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Entrevista à sanjoanense Rosário Costa, diretora criativa na Lego

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"A criatividade pode vir de cada um"

Rosário Costa
FOTO: Diana Familiar
Rosário Costa
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Entrevista à sanjoanense Rosário Costa, diretora criativa na Lego

Rosário Costa tem 46 anos, é natural de S. João da Madeira e é Senior Creative Director na Lego, na Dinamarca.
Estudou na Escola Secundária Dr. Serafim Leite. Escolheu estudar artes, mas não existia no 12.º ano em S. João da Madeira. Então concluiu artes na Escola Soares dos Reis no Porto. Depois, entrou na Escola Superior de Arte e Design nas Caldas da Rainha. Rosário Costa recebeu uma bolsa de Erasmus e terminou o terceiro ano de bacharelato na escola de design em Copenhaga na Dinamarca. Aceitou o convite para fazer lá o mestrado. Quando acabou o curso, em conjunto com mais dois colegas de curso, abriu um estúdio de design em Copenhaga. Lançaram-se. Tinham de ver quais eram as oportunidades. Até que um deles um dia chegou ao estúdio a dizer que a Lego estava a contratar designers. Rosário Costa estava longe de imaginar que estava a chegar a verdadeira aventura da sua vida.

A Rosário concorreu com os seus colegas ao cargo de designer na Lego. E depois?
Concorremos. Passado umas semanas recebi uma carta com duas caixas de lego em casa com um briefing a dizer que passei à fase seguinte. Tinha de fazer em cinco dias um novo projeto para os legos enviados nas caixas. Depois foi a Billund, uma cidade mais pequenina do que S. João da Madeira (SJM), e onde está situada a empresa mãe da Lego. Também tem lá a primeira Legolândia construída pela empresa. Fui a uma entrevista com Design Managers group e com os recursos humanos. Passado mais ou menos uma semana a Lego disse que tinha passado à terceira fase e se estava interessada.
O processo todo demorou dois meses. O diretor da parte de design e um outro manager vieram a Copenhaga e fizeram uma entrevista. Passado uns dias ligaram a oferecer o emprego. Quando concorri a Lego tinha um atelier em Copenhaga e estava com aquela ideia de que ia ser em Copenhaga. Estava a viver em Copenhaga, tinha um namorado que é hoje meu marido em Copenhaga, nunca pensei que era em Billund. Se mudei de S. João da Madeira para a Dinamarca, a mudança de Copenhaga para a Billund é possível. Aceitei. Um emprego de sonho. Vamos experimentar, não há nada a perder. Ele (namorado na altura e marido atualmente) mudou-se para lá e começamos a construir a nossa vida. Agora passaram 20 anos. Ainda estou na empresa. Pelo menos duas vezes ao ano venho a Portugal.

"É uma cultura de espírito de trabalho única"

Como é o seu dia?
Se olhar para o que fazia há 20 anos e hoje, é diferente. Comecei como designer a construir os temas que vê nas caixinhas. Hoje, como Senior Creative Director, estou à frente de uma equipa com vários grupos de designers que trabalham para diferentes temas como LEGO Friends, LEGO Disney, LEGO Elves e LEGO DC Super Hero Girls. Hoje estou mais ligada à parte de estratégias, novos conceitos e novas ideias. Trabalho das 8h00 às 16h00. Falo com muitas pessoas ao longo do dia. Desde as equipas, management board e produção.
A família também é muito importante. O pequeno-almoço e o jantar tem de ser sempre em família. Frequentemente depois das oito da noite também trabalho em casa.

A criatividade é um dos requisitos dos trabalhadores da Lego...
Não há muito a hierarquia. Do CEO até ao designer, ao trabalhador da produção, a criatividade pode vir de cada um. A maneira como trabalhamos a nível de equipa e como usamos o lego para exprimir as ideias, a criatividade, é uma cultura de espírito de trabalho única. Usámos os legos não só para os brinquedos que temos de fazer, mas também para exprimir os processos que utilizamos na empresa. Temos legos nas nossas salas de reuniões.

"Apenas o melhor é bom e suficiente"

Há quanto tempo existe a Lego?
A Lego existe desde 1935.

Como é que começou?
A empresa começou por fabricar uns brinquedos em madeira.

E depois dos bonecos em madeira?
O fundador da empresa comprou uma máquina de injetar plástico. Ele começou por fazer blocos de plástico. O que provocou isto tudo foi um incêndio que destruiu a empresa que produzia os brinquedos de madeira. Depois dos blocos, vieram os figurinos, as miniaturas, os animais, as rodas para os carros...

O que quer dizer Lego?
Aprender bem. O próprio logotipo da empresa começou com essa filosofia de fazer brinquedos de alta qualidade para as crianças. Temos uma frase que é o mote da empresa: Apenas o melhor é bom e suficiente"

" A ideia fundamental é de blocos de legos fazermos o que quisermos"

Quantas pessoas trabalham na Lego?
A nível global 19.000pessoas.

O Lego não é só para crianças?
Não, é para toda a gente.

A amostra de que tudo é possível é a construção da Câmara Municipal de SJM, da Torre da Oliva e do Estádio da ADS...
Isso mostra o poder de versatilidade dos legos e da Lego. A ideia fundamental da Lego é de blocos de legos fazermos o que quisermos.

"Uma coisa é a escola e aprender o design, outra é estar numa empresa deste perfil"

Qual balanço de 20 anos a trabalhar na Lego?
Trabalhar na Lego e o desenvolvimento que tenho tido a nível profissional, mesmo facto de a empresa ter apostado e acreditado em mim, é fantástico. Tenho muito orgulho. Tenho aprendido muito. Uma coisa é a escola e aprender o design, outra é estar numa empresa deste perfil. Sinto-me privilegiada. Às vezes ainda penso que tenho de ser beliscada para ver que é uma realidade. Posso dizer que é sorte, mas também tem sido o esforço e a dedicação que tenho posto em cada etapa da minha vida.

Há mais portugueses a trabalhar na empresa?
Quando entrei era a única e a primeira portuguesa a trabalhar na empresa. Quando comecei na Lego não havia muitos designers de outros países. Depois a empresa começou a empregar mais designers de todo o mundo. Hoje só na minha equipa somos 15 nacionalidades diferentes. No meu departamento somos mais ou menos 25 nacionalidades diferentes. Agora, felizmente, temos mais portugueses.

"É muito forte ser uma empresa internacional e ter culturas tão diversificadas"

Como é conviver e trabalhar com tantas nacionalidades diferentes?
É fantástico. Claro que há desafios a nível de comunicação, mas há mais prós do que contras. A nível social fora da empresa. Às vezes fazemos jantares em que cada um leva pratos característicos do seu país. E mesmo quando estamos a fazer os "brainstorms" a maneira de pensar e de colocar ideias para a mesa é muito forte ser uma empresa internacional e ter culturas tão diversificadas.

Quais os pratos e bebidas característicos?
Sei que na zona onde estou a viver que há várias cervejas artesanais. A nível de queijos, iogurtes e manteigas caseiras é muito forte. Os lacticínios são muito, muito bons na Dinamarca.
Rugbrød é comida tradicional dinamarquesa, versão dinarmarquesa tapas espanholas.

Quais as tradições?
A Dinamarca é muito conhecida e muito forte pelos festivais de música. O Roskilde festival atrai músicos fortes, famosos e conhecidos, mas também os que se estão a lançar. Há muitos outros festivais da musica na Dinamarca com Jelling festival e Skanderborg Festival.

" A Dinamarca é um país pequenino, mas com muita história"

Quais os locais emblemáticos?
Cidades como Copenhaga, Aårhus e Odense ( H. C. Andersen cidade natal). O Museu dos Navios dos Vikings em Roskild. Cidade Jelling, a capital da Dinamarca nos tempos do Vikings.

Como são os dinamarqueses?
Eles são pessoas que quando uma pessoa faz o clique, como o lego, aprende a conhecer o dinamarquês, a ligação é muito forte. Eles também são muito conhecidos pelo conforto “Huge”. As pessoas não se encontram nos cafés, mas em casa uns dos outros.

O que mais a surpreendeu?
A maneira, o estilo de vida dos dinamarqueses. A maneira como a família é o centro de atenção na Dinamarca. E o facto de o trabalho ser das 8h00 às 16h00 para as pessoas irem buscar os filhos, ir às compras, fazer o jantar. Há respeito.

O que mais custou a adaptar?
Para ser sincera, não me custou muito. Não me custou muito a adaptar ao tempo nem à língua. Estava de mente aberta, curiosa e quando tomo uma decisão gosto de me empenhar e de me esforçar para fazer o melhor. É como se fosse uma esponja. Claro que às vezes tenho a saudades da família.

Do que sente mais falta?
Gosto muito do sol. A comida. Claro que tenho saudades da comida da minha mãe porque a comida minha mãe é a comida da minha mãe. (risos). A sopa. Por exemplo, na Dinamarca não se come sopa. Há um prato. É uma das coisas que sinto saudades e quando chego cá é uma das coisas que tenho de ter comigo. Claro que não é só saudades da comida, mas o estarmos ali sentados, o convívio.

"Neste momento não estou com planos de voltar para cá. É um dia de cada vez"

O que é que o marido e filho acham de S. João da Madeira?
Eles gostam muito de Portugal. Tenho um colega que costuma dizer: o teu marido é mais português do que tu. Tudo isto para dizer que ele se adaptou muito bem. Gosta muito da nossa comida, das pessoas, de estar cá.

Os seus planos passam por voltar a Portugal?
Neste momento não estou com planos de voltar para cá. Estou a fazer a vida lá, tenho lá o emprego, o filho na escola, mas nunca posso dizer nunca. Nunca se sabe. Quando fui para a Dinamarca fazer o mestrado não foi com o objetivo de ficar lá. Foi uma aventura. As coisas foram acontecendo. É um dia de cada vez.

A entrevista terminou de forma diferente com Rosário Costa a tirar seis blocos de legos da sua bolsa e a perguntar quantas combinações são possíveis com seis blocos de Lego?
E logo a seguir respondeu 915 milhões de combinações. Só com estas peças, imagine com muitas mais. É incrível, não é?

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