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Há cerca de um mês, com apenas 26 anos, sagrou-se o homem mais forte de Portugal. Em entrevista, o labor dá-lhe a conhecer este atleta de strongman que vive numa cidade e num país onde a modalidade “passa ao lado” da esmagadora maioria

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Fábio Silva “é menino” para puxar um camião de 20 toneladas

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Há cerca de um mês, com apenas 26 anos, sagrou-se o homem mais forte de Portugal. Em entrevista, o labor dá-lhe a conhecer este atleta de strongman que vive numa cidade e num país onde a modalidade “passa ao lado” da esmagadora maioria

Como é que surgiu essa sua apetência para o treino?
Em pequeno, quando andava na primária, jogava futebol, na ADS [Associação Desportiva Sanjoanense]. Também andei no andebol.
Entretanto, com 13 anos, vim para aqui [São João Health Club] para treinar kickboxing. E ainda treinei uns meses até ao dia em que um amigo disse-me para fazer um treino com ele. Na altura, fazia-se um bocadinho de “cardio” e daquilo a que chamam de máquinas, para ganhar músculo e força.

De onde vem a alcunha de “Formiga”?
Vem de uma “febre” que houve, há muitos anos, provocada pelo jogo “counter strike”, jogado numa LAN, com 20 a 30 pessoas ligadas em rede. Íamos para lá e jogávamos uns contra os outros. “Formiga” era o meu nickname.
Andava para aí no 7.º ano. A alcunha pegou e ficou para a vida. Mas só aqui, na cidade, é que as pessoas me conhecem por “Formiga”. Fora daqui ninguém me conhece como tal.

Porquê “Formiga”?
Calhou. A mulherzinha pediu-me um nickname. Disse-lhe “Formiga”, tal como podia ter dito “Elefante” ou “Bolinha”.

Mas agora não deixa de ser irónico uma “formiga” ser o homem mais forte do país.
Não nos podemos esquecer que a formiga é o animal mais forte do mundo. Podem pensar que escolhi “Formiga” por ser pequenino, mas não, nada tem a ver. Com 15 anos, já competia (fiz a minha primeira prova de powerlifting), pesava 90 quilos e era atlético. Também já tinha quase a altura que tenho agora (1,80m).

Quanto pesa?
Em prova 130kg. Fora de prova, 120kg, à volta disso.


“Na Islândia, há até um cemitério para sepultar quem compete na modalidade”
Strongman é uma modalidade desconhecida para a esmagadora maioria dos portugueses.

Desconhecida, mas só aqui. Porque se formos para fora do país, por exemplo para a Islândia, Finlândia, Lituânia, etc., lá adoram o strongman.
Na Islândia, há até um cemitério para sepultar quem compete na modalidade. Numa das terras, há até guias turísticos que te levam a visitar a campa daquele que foi o homem mais forte do mundo durante três anos. Lá os praticantes de strongman são autênticos heróis. Por exemplo, o “Montanha” é atualmente o homem mais forte da Islândia e do mundo. Lá é um deus, tal como o Ronaldo é aqui.
Comecei a ver desde muito cedo na Eurosport as provas de strongman. Era novo e via pessoas a puxarem camiões grandes. Ficava louco com aquilo.

Que idade tinha na altura?
Sei lá. Foi a partir do ano 2000, por aí. Eu via e o meu pai também.

A partir daí começou a orientar o seu treino para ser um strongman?
Comecei a orientar a minha vida para o treino.


“Tentativa e erro é a melhor maneira de aprender, de evoluir”
Pediu ajuda a alguém para o orientar? Consultou manuais?
Agora já conheço muitas pessoas, com quem troco impressões. Mas na altura era completamente autodidata. E foi a melhor coisa que fiz. Neste desporto, a prática interessa muito mais do que a teoria.

Então, este seu percurso foi praticamente iniciado “no escuro”?
Foi. Até agora, vou evoluindo por tentativa e erro. Ano após ano, nunca faço nada igual. Agora, ganhei a prova. Correu tudo bem. Mas numa próxima vez vou mudar uma ou duas coisinhas que penso que fiz de errado. O método de tentativa e erro é a melhor maneira de aprender, de evoluir.

O que implica a prática desta modalidade? A sua vida deve ter mudado 180 graus.
Se quisermos atingir um bom nível de competição muda completamente. Agora, se for treinar e competir só para participar nuns eventos, tirar umas fotos e pouco mais pode-se continuar a levar uma vida normal.
No meu caso, por exemplo, a dieta mudou completamente. Passei também a ter muitos gastos com a comida. Não compro uma melhor consola nem uma melhor televisão porque sei que tenho gastos com a comida.


“Enquanto poderia gastar 100 euros por mês, gasto entre 400 e 500 euros [em comida]”
Mas trata-se de comida específica?

É comida normal. Só que a dieta, consoante a altura do ano e a prova, varia muito. O problema é a quantidade. Enquanto poderia gastar 100 euros por mês, gasto entre 400 e 500 euros, porque, por exemplo, em vez de um bife tenho de comer quatro bifes numa só refeição.

O Fábio passa a vida a treinar?
Pensam que o pior é o treino, mas não. O treino é a parte boa do dia. O problema é o resto. Porque depois do treino fico mesmo de rastos, dói-me tudo, tenho que comer quando não tenho fome, tenho de ficar em casa a descansar quando às vezes quero sair. Ou melhor, posso sair, mas se o fizer vou estragar o treino que fiz e não vou recuperar para o treino do dia a seguir. Qualquer milímetro, qualquer graminha de comida, conta. Ganhei o título por um ponto.

Como é que a modalidade é encarada pela família?
Inicialmente, a minha família não achou muita piada. Porque este é um desporto bruto para quem não conhece. Na minha primeira prova, em 2009, deixei cair uma bola de 130 kg a milímetros do meu pé direito. Por acaso, caí para trás não por causa da bola, mas de uma caimbra numa perna. Mas quem estava na bancada pensou que tinha ralado completamente o pé.
Quando comecei os meus pais não me apoiavam, mas agora apoiam-me.


Tem cuidados acrescidos com a saúde?
Há pouco mais de meio ano que estou a ser acompanhado por uma nutricionista. De resto, tudo o que faço é por minha iniciativa. Claro que vou ao médico, faço exames e tenho de ter mais cuidados do que uma pessoa normal.
Não bebo, não fumo. A minha dieta não é para viver mais anos por causa da quantidade. Mas garanto-lhe que é muito mais saudável do que a dieta da maioria das pessoas.

Mas quê? Trata-se de uma modalidade de alto risco?
Não conheço nenhum atleta que não se tenha magoado a sério. Mas trata-se mais de romper músculos, tendões. A nível muscular e de articulações, é um desporto mais complicado. Sei que mais tarde ou mais cedo vou ter uma lesão grave.
Até agora o que tenho tido é leve. Volta e meia, rasgo o peitoral ou um bocadinho do bícep, mas pronto. Parando o corpo recupera. Mas já estive provas em que, por exemplo, outros atletas ralaram completamente o joelho.

Quer fazer disto uma profissão?
Para sempre, não. Os melhores atletas acabam a carreira com 40 e tal anos. Mesmo assim, mesmo não competindo, continuam dentro da modalidade participando em eventos, representando marcas, treinando, etc.. E eu quero ser como eles, estando sempre ligado à modalidade.

Quais foram as provas mais loucas que fez?
Puxei um camião com um trailer de 20 toneladas, que apesar do peso não é uma prova muito complicada. Mas sei lá, talvez o Yoke (400 kg), uma barra com pneus (390 kg), etc..
Há muitas provas que podemos fazer. A minha preferida é o Log Lift, é onde me sinto mais confortável. Mas varia de atleta para atleta.


“São cada vez mais as pessoas a reconhecerem-me na rua”
Detém atualmente o título de o homem forte do país. O que é que mudou desde o dia 1 de outubro?
Assim no imediato, ganhei maior visibilidade. A nível nacional, noto isso nas redes sociais, na internet e quando vou aos eventos. Agora, em novembro, vou ao Meo Arena, ao Portugal Fit. Vou estar lá a fazer publicidade para uma marca que me patrocina. Vou tirar fotos e falar um bocadinho com a malta.
Ano após ano, noto que são cada vez mais as pessoas a reconhecerem-me na rua. Ainda hoje fui ao Continente e o homem do talho e a mulher da fruta reconheceram-me. Ou porque viram no labor, no “ainanas.com” ou noutro lado qualquer.

Não surgiram novos patrocinadores ou convites para participar em eventos?
Ainda não. Aliás, nem sequer tive tempo de poder agradecer às pessoas, uma a uma, porque estive de férias. Agora no fim do ano vai ser lançado o meu documentário (Força Lusitana), que mostrará todo o meu percurso ao longo de 2017 até chegar à competição do dia 1 de outubro, inclusive uma prova que fiz em Itália.

Sim, porque pertence a um grupo de atletas portugueses que representam o país além-fronteiras.
Não é uma seleção, mas um grupo de quatro atletas que compete lá fora. Integro-o desde o ano passado. Fui a Vigo, Londres, Itália (também já competi com os italianos cá em Portugal).

Como têm sido os vossos resultados?
Em Inglaterra ganhámos. Cá contra a Itália ganhámos, mas lá perdemos. Ficou 1-1. Agora vai haver algures a desforra para apurar o vencedor.

Numa outra conversa que tivemos anteriormente, disse que a nível físico os atletas portugueses estão em desvantagem em relação os nórdicos.
Quanto a isso não podemos fazer nada [risos].

Mas tendo o título do homem mais forte do país poderá vir a ser o homem mais forte do mundo?
Não. Nem de perto nem de longe. Aquela elite que compete para o homem mais forte do mundo é “invencível”. É como comparar um jogador da ADS a um jogador do Real Madrid. Não tem nada a ver.
Para já a diferença em termos de corpo é abismal. O Top 5 é composto por atletas que pesam 180, 200 kg, atléticos.

Quem são os seus ídolos?
Eddie Hall, Zydrunas Savickas e Hafthor Bjornsson. E, a nível nacional, o Adérito Santos.

Pensou alguma vez que ia ser capaz de o destronar?
Já há cerca de dois anos que esperava por esta prova. Sempre que competia com ele era numa prova internacional e não dava para ganhar nada.

O que sentiu quando ouviu o seu nome como vencedor na competição de 1 de outubro?
Fiquei feliz. Mas sou um bocado frio. Não gosto de dar muito espetáculo. Fico sempre um pouco na minha. Mas, quando recebi o título, claro que festejei. Se bem que até foi mais por causa da família e dos amigos, que estavam na assistência.

Com este título está mais perto de se dedicar única e exclusivamente à modalidade?
Sim, sem dúvida. Mas para já ainda vou ter de continuar a trabalhar no negócio da família.

Qual o episódio mais marcante pela positiva e pela negativa até hoje?
Pela negativa, foi quando fui, no ano passado, competir no “Arnold”, em Barcelona, e perdi o avião. Não comi nada em casa a pensar que ia fazê-lo mal chegasse ao hotel. Nem água nem uma banana tinha comigo. Tivemos de alugar um carro e fomos diretos para Barcelona, onde tinha prova no dia a seguir.
Quando cheguei a Barcelona só não vim embora na hora porque não tinha como vir. Demorámos para aí 13 horas de carro, com uma prova muito dura no outro dia. Mesmo assim fi-la. Fiquei em 12.º.
Pela positiva, foi ter competido com muitos dos meus ídolos, que cheguei a ver na Eurosport.



Fábio Silva

Com apenas 27 anos de idade, feitos no último sábado, Fábio Silva é “o homem mais forte do país”. “Título absoluto” que conquistou no passado dia 1 de outubro, na PowerExpo Sports and Fitness Weekend Portugal, na Maia, depois de “medir forças” com nove também “gigantes” portugueses, um dos quais Adérito Santos, que detinha o galardão há mais de 10 anos.
Sempre viveu em S. João da Madeira, onde, aliás, estudou até ao 12.º ano. É também num ginásio da cidade sanjoanense que o “Formiga” - alcunha que ganhou quando, nos tempos de escola, jogava “counter strike” numa lan house do Centro Comercial América - treina desde “para aí os 13 anos”.
No final do ano, vai ser lançado o documentário “Força Lusitana” em que o atleta sanjoanense se dá a conhecer. Da autoria de Sérgio Martins, este trabalho mostra “como é ser-se um strongman num país onde futebol é desporto e o resto é paisagem”.

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