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Entrevista ao designer de moda Miguel Vieira

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“Portugal não é um país com tradição de moda”

FOTO: Rui Guilherme
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Entrevista ao designer de moda Miguel Vieira

Miguel Vieira
O designer de moda nasceu a 20 de abril, não interessa o ano, em S. João da Madeira.
“Basicamente fiz a minha primeira classe naquele espaço onde fotografamos hoje que era a escola da Quintã. Acho que fui na terceira classe para a Escola do Parque. E depois, seguidamente, ciclo e o secundário na Escola Dr. Serafim Leite. A seguir fui para a Carolina Michaelis para o Porto e depois fiz um curso de Controlo de Qualidade no Instituto Superior de Engenharia do Porto”, contou Miguel Vieira ao labor.
A sua inspiração tem sido as pessoas, os restaurantes, os hotéis, basicamente tudo que o rodeia. Quanto a referências no mundo da moda, pela maneira de estar na vida pessoal e profissional, destacou Tom Ford.

O Miguel começou a trabalhar em 1986 como designer de moda. Onde?
Quando terminei o curso de Controlo de Qualidade havia várias áreas e havia uma área específica que era o textil. Entretanto segui essa área do textil e desde sempre tive bastante, algum jeito, para o desenho. Não especificamente moda, mas basicamente para Banda Desenhada, carros, prédios, edifícios e etc. E ganhei muito gosto com o controlo de qualidade textil. Associei uma coisa com a outra. Posteriormente, houve uma empresa nesta zona de S. João da Madeira que me convidou para ir trabalhar com eles. Estive um ano e qualquer coisa a trabalhar com eles e depois seguidamente lancei a minha marca.

Quando lançou a marca Miguel Vieira?
Lancei em 1988. Para o ano fará 30 anos.

A quem vendeu a sua primeira criação de moda?
Não me recordo. Recordo-me de ter exposto uma peça, um coordenado de mulher, na FIL Moda em Lisboa.

Quando abriu o atelier onde estamos a conversar?
O atelier não sei. Sei que inicialmente comecei a trabalhar em casa dos meus pais. Seguidamente, arranjei um espaço ali mesmo ao lado da casa dos meus pais na Quintã também. Posteriormente é que comprei este espaço aqui. Estou aqui sensivelmente há uns 18 anos.

O Miguel tem mais algum atelier?
Não. Só este aqui.

“O meu dia a dia é um stress”

Como é o dia a dia do Miguel Vieira?
O meu dia a dia é um stress (risos). O meu dia a dia em Portugal começa geralmente às sete e meia da manhã. É um dia a dia no qual gosto de usufruir do meu pequeno-almoço, de refletir e parar um bocadinho só. Só não, porque tenho quatro gatos que andam sempre ali à minha volta. Três gatas e um gato. Depois venho diretamente para a minha empresa, o atelier, e tenho sempre uma quantidade enorme de coisas para fazer. Ou porque tenho jornalistas que vêm de fora, ou porque tenho noivas ou noivos para atender, ou ene reuniões marcadas, ou tenho de escolher tecidos, peles para sapatos, sei lá. Tenho uma quantidade de reuniões. Todos os dias é uma coisa diferente. Nesta área específica, todos os dias é uma coisa diferente. Tenho de tratar de manequins, tenho de conversar com fotógrafos, uma quantidade de coisas que leva a que o meu dia a dia nunca seja um igual ao outro.

A que horas termina o seu dia?
O terminar é que é mais complicado. Pode terminar às dez da noite, nunca muito antes dessa hora. Eu, pessoalmente, sou uma pessoa que não gosta muito de trabalhar à noite porque sou uma pessoa que gosta de levantar-se relativamente cedo, mas mesmo quando chego a casa ainda vou fazer mais algumas coisas porque é onde estou mais sossegado.

“É impossível a pessoa desligar-se (do trabalho)”

É difícil desligar-se do trabalho?
Na minha área é completamente difícil. É impossível a pessoa desligar-se (do trabalho) ao fim de semana, de férias, o que quer que seja. É muito complicado desligar-se. Tenho de estar sempre a observar, a prestar atenção, a captar imagens. Tenho de perceber como é que as pessoas se vestem, se comportam, etc. Portanto, é impossível a pessoa desligar-se (do trabalho).

Há pouco disse que desde sempre teve jeito para o desenho. Então desde sempre desenhou?
Sim, desde sempre desenhei.

Tinha o hábito de andar sempre com um bloco e um lápis à mão?
Olhe, lápis...Por acaso a minha família é da Viarco, Vieira Viarco, e o lápis é uma coisa que me acompanhou a vida inteira (risos). Quando era miúdo tinha uma sorte gigante. Enquanto amigos meus tinham aqueles blocos de seis ou 12 lápis, eu tinha uma coisa a sério com muitas cores. Portanto, lápis foi uma coisa que sempre me acompanhou durante a minha vida. E sempre desenhei durante a minha vida.

“Se há uma coisa que gosto muito e me dá paz, sobretudo, é observar o mar”

O Miguel vive em S. João da Madeira?
Não. Não vivo em S. João da Madeira por opção. Se há uma coisa que gosto muito e me dá paz, sobretudo, é observar o mar. É algo que me tranquiliza e é para mim muito importante. Tenho muita necessidade de receber o ar do mar. Felizmente vivo em frente ao mar.

Por curiosidade, onde?
Entre Espinho e Miramar.

Pensa voltar a viver em S. João da Madeira?
No fundo vivo cá. Tento sempre estar com a minha mãe, poder almoçar com eles (família) que é um ritual, do qual gosto imenso. Acho que dá uma certa qualidade de vida também.

“(A família é) muito importante. Demasiadamente importante”

A família é importante?
Muito importante. Demasiadamente importante.

A sua vida passará sempre pela terra que o viu crescer?
Sim.

A primeira “feira” em que esteve presente foi na ExpoFashion Filmoda Fair em 1991 em Portugal. Lembra-se desse momento?
Lembro-me perfeitamente e a história até é um bocadinho caricata. Na altura tinha um carro muito pequenino que era um autobianchi. Lembro-me de ir para a Feira com a minha irmã, que é sócia da empresa, e dentro daquele cubículo de carro tinha de decorar um stand com 16 metros quadrados. Ou seja, teve que haver uma parte criativa na própria decoração. Na altura tinha conseguido encontrar uns sofás, que eram uns sofás transparentes insufláveis, e que eram maravilhosos porque ocupavam muito pouco espaço no carro. Chegava lá montava um sofá pequeno mais estes dois e aquilo enchia. E lembro-me perfeitamente de irmos entre S. João da Madeira e Lisboa e o carro ir tão, tão cheio com a coleção, com as cadeiras e com aquela coisa toda e quando ia fechar a mala, a mala com a roupa não cabia (risos). Lá improvisei um processo para conseguir levar roupa. Mas o que lembro mesmo foi de fazer 300 quilómetros, entre S. João da Madeira e Lisboa, e levar uma barra de ferro na minha cara a todo cumprimento que eram os charriots onde iria pousar as peças.

A marca Miguel Vieira apresenta coleção de roupa e de sapatos para homem e mulher. Como descreveria a linha de roupa de cada um dos sexos?
Acho que ambas são coleções minimalistas, peças onde a matéria prima é sempre muito importante e sobretudo é uma coleção onde um dos pontos fundamentais é o tecido. É uma coleção minimalista, contemporânea, no fundo, com bastantes cortes, mas que não são propriamente visíveis, e luxuosa em termos de matérias primas.

“A minha coleção tem geralmente várias cores, mas ao longo dos anos fiquei sempre conhecido pelo preto e pelo branco”

E em termos de cores?
A minha coleção tem geralmente várias cores, mas ao longo dos anos fiquei sempre conhecido pelo preto e pelo branco. Em qualquer parte do mundo em que me desloque falam sempre que me associam ao preto e ao branco. Portanto, quando apresento as coleções no desfile vou sempre picar muito de preto e de branco. No entanto, a coleção é constituída por várias cores. A imagem que transmito sempre para o exterior, nomeadamente nos desfiles, é sempre um bocadinho preto e branco e que é bastante importante para mim como imagem de marca.

Como descreveria os sapatos Miguel Vieira?
Eles são sapatos que têm design, qualidade, dois segmentos que conseguimos atingir – um segmento mais clássico e um segmento mais Fashion -, mas sobretudo são sapatos que têm uma forma muito bem conseguida que é fundamental para nós. Os saltos para mulher também são concebidos por nós e têm um papel fundamental na coleção.
A coleção é uma coleção que é toda personalizada, minimalista também, muitas vezes, e que identificam rapidamente que é Miguel Vieira.

Enquanto designer de moda, é “mais fácil” criar roupa, sapatos e acessórios para homem ou mulher?
Pois...já respondi muitas vezes a essas perguntas. O homem torna-se um bocadinho mais conservador e independentemente de estarmos no século XXI e as pessoas serem mais “open mind”, etc., o homem mesmo assim torna-se um bocadinho mais conservador. Portanto, muitas das vezes torna-se um bocadinho mais complicado tratar da parte de homem porque o homem não suporta certas situações. Como tal, torna-se mais complicado a parte de homem. No entanto, ambos dão muito trabalho.

“Gostava muito de imprimir nas crianças que estão habituadas ao azul bebé, ao amarelo e ao cor-de-rosa, a cor preta e a cor branca”

A marca Miguel Vieira também chegou ao público júnior. O que o levou a criar roupa para as crianças?
Isso era um projeto que queria fazer há imenso tempo e havia muitas pessoas a pedirem-me a roupa de criança. Daí nasceu há sensivelmente cinco/seis anos a linha Miguel Vieira Júnior que neste momento é uma linha que está a funcionar muitíssimo bem. É uma linha que está a ser muito bem distribuída, nomeadamente nos Estados Unidos, Londres, Itália, cá em Portugal também. A última coleção que lançámos teve bastante sucesso e é algo que queria muito. Gostava muito de passar o que temos em adulto para dimensões mais pequenas. Gostava muito de imprimir nas crianças que estão habituadas ao azul bebé, ao amarelo e ao cor-de-rosa, a cor preta e a cor branca. Acho que é uma coleção que faz a diferença, é uma coleção muito apetecível hoje em dia pelos juniores.
Por acaso, a coleção júnior teve um “boom” muito grande na altura em que o filho de uma das Kardashian usou uma “sweatshirt” Miguel Vieira. Quando o menino fez aniversário, foi ele próprio que escolheu a roupa que queria, não foi a mãe, não foram as tias, que disseram o que é que ele ia vestir. Hoje em dia os miúdos têm uma postura muito diferente do que antigamente os pais impunham. Eles criam os seus próprios estilos.

A sua primeira coleção de malas e acessórios foi criada em 1996 e a de óculos em 1999. Continua com estas coleções?
Sim. O meu objetivo durante a minha carreira foi que quando qualquer pessoa veja as minhas coleções num desfile que a coleção seja dos pés à cabeça Miguel Vieira. E isso é o objetivo de qualquer marca internacional. Só faz sentido cada marca ter os seus próprios produtos. E daí que demorei um “xis” tempo a poder apresentar as minhas coleções em passerelle. Só depois de ter os produtos quase todos Miguel Vieira e personalizados é que foi possível entrar nos grandes desfiles.

O que distingue a marca Miguel Vieira?
Sobretudo, acho que conseguimos criar aqui alguns detalhes na coleção. Fala-se de preto e branco, duas cores, fala-se no Miguel Vieira. Mostra-se um logotipo que é umas asas, as pessoas sabem que é Miguel Vieira. Em termos de design, fala-se em glamour, uma bebida alcoólica que é uma champagne, um segmento alto, fala-se em Miguel Vieira.
Acho que foi este conjunto todo que foi muito difícil construir – é muito difícil atribuir uma cor e um logotipo a uma marca – ao longo dos tempos.

Como foi recebida a coleção casa Miguel Vieira?
A coleção Miguel Vieira casa é uma coleção diferente das coleções habituais de roupa. Enquanto numa coleção de roupa de seis em seis meses tem de surgir uma nova coleção, da parte de mobiliário surge uma peça de ano a ano.
A coleção de mobiliário destina-se única e exclusivamente a arquitetos, decoração de interiores e etc., em que eles têm um “book” com as peças todas e quando estão a montar os projetos das casas e dos hotéis, e etc., têm lá as marcas e vão buscar o que os clientes querem. Sobretudo são peças um bocado intemporais que é para terem sempre uma longevidade grande. É uma coleção em que cada uma das peças pode ser alterada pelo cliente. Pode escolher uma madeira diferente, pinturas, lacados.

“Acho que a pessoa tem de ter a sua liberdade, o seu próprio estilo e saber fazer a mistura de coisas”

As pessoas, homens e mulheres, podem andar hoje em dia literalmente vestidas da cabeça aos pés com Miguel Vieira. Algum dia imaginou isto ser possível?
Não. De todo. Mas também não quero que as pessoas andem vestidas da cabeça aos pés com Miguel Vieira (risos). A única coisa que faço é que num desfile isso tem obrigatoriamente de acontecer. Agora acho que a pessoa tem de ter a sua liberdade, o seu próprio estilo e saber fazer a mistura de coisas.

O Miguel está presente em feiras espanholas, italianas e francesas. Qual a reação deste público estrangeiro às suas coleções?
Tem sido boa. Tudo isto é um processo muito moroso. Um processo muito difícil. Quando escolhi esta profissão tinha várias portas, várias áreas por onde podia começar a trabalhar, e apareceu uma porta que era a moda. Quando abri essa porta, apareceu uma escadaria que é uma coisa que nunca mais acaba. Lentamente tenho subido alguns degraus. Ainda me falta muito, muito para chegar ao topo da escadaria. Se calhar nem a meio ainda vou. Mas esta profissão é muito, muito, muito desgastante. É uma profissão em que se demora muito a subir degraus. Demasiadamente. Porque não estamos cotados em bolsa, não temos grupos nem multinacionais por trás, e estamos no fundo a concorrer com grandes marcas que têm um poder financeiro que é uma coisa de biliões. E marcas que estão associadas a grandes grupos financeiros. E nas “Fashion Week´s” que faço, nomeadamente em Nova York e atualmente Milão, estou ao lado dessas pessoas. Estamos a falar de grandes grupos que têm um “budget” gigante para fazer a decoração da passerelle. Por exemplo, a “Chanel” este ano colocou um foguetão no meio do desfile. Quer dizer, estamos a falar de outros campeonatos. Mas que no fundo temos de fazer, desculpe a expressão, “omeletes sem ovos” e tentar dar boa imagem aquilo que vamos fazer.

As criações Miguel Vieira são presença assídua na Moda Lisboa e no Portugal Fashion. Como é regressar a estes eventos onde deu os primeiros passos no mundo da moda?
É ótimo. Primeiro, porque tenho um público muito grande cá em Portugal obviamente. E tenho um público que nos segue nos desfiles que nós fazemos. É um enorme gosto e prazer. É lá que tenho os jornalistas que são meus amigos, é lá que tenho os meus compradores portugueses, os meus amigos.

As suas criações também desfilaram em Paris, Barcelona, Istambul, São Paulo, Polónia, Sérvia, Montevideo (Uruguai), Moçambique e mais recentemente em Milão e em Nova York. Como tem sido percorrer o mundo para dar a conhecer as suas criações?
Acho que sobretudo é colocar pequenas bandeiras no mundo. E muitas vezes ao fazer um desfile no Uruguai, na Sérvia e em outros países não se percebe de imediato a compra dos produtos da marca, mas que posteriormente estamos a apresentar a coleção num stand qualquer e vai lá alguém do Uruguai porque viu no jornal, televisão, nas revistas, etc., a marca e adquire os produtos anos depois quando passam numa feira.

“Estive à espera muitos anos para podermos entrar na “Fashion Week” de homem (em Milão)”

O Miguel foi o primeiro português a apresentar uma coleção no Uruguai, em Nova York e em Milão. Como se sente?
Como é que hei de explicar...é tipo...é a loucura. Algo muito importante para nós. Agora fazemos “Fashion Week” de homem em Milão e “Fashion Week” mulher em Nova York. Estive à espera muitos anos para podermos entrar na “Fashion Week” de homem, por exemplo. Para se poder entrar nessa “Fashion Week”, existe uma câmara de moda italiana. Nessa câmara de moda italiana estão sentados os donos de Prada, Armani, Gucci, Valentino, essas pessoas todas. Eles aí vão decidir se sim ou se não, se entra ou não entra. Isto foi um processo muito moroso, de muito tempo de espera. E sempre a acreditar que um dia vai ser possível. Obviamente que quando chega ao dia...
Antes já é uma confusão gigante. Porque a pessoa está sempre com medo do que vai ser, do que não vai ser, de como vai correr, de como não vai correr. A expetativa é muito alta e estamos à espera há imenso tempo. No entanto, até hoje tem corrido bem.

Qual a melhor e a pior experiência neste mundo da moda?
Acho que tenho tido muito boas experiências.

O Miguel foi apontado como alto comissário para os novos designers em 2006. Foi uma responsabilidade muito grande?
Sim.

Quais as caraterísticas que saltam à vista nas criações destes novos designer, deste “novo sangue”?
Para mim tudo que seja novo designer, novo cabeleireiro, novo maquiador, novo jornalista, novo fotógrafo, novo tudo é sempre muito importante. Gostava um dia de deixar um legado no país que me viu nascer e de perceber que as coisas tinham evoluído, que as coisas evoluíram. A diferença atualmente é muito grande em relação a quando comecei. Hoje em dia existem pessoas muito profissionalizadas em várias áreas. Quanto mais pessoas tivermos deste género, melhor para o país. Portugal não é propiamente um país com tradição de moda. Nós precisamos muito destas pessoas aqui (especializadas) para nos erguermos como país de moda. Daí que estou sempre pronto no pouco tempo que me sobra para poder apoiar novos designers, novos tudo. Para mim é muito importante. Tento ser o mais simpático possível com as pessoas porque fico muito feliz em perceber que há uma nova geração e em passar o pouco que aprendi na minha vida a novas gerações.

O Miguel recebeu a o título honorário da ordem do Infante D. Henrique em 2006 e o prémio Infante D. Henrique na categoria de inovação em 2009. No ano de 2006, foi distinguido com a Medalha de Mérito Municipal em Ouro pela Câmara Municipal de S. João da Madeira. O Miguel recebeu o Globo de Ouro de Personalidade do Ano na categoria de Moda em 2007 e em 2012. Qual a sensação de ter recebido todas estas distinções?
Para mim, todas elas foram importantes. Obviamente que receber a comenda da Ordem do Infante D. Henrique – há dois tipos de comendadores: o comendador industrial e o comendador da Ordem do Infante D. Henrique – é algo muito, muito importante. Foi algo que no dia em que batia naquela porta, para aquela profissão, que nunca imaginava. Também foi muito importante receber os Globos de Ouro. Não quero fazer uma coleção de Globos de Ouro, mas foram partes muito importantes. A medalha da minha cidade também foi muito importante. A minha cidade que me viu nascer, que sou muito acarinhado por ela, que nunca em qualquer entrevista que dou, quando me perguntam de onde sou, ocultei a minha cidade. Nunca deixei de falar de S. João da Madeira. Para mim, é a melhor cidade do país e do mundo. E a cidade de que tenho sempre muita saudade. Portanto, todos esses prémios foram importantes não só para mim, e para a minha irmã que é sócia da empresa, mas sobretudo para toda a minha equipa que trabalha cá e para todas as fábricas que estão ligadas a nós. Acho que todos eles mereceram esses prémios. E para mim foi muito gratificante receber esse prémio em nome dessas pessoas todas.

O Miguel foi apontado como embaixador da “Shoe Parade” em 2016. Aceitou o desafio?
Sim.

Em que consistiu?
Era uma ação local em S. João da Madeira, na qual fiz uma bota ou um botim em gesso que foi distribuído por inúmeras escolas da cidade e cada criança ia criando e desenhando o seu próprio sapato. Acho que foi completamente emocionante. Muito bonito. Sobretudo, gostei de ver a criatividade de miúdos de três, quatro anos e por aí em diante.

“Sempre que possível estou, tento estar o mais disponível possível para as pessoas”

O Miguel Vieira é uma pessoa disponível a ajudar o próximo?
Quase sempre. Sempre que possível. Obviamente que temos diariamente convites para mil e uma coisas. E obviamente que não é possível em termos de agenda, e agenda física, estar em todos os sítios. Sou sensível às pessoas, aos projetos e a todas as causas, mas muitas vezes não é possível. Muitas vezes as pessoas pensam que estou na secretária a desenhar, que desenho à hora que me apetece, mas o Miguel Vieira pessoa tem vida. E o tempo não estica.
Mas sempre que possível estou, tento estar o mais disponível possível para as pessoas. Era isso que um dia gostava que as pessoas recordassem que fui uma pessoa disponível para as pessoas.

Quais as tendências da sua coleção para Outono/Inverno 2017/2018?
A próxima coleção tem sobretudo três técnicas muito simpáticas. As técnicas são o aglutinado, o amachucado e os plissados. Elas são técnicas inovadoras que fomos criando até resultar a coleção de Outono/Inverno 2017/2018.

E Primavera/Verão 2017/2018?
Essa é que não posso revelar.

“Sou uma pessoa que não cruza os braços, super híper mega trabalhadora, e dedico todas as minhas forças à minha área”

É um dos designers de moda mais conceituados em Portugal e, arrisco dizer, no mundo. Ao voltar atrás no tempo, precisamente ao momento em que estava a dar os primeiros passos no mundo da moda, imaginava conseguir todas estas conquistas?
Não, não imaginava. Mas essas conquistas são possíveis devido a estar associado à minha irmã e ter a minha equipa de designers, nomeadamente o Armando, a Isa, o Pedro que são pessoas que me suportam muito. Isto não se foi construindo por somente “eu”, existe uma equipa por trás, nomeadamente criativos também que ajudam isto tudo a ser possível.

Qual o balanço de quase 30 anos de carreira?
Acho que sou uma criança com 30 anos. No entanto, o balanço é positivo. É um balanço que, como digo, podia ir um bocadinho mais longe se tivesse uma multinacional por trás, tivesse cotado na bolsa, etc., mas tenho sempre a esperança de que um dia isso vá acontecer. O balanço é superpositivo daquela porta que escolhi (a moda). Eu também sou uma pessoa que não cruza os braços, super híper mega trabalhadora, e dedico todas as minhas forças à minha área.

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