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Entrevista a Paulo Condessa, comissário da Poesia à Mesa

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“Sente-se o pulsar de uma população que cresce para a poesia”

FOTO: Direitos Reservados
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Entrevista a Paulo Condessa, comissário da Poesia à Mesa

O Paulo foi comissário da Poesia à Mesa pelo segundo ano consecutivo.
Como é levar a poesia às escolas?
Fazer sessões de Poesia Performativa nas escolas é maravilhoso. As crianças estão mais abertas ao novo do que os adultos e, portanto, esta linha menos clássica e mais performativa que temos privilegiado é ótima para despertar a vontade de ouvir e de brincar com palavras. Além disso, como o foco não está só no significado, mas também no som, e como usamos não só a voz, mas também o corpo e o movimento, as crianças sentem-se mais livres para se expressar...e dar vazão à sua energia transbordante. Claro, quando a energia sobe muito nem sempre é fácil conseguir que se acalmem logo de seguida, não é só carregar num botão. Mas faz parte, essa desarrumação das regras da escola dá-lhes alegria, dá-lhes a cheirar o perfume da liberdade, dá-lhes vontade de fazer as suas próprias experiências com a linguagem. E permite-lhes libertar a tensão a que estão sujeitos no dia-a-dia. A escola de hoje parece uma fábrica de procedimentos, dizem professores e alunos. Por todo o país se diz que a escola está obcecada com “têpêcês” e programas e conteúdos que não têm tempo para ser digeridos e consolidados. O sistema está “gabinetizado”. E a poesia performativa deixa-os respirar.

A declamação de poesia em restaurantes e cafés funciona? As pessoas gostam? Param o que estão a fazer e escutam?
Em geral as pessoas gostam bastante, mas o impacto é muito variável, depende dos restaurantes e dos dias... e depende do empenho e da divulgação feita pelos proprietários. Tentamos fazer intervenções breves para que as pessoas não se sintam demasiado interrompidas na sua refeição, sobretudo as que são apanhadas desprevenidas. Aquelas que já sabem ao que vão normalmente pedem mais, nunca se cansam. Incentivam-nos, batem palmas. E quando é preciso pedem aos outros clientes para fazer menos barulho.

Quanto à poesia nas fábricas. Como é o ambiente criado em torno das declamações?
Do ano passado para este ano senti um crescendo de abertura e até de entusiasmo, julgo que em parte devido ao workshop que fizemos para cativar os trabalhadores de outra forma. Convidámo-los a fazer experiências com palavras, num ambiente muito descontraído, para que ousassem, também eles, dizer poemas aos colegas. Nas três fábricas que aderiram o impacto foi notável. Em duas delas foi arrepiante.

As declamações nas empresas são abertas à comunidade. As pessoas externas às empresas apareceram ou nem por isso? O que poderá ser feito para passar ainda mais a mensagem de que é um momento acessível a toda a comunidade?
Ainda não tem expressão relevante, há que continuar a passar a mensagem. Mas penso que deve ser feito de forma gradual, para as fábricas se irem habituando e adaptando e até porventura colherem benefícios dessa nova realidade.

O Paulo participou pela primeira vez na Poesia à Mesa em 2003. Olhando para trás, nota muita diferença?
Sim. A ideia está lá, mas a forma de lhe dar corpo tem diferenças muito substanciais. O amadurecimento é notório.

De toda a programação, qual o momento mais marcante e/ou surpreendente?
É difícil dizer. Há sempre muitos micro momentos de magia, quase impercetíveis, nem sempre extensíveis a todos os envolvidos. De qualquer modo, de todos os episódios marcantes, posso realçar dois que pela sua novidade me apanharam desprevenido e me comoveram. O primeiro ensaio com a CERCI foi uma espécie de bomba atómica interior. Ver e ouvir aquele grupo de pessoas com dificuldades absolutamente elementares a conseguir relativizar essas enormes limitações para poder entrar no jogo da poesia... foi brutal. E mais, para o fazer em público! Que lição, que lição!
A segunda surpresa foi a adesão dos trabalhadores ao workshop, o seu envolvimento e a sua posterior e corajosa decisão de dizer poemas em público. Conquistas pessoais que resultaram num enorme ganho comunitário.

A Peregrinação devido ao mau tempo voltou a ser num sítio coberto. Como correu?
O lugar natural da Peregrinação é a rua, mas quando o tempo não deixa, a câmara municipal, na pessoa da Dra. Suzana Menezes, pensa em alternativas que deem a conhecer edifícios com os quais a população ainda não tenha uma relação forte. Este ano escolheu a Casa da Criatividade e isso trouxe evidentes vantagens aos nossos técnicos: conseguiram uma luz mais encenada, um som espetacular, etc. Depois, o Paulo Pires, pela sua elegância e popularidade fez subir o nível de interesse. Os grupos da cidade, apesar das dificuldades a todos os níveis, por serem amadores, conseguiram superar-se e apresentar performances notáveis, algumas bastante elaboradas. Aliás, em muitos momentos o silêncio da sala era também ele uma espécie de poema que nos unia a todos. A presença de Olinda Beja e Cláudia R. Sampaio, poetas homenageadas que disseram poemas seus, trouxe aquela vitalidade extra, aquela dose de carne e osso que sempre nos entusiasma. Aliás, a Olinda Beja, performer nata, parecia mais uma deusa africana que por ali passava abençoando-nos a todos com o seu leque de energia telúrica. E, claro, o José Fanha, que não sabe, mas é um símbolo nacional; a voz que desenrola o fio condutor das histórias que não vão ao palco porque acontecem atrás do pano.

E o Serão?
Também correu muito bem. A ideia foi manter o modelo informal, mas depurar mais a conversa, criando mais momentos de poesia e música. Os técnicos conseguiram criar um cenário limpo, mas expressivo e acolhedor e nós conseguimos um bom nível de fluidez e cumplicidade. Um tipo de comunhão que se alastrou aos presentes na sala.
E no fim o público estava visivelmente satisfeito. O Alexandre de Sousa teve uma prestação e uma presença entusiasmante e a dupla de cordas, Luís Guerreiro e Luís Pontes, foi simplesmente hipnotizante. Estava tudo rendido ao momento. E os poemas que foram ditos lado a lado com a música pareciam segurar a sala cinco centímetros acima do chão. E depois, claro, aqui e ali, uns salpicos de humor, mais ingénuo ou mais afiado, a pontuar a boa disposição. Foi um final bem florido.

Qual o balanço desta edição?
Muito positivo. O amadurecimento está a ir no bom sentido, a cidade cada vez mais nos abre os braços, cada vez se envolve mais. Os meios de comunicação social aumentaram bastante a cobertura do evento. Os participantes entregam-se de corpo e alma. Sente-se o pulsar de uma população que cresce para a poesia. Há muito por fazer, claro, muitos habitantes por alcançar. Mas o caminho está cada vez mais nítido.
Do lado menos positivo há o enorme cansaço que este tipo de empreendimentos provoca no conjunto de pessoas que consegue mantê-lo de pé. Portugal tem um orçamento para a Cultura que todos sabemos ser muito baixo e parece ser um mal nacional ter que criar grandes eventos com poucos recursos. A população também tem aqui um papel fundamental, não no sentido de se queixar, hábito tão português, mas de mostrar o que quer. E eu pergunto-me se as pessoas deste país estão prontas para dizer aos seus dirigentes que não estão só interessadas em bandas e concertos pop.

O Paulo voltará a ser comissário na Campanha da Poesia à Mesa em 2018?
Não sou eu quem escolhe os comissários, é a organização do evento. O que posso dizer é que estou disponível e não podia ser de outra forma pois é um projeto que dá corpo a tudo aquilo em que acredito. Há sempre detalhes a melhorar, acertos que podem ser feitos, mas, no geral, é este tipo de intervenção que defendo. Acredito que trabalhar para a comunidade é envolver a comunidade. Acredito na aproximação das pessoas. Acredito na convivência entre as elites e o povo, a arte erudita e a arte popular, a arte de palco e a arte de rua. Acredito que para apreciar a poesia exterior a pessoa deve cultivar a sua poesia interior. Acredito que para isso tudo há um caminho pedagógico a construir. Para que as pessoas possam caminhar pelo seu próprio pé. Nesse aspeto a Poesia à Mesa e a câmara de S João da Madeira têm sido um exemplo para o país. Ainda mais porque mudar hábitos e cultivar sensibilidades não se consegue de um dia para o outro e a sua longevidade, 15 edições, faz deste evento uma sólida referência e uma natural fonte de inspiração para os autarcas do nosso país.

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