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Entrevista a Joana Guillet, enfermeira sanjoanense que está na Suíça

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“Os primeiros tempos foram um pouco difíceis”

FOTO: Direitos Reservados
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Entrevista a Joana Guillet, enfermeira sanjoanense que está na Suíça

Joana Guillet
Joana Ramos Faria Guillet tem 32 anos, é natural de S. João da Madeira e é enfermeira no Centre Hospitalier Universitaire Vaudois (CHUV), em Lausanne, na Suíça.
O percurso educativo começou na Creche Albino Dias Fontes Garcia, continuou na EB1 dos Ribeiros, na EB2,3 e nas Escolas Secundárias João da Silva Correia e Oliveira Júnior e até no Externato D. Dinis em S. João da Madeira.
Joana Guillet é licenciada em enfermagem pela Escola Superior de Saúde de Jean Piaget. As oportunidades de emprego qualificadas e remuneradas na sua área de formação tardaram em aparecer em Portugal. Então, Joana decidiu que alguma coisa tinha que fazer. As oportunidades de trabalho qualificado e remunerado na área da saúde apareceram na Suíça, onde está desde 2010. Esta conversa será sobre a história de uma sanjoanense que está a trabalhar e a viver num outro país do mundo.
Daqui em diante, o nosso jornal publicará, uma vez por mês, uma entrevista a sanjoanenses que estão a trabalhar um pouco por todo o mundo. Desta forma, a história das “suas gentes” será dada a conhecer aos sanjoanenses e não só.

O que a levou a deixar a sua cidade, o seu país?
Terminada a minha licenciatura em julho de 2009, ao mesmo tempo em que começava a crise a instalar-se no nosso país, com vários envios de CV’s (Curriculum Vitae) em vão (ou então propostas de trabalho não remunerado!), e após ter também pensado ingressar no Exército (e ainda me ter preparado para as provas físicas), decidi aventurar-me fora do país.
Na altura a escolha era fácil de fazer, Inglaterra ou Suíça. Mesmo tendo mais facilidade no Inglês, optei pela Suíça visto ter família próxima lá a viver, de maneira a me sentir menos sozinha, saber que tinha um porto seguro caso me acontecesse alguma coisa!
Ainda trabalhei cerca de dois meses no Centro Comercial 8.a Avenida numa loja de lingerie (Etam) que me permitiu pagar o curso de Francês para profissionais de Saúde, na Alliance Française no Porto.
De outubro de 2009 até meados de dezembro do mesmo ano, viajei para a Suíça (tendo ficado em casa de familiares) para poder exercer a língua e estar já em território helvético, caso fosse chamada para uma ou outra entrevista.
E assim aconteceu! Em dezembro, uns dias antes do Natal, fui a uma entrevista, vim passar o Natal a casa e no dia 31 regressei para começar a trabalhar no dia 4 de janeiro de 2010.

Onde está a trabalhar?
Atualmente trabalho como enfermeira no Serviço de Traumatologia no CHUV – Centre Hospitalier Universitaire Vaudois, em Lausanne.

Quais as suas funções na empresa?
Costumo trabalhar na enfermaria, passando também, quando necessário, pelos cuidados intermédios do serviço.

Este é o primeiro emprego fora de Portugal?
Sim.

Foi sozinha?
Sim.

“Estamos rodeados de pessoas de nacionalidades e de culturas diferentes”

Há quanto tempo está a trabalhar no CHUV?
Já estou lá a trabalhar há seis anos e meio, porque o meu primeiro emprego foi num EMS – Etablissement Médico-Social (uma espécie de Lar Medicalizado), onde trabalhei oito meses, antes de ir para o Hospital.

Como foi a experiência no Lar?
No início não me importei de começar a trabalhar num Lar. Como ainda era recém-licenciada e ainda por cima num país estrangeiro, acho que acabou por ser uma ótima experiência, permitiu-me aprender bem a língua e a perceber como funcionava o sistema de saúde suíço. Claro que depois de um certo tempo e depois de me já sentir mais à vontade e com o trabalho que se tinha tornado muito monótono, logo que surgiu a oportunidade de sair para voar mais alto, fui para o CHUV.

Um Lar Medicalizado é um lar com assistência médica?
Sim, o EMS é um Lar com assistência médica, mas não permanente. Neste onde trabalhei tinha-se a visita médica duas vezes por semana, onde também podíamos contactar o médico de guarda caso algo acontecesse, assim como nós enfermeiros, tínhamos uma noite por semana em que estávamos de piquete (em casa) e que podíamos ser chamados pelas auxiliares, se assim fosse preciso. A noite era feita por auxiliares de ação médica.

“No serviço onde trabalho, cerca de metade dos funcionários são portugueses”

Como foram os primeiros tempos?
Os primeiros tempos foram um pouco difíceis visto que estava sozinha na cidade onde estava a trabalhar, e no início era trabalho-casa, casa-trabalho. E as saudades que apertavam! E ainda para piorar as coisas, nos primeiros meses vivia num estúdio que ficava nas instalações do EMS, onde pagava 300 CHF/mês. ("Preço de amigo", porque nunca na Suíça se paga 300 CHF/mês por um estúdio!)
Quando cheguei ao Lar já lá trabalhavam duas enfermeiras portuguesas (de Chaves) com quem ao início estabeleci uma relação de amizade, principalmente com uma delas, e alguns meses mais tarde acabámos por alugar um apartamento e vivemos juntas cerca de um ano, até que, entretanto, começámos a namorar e cada uma de nós acabou por seguir o seu caminho (nunca perdemos contacto, vemo-nos quase todos os dois meses, é a minha melhor amiga aqui na Suíça!). Mesmo tendo os meus tios e a minha avó a viverem aqui, o local onde trabalhava ficava a cerca de 40 min de onde eles vivem, o que fazia que só ia de visita quando tinha o fim de semana livre. Depois com o tempo fui conhecendo outras gentes, até conhecer o meu marido, que na altura foi apresentado pela minha cunhada, que era minha colega de trabalho no Lar. A partir daí as coisas ficaram mais fáceis! 

Conhece muita gente? Portugueses e estrangeiros?
Sim, sou uma sortuda. A vantagem de viver na Suíça, e quando se tem vontade de se integrar no país, é que estamos rodeados de pessoas de nacionalidades e de culturas diferentes.
Portugueses então é que não faltam... sobretudo na zona francófona, e nas grandes cidades então é que é.
Só para dar um exemplo, no serviço onde trabalho, cerca de metade dos funcionários (entre pessoal auxiliar, enfermeiros e fisioterapeutas, e não só) são portugueses...até duas das enfermeiras chefe.

“O romanche é um dialeto, uma mistura de alemão com italiano, que é falado nos cantões mais "perdidos" da Suíça”

Quais os pratos e bebidas característicos?
Ui...existem muitos!! Mas de tudo o que provei enumero Fondue, Raclette e Fillet Mignon aux Morilles (uma espécie de cogumelos).
Quanto às bebidas não conheço nada em especial, mas de saber que a Suíça tem muitos bons vinhos!

Quais as tradições?
A começar pelo 1 de Agosto (Festa Nacional), o “Desalpes” que é quando chega o tempo mais frio, os agricultores descem as vacas das montanhas para os pastos que ficam no planalto e durante essa descida as vacas fazem o caminho a pé e enfeitadas com coroas de flores na cabeça. A música típica suíça, o yodel, assim como o instrumento musical suíço mais conhecido, Cor des Alpes (usado antigamente como meio de comunicação entre os habitantes das montanhas), o Serviço Militar obrigatório, a mecânica relojeira, as vindimas... estas são aquelas que conheço, depois varia de cantão para cantão.

A que corresponde o cantão?
O cantão na Suíça corresponde ao nosso distrito. A Suíça é constituída por 26 cantões, uma grande parte são cantões alemães, seguidos dos francófonos e em minoria (apenas um) italiano. Só por curiosidade, na Suíça falam-se quatro línguas: a oficial, alemão, o francês, o italiano e o romanche que é um dialeto, uma mistura de alemão com italiano, que é falado nos cantões mais "perdidos" da Suíça!

“Penso que país mais democrático que a Suíça não existe na Europa”

Como é a política na Suíça?
Penso que país mais democrático que a Suíça não existe na Europa! Quase todas as leis são votadas pelo povo. De saber também que não existe Presidente da República: o país é dirigido por sete chefes de Estado, e desses sete existe um que é o principal e todos os anos é um diferente (não é o povo que decide, decide-se entre eles) e os cantões alemães têm mais poder político que os outros (visto que são a maioria) e ainda existem as leis federais, cantonais e comunais (o equivalente a freguesia). O que quer dizer que as leis federais são iguais para todos os cidadãos, as cantonais e comunais variam de cantão para cantão assim como de freguesia para freguesia. O país é dirigido maioritariamente pela UDC, partido da extrema direita.

O que é que distingue a cidade/país onde está?
Posso dizer que o que distingue estar aqui na Suíça é poder ter um nível de vida que me permite conciliar o trabalho com a família e com o lazer. Ter a sorte de ter salários que acompanham o nível de vida, mas não pensem que se nada em dinheiro! Porque aqui mesmo as coisas mais básicas, como a carne e o peixe, são bastante caras, e tudo se paga... até o lixo! Se se tem cabeça, consegue-se conciliar tudo o que disse antes, e viver sem ter a corda à volta do pescoço.

O que poderia melhorar?
Não sei bem o que poderia melhorar..., mas em tom de desabafo, e agora que sou mãe, é que aqui na Suíça é muito difícil de dar a tomar conta as crianças enquanto os pais trabalham. Pois existe pouca oferta de infantários e de amas (que são bastante caros!). Em 2017 a mentalidade suíça diz, ainda, que a mulher quando é mãe deve ficar em casa a tomar conta dos filhos e o homem é que trabalha. Os tempos mudaram!

“O frio daqui é muito mais fácil de suportar que o de Portugal”

Quais os locais emblemáticos?
Muitos..., mas uma vez mais, aqueles que visitei e conheço: Museu do Chocolate e do Queijo (região da Gruyère), Museu dos Transportes em Lucerne, Mercado de Natal de Montreux, assim como o Montreux Jazz Festival, Montreux Comedy e o Festival de Música Paléo.

Como são os habitantes/o povo do local onde está?
No geral, são todos muito simpáticos! Diria que ligeiramente menos acolhedores do que nós, isto num primeiro tempo, até ganharem confiança. Bons amigos e muitos conviviais.

O que mais a surpreendeu?
O frio! Não pela negativa, mas sim pela positiva. Mesmo chegando muitas vezes a temperaturas negativas, o frio daqui é muito mais fácil de suportar que o de Portugal, visto ser um frio mais seco, e então quando se chega a casa, até se pode andar de t-shirt, casas muito bem aquecidas e isoladas.

O que mais custou a adaptar?
A caminhar e conduzir na neve. E ver todo o comércio fechar ao sábado entre as 16h00 e as 18h00, e só abrir na segunda-feira de manhã. Ao domingo só a restauração é que está aberta.

Há alguma expressão típica do local onde está?
Não conheço nenhuma em especial.

Que sítios costuma frequentar?
Sou muito caseira! Agora com filhos pequeninos torna-se mais difícil de sair, mas continuo a ir ao cinema de vez em quando, a ir ao restaurante e agora no verão aproveita-se mais para ir aos bares/cafés que ficam à borda do lago, assim como ir dar umas voltas de barco no lago de Neuchâtel.

“Para já Portugal só para passar férias!”

Qual o balanço desta aventura pessoal e profissional?
Muito boa! No início quando cheguei à Suíça o meu objetivo principal era ter um trabalho fixo e ter uma boa qualidade de vida. Lentamente comecei a conhecer pessoas novas, a sair e a integrar-me na cultura helvética, que me permitiu fazer novas amizades e até de constituir família...e com um suíço! Sinto-me realizada. Por isso, só pode ser positiva!

Do que sente mais falta?
Da comida da mãe, do mar e do cheiro a mar. E de todos os amigos e familiares que ficaram, mas que é sempre motivo de reencontro cada vez que vá a Portugal.

Do que é que sentirá falta, do local onde está, se um dia for para outro país ou regressar a Portugal?
Das pessoas e das amizades que por lá possam ficar.

Os seus planos passam por voltar a Portugal?
Sim... na altura da reforma. Nunca se sabe as voltas que a vida dá...
Adoro ir ao nosso país e quando está a chegar à altura de ir fico em pulgas e ansiosa que chegue o dia da viagem, mas para já Portugal só para passar férias!

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