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A derrota do último fim de semana, frente ao Xico Andebol, deitou por terra as esperanças da Sanjoanense subir de divisão. Nuno Baptista, treinador da equipa sénior alvinegra, sublinha que o resultado não deve apagar todo o excelente trabalho realizado ao longo da temporada e acredita que a derrota foi uma aprendizagem.
Sem saber ainda qual o seu futuro, o técnico confessa que gostaria de dar continuidade ao projeto de sucesso que iniciou, mas também acha que o ciclo de três anos está completo e que a aposta do clube poderá passar por um novo caminho

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“As derrotas ensinam mais do que algumas vitórias”

FOTO: Nuno S. Ferreira
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A derrota do último fim de semana, frente ao Xico Andebol, deitou por terra as esperanças da Sanjoanense subir de divisão. Nuno Baptista, treinador da equipa sénior alvinegra, sublinha que o resultado não deve apagar todo o excelente trabalho realizado ao longo da temporada e acredita que a derrota foi uma aprendizagem.
Sem saber ainda qual o seu futuro, o técnico confessa que gostaria de dar continuidade ao projeto de sucesso que iniciou, mas também acha que o ciclo de três anos está completo e que a aposta do clube poderá passar por um novo caminho

Labor: Como é que a Sanjoanense encarou o jogo do último fim de semana, que era decisivo para as aspirações da equipa?
Nuno Baptista: Já os dois jogos anteriores tinham sido decisivos. Depois da derrota de Santo Tirso que qualquer um dos quatro jogos em falta eram autênticas finais, em que uma derrota ditava o nosso afastamento.
A verdade é que a equipa reagiu muito bem aos dois primeiros jogos, com duas vitórias categóricas, primeiro frente ao Setúbal, em casa, e depois com o Camões, em Lisboa. Já contra a equipa do Xico a Sanjoanense acusou sempre a pressão. Desde o aquecimento que senti a equipa muito ansiosa, algo que não tinha notado durante a semana. Os primeiros 10 ou 15 minutos do jogo foram bastante azarados para nós. Lembro-me de três lances em que o nosso guarda-redes toca na bola que vai ao poste e entra. Havia sempre aquela pontinha de azar que nos estava a puxar para baixo, juntamente com algumas decisões da arbitragem que não nos ajudaram nessa fase do jogo. Com tudo isso a equipa destabilizou-se durante um período. Eu acabei mesmo expulso por reagir a uma decisão do árbitro, que até nisso mostrou pouca tolerância, já que na primeira vez que falei mostrou logo cartão vermelho.
A realidade é que a equipa sentiu muito essa pressão e a primeira parte foi sempre em esforço a lutar contra o resultado.
Na segunda parte a intranquilidade existiu sempre, mas entramos mais determinados e por duas vezes estivemos a três golos de igualar, contudo nunca fomos capazes de nos aproximar e acabamos por perder o jogo.

Foi um resultado que, de certa forma, decidiu a época para a Sanjoanense.
Ainda não está tudo decidido porque ficar em terceiro não é o mesmo que ficar em quarto lugar. Neste momento o nosso pensamento está aí. Vamos fazer uma semana completamente normal para preparar o jogo do próximo sábado com o S. Bernardo, que vai querer ganhar porque lhe dará o título nacional. Mas nós também queremos vencer para estar o mais próximo possível do topo.

Que balanço faz da época, tendo em conta que este foi um jogo que deitou por terra todo o trabalho que foi realizado?
Obviamente que é positivo. Pessoalmente tinha definido quatro objetivos. O primeiro, que era quase obrigatório, era estar presente na fase final, que foi conseguido com algum brilhantismo, já que não tivemos qualquer derrota. O segundo seria lutar pelos lugares de subida, que até à penúltima jornada era possível pois só dependíamos de nós. O terceiro era subir de divisão, que não foi conseguido, e o quarto, que também não foi alcançado, era ser campeão. Ficamos a dois jogos desses dois objetivos, mas acho que tudo o resto não pode ser esquecido.
Há três anos, quando cheguei à Sanjoanense o clube não sabia se iria jogar na segunda ou terceira divisão, já que foi no último jogo que se conseguiu a manutenção. Ainda no ano passado estivemos numa situação idêntica com a equipa lutar para não descer até a três jornadas do fim. O salto que demos da época passada para esta é grande e é algo que nos deve orgulhar. Numa equipa construída de novo, com jogadores que cá estavam e outros que vieram de fora, conseguir este equilíbrio é muito bom. Ainda falta muita coisa, mas o mais importante foi conseguido, que foi a fusão destes elementos. Chegar aqui e ficar tão próximo do objetivo deixa um amargo na boca e todas as pessoas estão tristes, mas quando pensamos no nosso trajeto não há grandes razões para isso.

A Sanjoanense terminou a primeira fase na liderança e sem qualquer derrotas, mas a fase final foi mais irregular. Passou-se alguma coisa com a equipa ou foi o resultado dos adversários que tiveram pela frente?
Temos de contar sempre com a equipa adversária. Fala-se muito na Sanjoanense e na sua qualidade, mas as outras equipas também fazem pela vida. Esta semana jogamos com o Xico que tem no seu plantel três ou quatro jogadores com uma vasta experiência de primeira divisão. O próprio S. Bernardo tem jogadores que passaram muitos anos na primeira divisão. Essas equipas dizem que não pagam a jogadores, mas acho isso muito estranho porque há atletas que não vieram para a Sanjoanense para ir para esses clubes porque não fomos capazes de chegar aos valores que eles pretendiam.
Acho que o que fez diferença nesta fase final foi essa experiência adquirida. Há coisas que podemos aprender e ensinar no treino, mas há outras coisas que só se aprendem perdendo e sofrendo. E, se calhar, esses jogadores que jogaram contra nós têm muito dessa experiência.
Creio que se a Sanjoanense tivesse chegado à fase final com menos brilhantismo, sem ser o principal candidato a subir de divisão, se calhar tinha sido mais fácil. Houve essa obrigatoriedade de ganhar e todos os jogadores sentiram um bocado essa pressão.

Foi o facto de a Sanjoanense ter algum favoritismo que aumentou a pressão sobre a equipa?
Acho que isso pesou um bocado. No primeiro jogo empatámos a um segundo do fim. No segundo encontro, em Setúbal, voltamos a empatar, com o adversário a marcar de sete metros já com o tempo esgotado. Depois ganhamos em casa com o Camões e empatámos no S. Bernardo, com um golo do adversário a um segundo do fim. Foram muitos contratempos e muitas coisas a acontecerem nos últimos segundos, nos detalhes, que nos condicionaram.
Não foi só o resultado do Xico que ditou o nosso afastamento. Foram todos os empates nos últimos segundos que fizeram com que não amealhássemos os pontos para que agora estivéssemos mais confortáveis.

Não ditou o afastamento, mas foi um jogo decisivo. O que é que acha que a equipa apendeu com esta derrota?
É difícil contabilizar. Tenho jogadores que chegaram ao fim do jogo e sentiram necessidade de pedir desculpa ao resto da equipa e ao treinador por terem estado mal. Esse assumir de culpa é que os vai fazer crescer. Se calhar há uns anos atrás nunca tinham tido um jogo mau e quando perdiam a culpa era sempre de alguém. Acho que este assumir de culpa vai fazer crescer a equipa. As derrotas ensinam mais do que algumas vitórias. Há coisas que só se aprendem passando por elas e penso que isto pode ser uma boa aprendizagem para o futuro tanto ao nível individual, como coletivo.

Como é que uma equipa que lutava pela presença na fase final passa de favorita à subida de divisão?
No início da época não eramos, nem de perto nem de longe, candidatos à subida de divisão. Ninguém tinha a Sanjoanense como favorita. Aconteceu devido ao trajeto na fase inicial, que foi de tal maneira brilhante e categórico que a equipa foi considerada por muitos, inclusive alguns treinadores de equipas adversárias, como principal candidata à subida de divisão. Mas isso nunca foi assumido por nós. Desde início que o nosso principal objetivo era ir à fase final e foi a única meta que a direção me impôs. Claro que depois temos um carro tão oleado e andar tão bem que pensamos que podemos ir por aí a cima, mas tivemos um furo na fase final.

Ainda há pouco referia que nos últimos três anos a equipa de um salto grande. Como justifica isso neste espaço de tempo?
No primeiro ano que cheguei à Sanjoanense o clube não tinha quaisquer condições, mas, mesmo assim, tentamos ir buscar alguns jogadores a custo zero, ou pagando apenas o transporte. Não conseguimos nenhum atleta. Ninguém queria vir para Sanjoanense. No segundo ano, e depois de muitas tentativas, trouxemos um atleta. Isso mostra que a Sanjoanense não era um clube apetecível.
A realidade é que este ano 90 por cento dos jogadores que abordamos mostraram interesse em vir para a Sanjoanense. Isso demonstra que alguma coisa mudou neste trajeto até aqui, não só a nível de jogo como da própria estrutura da secção.
É reflexo do trabalho dos jogadores e técnicos, mas também das pessoas que estão à frente da secção que, sem nunca perderem a cabeça, têm dado, pouco a pouco, sempre um bocadinho mais de condições de trabalho e humanas. Creio que no fim deste ano será muito mais fácil retocar a equipa do que foi há três anos atrás. Acho que essa é a maior evolução que a secção teve.

Fala como se sentisse e vivesse a Sanjoanense, mas está cá há apenas três anos. Como explica isso?
Tenho esse bom defeito. Por onde passo gosto de sentir o clube. Não sou profissional de andebol, não é a modalidade que me paga as contas, mas quando entro num projeto tenho de gostar do desafio, das pessoas e do clube. A realidade é que encontrei tudo isso em S. João da Madeira.
Em três anos já fui vice-campeão nacional pelos veteranos da Sanjoanense e o trajeto nos seniores é conhecido. Hoje em dia passo mais tempo em S. João da Madeira do que em Gaia, que é onde resido. Isso quer dizer que me sinto bem aqui e que as pessoas me recebem bem. Sinto que as pessoas gostam e têm algum apreço por mim.

Olhando aos últimos três anos, como descreveria o seu percurso na Sanjoanense?
Acho que tem sido um percurso de aprendizagem. Para a minha idade já tenho alguns anos de treinador, mas os últimos, até pelas dificuldades que passamos, como no ano passado, foram de maior aprendizagem que tive como técnico. Ganhar é muito fácil e é tudo muito bonito, mas perder e quando as coisas não correm bem obriga-nos a andar para a frente e a caminhar. Foi isso que eu acho que aconteceu nestes últimos anos. Este ano a aprendizagem foi diferente, com um nível competitivo e de exigência completamente distintos. Acho que tanto eu como a equipa temos vindo a crescer, mas ainda tenho muito para aprender. Nestes últimos três anos cresci como treinador e como pessoa.

Podemos contar com o Nuno para um quarto ano à frente da equipa sénior da Sanjoanense?
Ao contrário do ano passado, em que falamos cedo sobre a renovação, este ano foi tudo tão desgastante e absorvente que ainda não foi falado nada sobre o futuro. É natural que nos próximos dias nos sentemos para analisar a situação.
Não adianta o Nuno ou a Sanjoanense quererem. O clube tem de fazer uma análise ao trabalho e não será esta não subida de divisão que irá ditar, com certeza, se fico ou não. São muitos os fatores que têm de ser conversados. Gosto de estar em S. João da Madeira e de praticamente viver aqui, mas também tenho outros projetos profissionais e pessoais. É algo que iremos conversas nos próximos dias.

Mas há interesse da sua parte em dar continuidade ao trabalho dos últimos anos ou acha que chegou a altura de outra pessoa pegar no projeto?
Sou da opinião que um treinador não deve estar muito tempo num clube. Acho que três anos é o limite para um treinador estar num clube, mas isso é facilmente contrariado com muitos exemplos que há por aí.
Tenho essa filosofia que ao fim de três anos se deverá cortar o ciclo e procurar novos caminhos, mas, por outro lado, tenho vontade de continuar pelo trajeto que foi feito e porque estamos muito próximos de lá chegar. Este ano criou-se uma equipa e surgiram as condições para se fazer uma aposta e há algo em mim que gostaria de dar continuidade, mas vamos ter de conversar.

O jogo do próximo fim de semana encerra a época. Acha que depois da derrota a equipa vai encarar a última partida com a mesma motivação que a caracterizou ao longo da temporada?
Uma das coisas que a Sanjoanense tem é o peso do símbolo. Eu sinto isso e noto que os jogadores também, mesmo quem está cá há pouco tempo. No primeiro treino depois do jogo, apesar da tristeza e sentir-se um ambiente carregado, as pessoas apareceram para trabalhar. Isso faz parte do brio dos próprios jogadores. Se esta derrota com o Xico não mancha o nosso trajeto acho que devemos respeitar isso e jogar para ganhar. Devemos isso ao clube e às pessoas que no último fim de semana se deslocaram a Guimarães. Temos de ser sérios até ao fim.

Qual acha que deveria ser a aposta da Sanjoanense para a próxima época?
O mais difícil do trajeto já foi conseguido. Conseguiu-se um grupo homogéneo, coeso e amigo. É uma autêntica família e isso é muito importante. Acredito que cada um deles terá muito gosto em continuar na Sanjoanense porque se sentem bem e porque a secção nunca lhes falhou com nada ao longo da época. Tudo o que foi prometido até hoje foi cumprido e isso é muito importante para quem vem de fora.
Cada vez torna-se mais fácil fazer pequenos ajustes que poderão dar à Sanjoanense uma força que poderá ser decisiva para, no próximo ano, lutar pelos objetivos.

A determinada altura da época o objetivo passou a ser a subida de divisão, que não foi conseguida com a derrota do último fim de semana. Sente que chega ao final da temporada com o sentido de dever cumprido ou o resultado com o Xico compromete todo o trabalho?
Não. Antes do jogo com o Xico disso aos jogadores que queria muito, daqui a uma semana, estar a dar uma entrevista como campeão nacional, mas para dizer que antes do jogo dei os parabéns à minha equipa. Isso é verdade. Antes do jogo felicitei os meus atletas pela época que fizeram. Isso quer dizer que o que eu achava não mudou. Tudo o que fizemos até agora merece a nossa admiração e respeito e eu noto que as pessoas sentem isso. Hoje olham para a Sanjoanense com respeito e acho que isso foi a maior vitória que conseguimos.
O objetivo não foi alcançado na totalidade, mas o que conseguimos deve-nos alegrar e orgulhar.

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