiz porque me disseram que antes disso deveria ter experiência de trabalho. Entre a licenciatura e o mestrado trabalhei dois anos na PricewaterhouseCoopers – PwC – em Portugal –, uma empresa multinacional de consultoria. Uma experiência muito gratificante porque acho que me deu todas as bases que precisava para ter uma boa metodologia de trabalho. Nesse período trabalhei em diversas indústrias não ligadas à moda. Mas depois do master, aí sim, tive algumas experiências em Itália e na Suíça sempre ligadas ao mundo da moda.

“Achei que não era a opção adequada começar a trabalhar em moda”

E depois do mestrado?
Trabalhei durante três anos na Sephora como buyer (compradora) para o mercado italiano. Não é moda, mas é sempre a área de cosméticos. Portanto, deu para consolidar um pouco a experiência na parte analítica. Compras é sempre muito analítico. Achava sempre que faltava qualquer coisa. Pensava “então fiz um master em Fashion (moda) e não estou a trabalhar em Fashion?”. Fashion em Itália é muito complicado porque é muito mal pago quando se começa a trabalhar, sobretudo com estágios mal remunerados em que com o que se ganha só se consegue pagar a renda da casa e pouco mais. Então achei que não era a opção adequada começar a trabalhar em moda. Por isso é que optei por começar noutro tipo de indústria como a cosmética. Depois tive três experiências na área da moda. A primeira na Guess, a segunda na empresa argentina La Martina e a terceira na Dsquared2, que é uma casa italiana de moda que desfila cá, existe há muitos anos e é onde me encontro agora.

Qual a sua função na Dsquared2?
O que faço hoje é ocupar-me de todas as lojas monomarca Dsquared2 no mundo inteiro que não sejam propriedade nossa, mas partnership (parceria) com outras empresas. Muitas marcas quando têm de entrar em mercados como o Médio Oriente, a África e a Ásia não podem entrar sozinhas. Têm de ter um partner local que as apoie. Então, a todas essas lojas que não são nossa propriedade tento dar-lhes suporte. Desde ajudar nas compras para a loja, ter em atenção o que a marca quer ter mesmo na loja, andar a visitar as lojas, ver se cumprem as regras e os procedimentos em termos de imagem e back office, e ter a certeza que cumprem o que a marca quer. Eles são sempre partners externos e é preciso ter a certeza que cumprem aquilo que queremos ter naquele mercado. Também perceber um bocado o que é que vendem naquele mercado e tentar reportar aqui no escritório o que funciona em cada um deles. Ser um bocadinho o intermediário entre estas pessoas e as lojas e a Dsquared2.


“Saí sozinha sem me preocupar muito como ia ser e como me ia desenrascar”

Neste último trabalho foi sozinha para Milão?
Sim, vim para cá sozinha. Claro que nada se pode fazer sem o apoio dos pais e da família. Quando és jovem e decides emigrar não pensas muito nos amigos e em quem te ajuda. Vais e pensas que sabes tudo. Fazes novos amigos pelo caminho e desenrascas-te. Hoje, com 32 anos, se tivesse de sair de Portugal já pensava um pouco mais, já tenho mais responsabilidade. Portanto, saí sozinha sem me preocupar muito como ia ser e como me ia desenrascar em todos os problemas que iam surgindo.

Como foram os primeiros tempos?
Nos primeiros tempos como estudante tinha suporte por trás. É como voltar à universidade e voltar a ser estudante outra vez. Não pensar muito em responsabilidades. Nem sabia muito bem o que queria fazer a seguir ao master. Foi bastante relaxado. A partir do momento em acabei o master comecei a deparar-me com a dificuldade que falei do estágio remunerado. Tive ofertas de trabalho para Gucci e Alberta Ferretti que são marcas conhecidas. Naquela altura pensei: Não vou aceitar este emprego para receber o que pago de renda. Achei que era injusto, não era correto. Então demorei três meses a encontrar trabalho. Para algumas pessoas até é pouco tempo, mas para mim foi tempo a mais.

“Milão é uma cidade muito bem servida de transportes”

Qual o seu meio de transporte?
Vou de metro para o trabalho. É meia hora de transportes. Tudo funciona muito bem.

Usa o carro para outras deslocações?
Milão é uma cidade muito bem servida de transportes e para entrar no centro tens de pagar uma taxa. Só os moradores podem entrar. A pé ou de transportes chegas a todo o lado. É raro a pessoa que conheça que tenha carro. Facilmente vais a qualquer lado sem carro.

“Dão muita importância à comida e ao estar à mesa”

Quais os pratos e bebidas tradicionais?
A pizza e a pasta, claro. Depois há imensos tipo de carne que nem sei por onde começar. Milão tem um prato muito característico que é o risotto de açafrão com ossobuco (risotto zafferano con ossobucco) que é uma carne com osso. Depois também tem uma bistecca a la milanese que é uma carne empanada. Depois, sais um bocado da cidade para o interior e já há outros pratos diferentes. Gosto muito de risotto. Há um que gosto muito que é risotto de pêra e gorgonzola que não sei de onde é típico. É muito bom. Eles aqui têm o primeiro e o segundo pratos. Por isso, a carne e o peixe não se misturam com o risotto e com a massa. São coisas separadas. Foi difícil habituar-me ao tipo de comida porque eles comem muito. Sento-me à mesa, mesmo que seja em casa de amigos, e há sempre o antipasto - entradas - e tenho de perguntar: Quantos pratos são? Às vezes dois, outras três. Pergunto para regular o que posso comer. Aqui dão muita importância à comida e ao estar à mesa. É uma coisa muito valorizada.

Há alguma bebida em particular?
O spritz. Eles aqui têm a hora do aperitivo a partir das 19h00. Há imensos bares em que pedes uma bebida que pode custar, dependendo do sítio onde estás, entre sete a 20 euros. E eles oferecem buffet de comida rápida – focaccia, pizza, risotto, torradas, queijos - sem pagar nada. Eles têm muito este hábito de depois do trabalho sair para comer qualquer coisa e beber um copo com os amigos. Uma coisa muito característica. E o Prosecco que é a champagne.

“Acho que Milão sobrevive graças aos turistas”

Quais são as tradições?
Tens sempre a Fashion Week. A cidade é muito dedicada à moda. Depois há um evento muito importante que poucas pessoas conhecem que é a “Semana del Mobilé” (“Salone del Mobile”), em abril, dedicada ao design e à decoração de interiores. Esta é uma altura do ano em que Milão tem mais gente e mais gente com poder de compra. Portanto, todas as casas de moda fazem parcerias com casas de design e decoram as montras com designs inovadores. A Fashion Week não é tão especial porque vem toda a gente. A “Salone del Mobile” é mais exclusiva, sofisticada e com mais poder de compra. Todo ano em Milão tens turistas de fora da União Europeia – chineses, árabes, russos - que vêm às compras porque as coisas são mais baratas. Acho que Milão sobrevive graças aos turistas. Depois há a semana do gelado, dedicada à música onde nos vários cantos da cidade podes encontrar pessoas a tocar violino ou a tocar piano, jazz. Não há assim eventos populares aqui. Talvez mais nos arredores.

A moda é muito importante para os italianos?
Sempre ouvi dizer que os italianos preferem comprar umas sapatilhas de marca do que comer, mas depende. Há de tudo. Quem trabalha na área é obcecado. Às vezes nem sei como é que fazem. Eu sei qual é o salário médio em Itália e não sei como conseguem andar tão bem calçados. Há Fashion victims. Se fores ao centro vês muita gente obcecada, muito show off. Infelizmente, na área da moda isso conta muito. O facto de andares de saltos altos, teres batom, maquilhagem, é muito importante. Acho que me arranjo mais para trabalhar do que para sair. A tua competência é mais importante, mas neste setor não é assim, pelo menos em Itália.

“Milão há muitos anos atrás era como Veneza, uma cidade construída sobre a água”

Quais os locais emblemáticos?
Tens a Duomo - a Catedral no centro de Milão - que está cheia de lojas. É a rua onde tens os lugares mais chiques com as lojas mais caras e tens a lojas mais mass market como Zara e H&M e outras que não existem em Portugal. Depois tens os museus como a La Triennale di Milano com pinturas mais históricas, o renascimento e todos os pintores italianos. Em relação a outras cidades, Milão não é uma cidade com tanta história, mas deves saber onde está a igreja Santa Maria della Grazie que tem a última ceia do Leonardo Da Vinci, um sítio emblemático. Tens é de marcar com seis meses de antecedência. Está sempre cheio. Há sempre exposições de arte e de fotografia no Museo del Novecento no centro. Depois há imensas galerias de arte e fotografia espalhadas pela cidade. Tens também a Fondazione Prada que é uma fundação da marca Prada que dá suporte a novos jovens que se querem lançar no mundo da arte. Depois tens o Parco Sempione que é o maior parque de Milão, onde podes passear, correr e tem um bar no parque se quiseres tomar um aperitivo no meio do verde. Depois tens o Navigli, uma zona de canais como em Veneza. Uma zona muito gira, onde vão muitos jovens com muitos restaurantes e bares. Milão há muitos anos atrás era como Veneza, uma cidade construída sobre a água. Portanto, hoje já não é assim. Só tens dois canais que não podes comparar a Veneza. Quando chove muito as linhas de metro mais profundas têm de ser fechadas porque normalmente ocorrem inundações. Assim como quem tem garagens em seis ou sete andares abaixo do solo. Não é uma cidade muito estável. É muito sujeita a terramotos. Também tens uma zona que é Corso Como onde tens lojas, exposições e sítios para “aperitivo”. É uma cidade jovem. Tens uma praça pouco conhecida onde Mussolini foi morto e onde Leonardo Da Vinci esteve preso. Quem vier visitar por pouco tempo não consegue ver, mas quem vive sabe e aprecia.

A língua foi um entrave?
Não tive aulas de Italiano. Tive de aprender no trabalho. Ao início sentia-me frustrada porque não conseguia “entrar” nas conversas. Mas há que começar a arriscar, cometer erros. Não diria que é fácil, mas é acessível. Falando todos os dias é fácil.

“Os italianos são muito simpáticos, expansivos, muito extrovertidos”

Quais as características do povo italiano?
Os italianos são muito simpáticos, expansivos, muito extrovertidos e dizem muitas asneiras. Aqui dizem-se muitas asneiras no trabalho. Acabas por absorver isso, mas não é bonito. Tento dizer em Português. O que acontece é que às vezes transmito isso em Portugal e é feio. Tenho de controlar essa veia italiana. Os italianos no Norte são mais fechados e mais apreensivos em relação aos estrangeiros. Os italianos do Sul são mais parecidos com os portugueses, muito hospitaleiros, têm a mania que sabem sempre tudo, raramente dizem que não sabiam ou pedem desculpa. O que me faz confusão. Eles são mais preocupados em arranjar culpados do que em resolver o problema. Eles são muito desorganizados a nível de trabalho, mas não sei se é o setor da moda que em si já é desorganizado.
O povo italiano é muito acomodado e tem muitos problemas ao nível político. Um país com uma evasão fiscal muito alta. As pessoas criticam muito e quando chega a hora da verdade, em que podem criticar, não falam. Não mudam. Isso vê-se muito na política.

“Não é um país com grande facilidade em falar novas línguas”

O que mais a surpreendeu?
Achava que eram muito organizados, um país muito à frente, mas não é assim. Não é um país com grande facilidade em falar novas línguas. Uma coisa que me desiludiu é que não posso ir ao cinema cá. É tudo dobrado em italiano. Sempre as mesmas vozes. A televisão também é tudo dobrado. Sempre que vou a Portugal vou ao cinema porque é uma coisa que adoro. Aqui não consigo. Recuso mesmo.
Um país pouco respeitador. Aqui há muita dificuldade em organizar uma fila no banco, no supermercado. Quando abre uma terceira caixa não vão em ordem, mas uns à frente dos doutros. Até para apanhar um avião não há uma fila, mas uma fila com mil bifurcações diferentes.

O que mais custou a adaptar?
Tenho pouca paciência. Agora tenho mais. Deve ser do yoga e da idade. Em Portugal temos livros de reclamações. Aqui não há. Portanto, não estão habituados a reclamar e gosto de reclamar quando acho que alguma coisa não está bem. Aqui não é normal. O meu marido gosta da minha maneira de ser, de reclamar quando se deve fazer e está a aprender comigo. Eu estou a aprender com ele a ter mais calma, a acomodar-me. Ajudamo-nos mutuamente a encontrar um equilíbrio.
De resto somos muito semelhantes. Receberam-me muito bem. Eles querem saber imenso de Portugal, gostam de falar sobre o Cristiano Ronaldo e o que aconselho em Portugal.

Há mais portugueses no seu local de trabalho?
Não. Há um português que trabalha connosco, mas está em Paris e vem cá de vez em quando. No trabalho não há muitos estrangeiros, são maioritariamente italianos.

Foi a primeira e até agora única portuguesa a trabalhar nessa empresa em Milão?
Sim. Acho que sou a primeira mesmo.

“Eles usam imensas asneiras”

Há alguma expressão típica do local onde está?
Há imensas, mas não vou poder dizer porque não vais poder escrever. Tem muitas asneiras. Eles usam imensas asneiras.


“Sinto muita falta de casa”

Qual o balanço desta experiência pessoal e profissional?
O balanço é positivo. Acho que toda a gente devia sair um bocadinho às vezes do seu país para alargar horizontes. O mundo é tão grande e conheces pessoas tão diferentes. Enriqueces-te pessoalmente a todos os níveis. Estou muito feliz, é claro, mas digo também sinceramente que me sinto culpada por estar fora porque sou filha única. Apesar da minha família estar sempre muito presente – os meus pais nunca estão sozinhos - lá no fundo sinto-me culpada por estar longe e gostava de voltar a Portugal. Nunca pensei dizer isto porque quando és mais jovem queres sair, conhecer e passear. Felizmente, pelo trabalho tenho oportunidade de viajar, mas sinto muita falta de casa. Um dia gostava de voltar. Espero que seja muito para breve. Não há como a tua casa.

Do que sente mais falta?
Família, cinema, amigos, falar sobre Portugal. As pequenas coisas. Aqui nunca consigo participar em conversas sobre programas de infância ou outros. Sinto falta do humor português, do mar, da qualidade de vida e dos amigos que não se perderam no tempo. Falar Português. Do tempo, mas não é dramático. Sinto falta do bacalhau, das bolachas “Maria” e de outros produtos típicos inexistentes cá fora. Mas não me posso queixar porque aqui come-se muito bem. Sinto falta da “comidinha” caseira da mãe.

Do que é que sentirá falta, do local onde está, se um dia for para outro país ou regressar a Portugal?
Da multinacionalidade dos meus amigos, do facto de estar num país diferente, recebes sempre energias novas. Saudades de falar Italiano, mas isso consegue-se resolver, sentimentos, emoções e situações novas.

Os planos passam por voltar a Portugal?
Claro. Espero é que tenha um emprego à minha espera. Isso é que é mais difícil. O meu marido gosta muito de Portugal. O único senão é encontrar um emprego que o realize profissionalmente.

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