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“A poesia sempre foi a grande arte dos portugueses”

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José Fanha tem 66 anos, nasceu em Lisboa e é licenciado em arquitetura. Enquanto frequentava o curso de arquitetura, começou a fazer teatro e da declamação “uma forma de resistência à ditadura”, confidenciou ao labor.
José Fanha é professor, poeta e declamador. É autor de histórias e poesia para a infância, dramaturgo e dramaturgista, autor de letras para canções e textos para rádio, guionista de televisão e cinema. Tem orientado oficinas de Poesia e de Escrita e promovido intensamente a poesia e promoção do livro e da leitura em bibliotecas e escolas um pouco por todo o país.
José Fanha está ligado desde o início à Poesia à Mesa e é certamente uma das figuras incontornáveis desta campanha em S. João da Madeira.

Quem é José Fanha?
Acho que não sou mau tipo. Dizem que tenho uma gargalhada inconfundível. Sou teimoso. Ou resiliente, o que não é exatamente mesma coisa. Passo o tempo a inventar palavras, ideias, desenhos, coisas…
 
Quanto tempo dedicou à arquitetura?
Três anos como estudante/arquiteto estagiário e três anos como arquiteto.
 
Como entrou o gosto pela leitura e pela escrita em si?
Desde muito pequeno por influência de uma avó que me ensinou o extraordinário prazer de ler e escrever.

O que recorda da sua avó?
Um sorriso bondoso e uma mão branca, de veias azuis, a passar com ternura pelas páginas dos livros e pela minha cabeça.

“Comecei a fazer teatro e a fazer da declamação uma forma de resistência à ditadura”
 
Como passou da arquitetura à literatura infantil e à poesia?
Ao mesmo tempo que fiz o curso de arquitetura comecei a fazer teatro e a fazer da declamação uma forma de resistência à ditadura. Depois da arquitetura veio a escrita para rádio e teatro. Depois deixei a arquitetura e passei ao ensino de História de Arte e Geometria Descritiva. Acumulei com a escrita para teatro, rádio, televisão e cinema. Além da poesia, claro.
O facto de ter tido um filho com asma levou-me a contar-lhe todas as noites uma história para adormecer. Acabei por me “viciar”. E quando vieram mais duas filhas a escrita para meninos tornou-se, com a poesia, a principal atividade criativa.

Como é escrever para um público “de palmo e meio”?
É conseguir encontrar dentro de si um espaço literário de “palmo e meio”.

Já teve algum momento inesperado durante a leitura de um livro a crianças? Digo isto porque eles são tão genuínos, transparentes, sem filtros...
Já tive alguns momentos muito inesperados. Mas não estou particularmente convencido do caráter genuíno e transparente sem filtros, das crianças. Só algumas e nalguns casos.

“Passei a integrar aquele grupo notável de cantores como o Zeca, o Adriano Correia de Oliveira e outros”

O José declamou poesia pela primeira vez em 1969...
Já tinha declamado em Associações de Estudantes da Universidade de Lisboa. Fui assistir a um espetáculo do Zeca Afonso e de outros numa maravilhosa noite de junho ao ar livre. A partir daí passei a integrar frequentemente aquele grupo notável de cantores como o Zeca, o Adriano Correia de Oliveira e outros.

Quanto ao José e a este grupo notável. Sobre o que é que falavam, o que é que faziam, o que planeavam?
Juntávamo-nos para partilhar comida, bebida e canções. Discutíamos política internacional (o Brasil, o Vietname, Cuba). Discutíamos cinema, teatro. Trocávamos poemas e livros. Falávamos de Brecht, Maiakovski, Lorca, Neruda. E dos poetas portugueses que eram na sua grande maioria opositores da ditadura.

Onde era o vosso ponto de encontro?
Os encontros eram nas Associações de Estudantes das Universidades, em particular do Técnico, Medicina, Ciências, Letras.
A gente das Belas Artes andava muito pelo Chiado (na Leitaria “Garrett”, por exemplo, ou na “Brasileira”). Todos nós íamos muito ao cinema.

“O resto do dia passei-o na rua a andar atrás da revolução”

Onde estava no 25 de Abril?
Em Lisboa. A minha mãe acordou-me às sete da manhã a dizer que havia uma revolução. O resto do dia passei-o na rua a andar atrás da revolução.

Continuou a declamar poesia desde então?
Nunca mais parei.
 
Como era o nosso país antes do 25 de abril?
Um horror. Uma tristeza. Uma miséria. Uma vergonha.

“Raríssimos foram os (muitos) poetas que não derramaram nas suas palavras um grito de revolta mais ou menos intenso”

Qual o papel da poesia nessa época em que falar, escrever, cantar, dançar, qualquer forma de expressar uma ideia contrária ao regime era censurada?
A poesia sempre foi a grande arte dos portugueses. E durante a ditadura raríssimos foram os (muitos) poetas que não derramaram nas suas palavras um grito de revolta mais ou menos intenso.

Com quem é que teve a ousadia de expressar a sua liberdade através da arte na época da ditadura?
Nunca houve ousadia. Houve necessidade. E essa necessidade era mais forte que tudo.

Qual a história do seu poema “Eu sou português aqui”?
Em 1971 estive pela primeira vez no estrangeiro, um mês na Holanda. Senti muito fortemente o desprezo e repugnância com que os jovens estrangeiros olhavam para o nosso país. Cheguei a ter vergonha de me dizer português.
Com o 25 de Abril recuperei o orgulho de pertencer a um país que conseguira reinventar-se em liberdade, sem tiros, sem mortos, com flores nas espingardas.
Nesses tempos senti uma grande vontade de dizer que tinha muito orgulho de ser português aqui.

“Uma surpresa perceber que a poesia podia ser uma tão notável festa coletiva”
 
O José é uma figura incontornável da Campanha da Poesia à Mesa. O que recorda da primeira edição, precisamente há 15 anos?
Foi uma surpresa perceber que a poesia podia ser uma tão notável festa coletiva e que o poder tinha a capacidade para um risco aparentemente tão grande no campo cultural.

Quais as principais mudanças neste projeto até agora?
A grande novidade, e devemo-lo em grande parte ao notável Paulo Condessa, é a entrada da poesia nas empresas e nas fábricas. Pode descobrir-se, porventura, que o trabalho rende mais de braço dado com a poesia.
 
Qual a relação resultante entre o declamador e os ouvintes?
É uma entrega do declamador aos ouvintes e uma partilha de emoções por vezes muito fortes.
 
O que espera desta 15.ª edição da Poesia à Mesa?
O crescimento do extraordinário envolvimento da população no desfrute e divulgação da poesia, nomeadamente nas fábricas onde a leitura de poesia começou a alargar-se. A consolidação do extraordinário trabalho da câmara municipal e o seu reconhecimento em termos regionais e nacionais.
 
Quais os momentos de destaque desta edição?
Gostaria de destacar a declamação nas fábricas e empresas. Trata-se de algo verdadeiramente novo e, diria, quase revolucionário.
Depois a noite com um grande poeta e amigo que é o Joaquim Pessoa. Naturalmente os dois momentos altos são a Peregrinação Poética e o Serão de encerramento.

“Somos amigos, vivemos ambos tempos históricos únicos e marcámos esses tempos com a nossa poesia”
 
O que podemos esperar do momento “Poetizando com José Fanha e Joaquim Pessoa”?
Somos amigos, vivemos ambos tempos históricos únicos e marcámos esses tempos com a nossa poesia. Vamos falar disso e trazer para a mesa o que estamos a fazer e, portanto, o que se vai seguir na nossa poesia.

Há algum projeto semelhante no país? Ou no estrangeiro?
Não conheço nenhum parecido em Portugal. No estrangeiro não sei.

Portugal é um país de poetas. Que tipo de poeta é?
Um teimoso, inquieto que anda sempre à procura de novos desafios.
 
Que tipos de poetas temos?
Os poetas que escrevem e pronto já está. E os que trazem as palavras para a voz e fazem da poesia uma partilha pública. É esse o tipo de poetas em que me inscrevo.
 
Qual o poema, da sua autoria, que gostaria de deixar aos leitores?
O último que escrevi. E se chegar a tempo o próximo.

“AMIGOS
Adoçam-te as cicatrizes
com gestos de bondade incalculada.

Oferecem-te a casa e a palavra.
Semeiam rosas nos teus passos.

Entregam-te o fogo dos seus olhos
e levam-te a colher as pétalas da manhã.

Quando os olhas são pássaros de pedra
a voar em torno do coração

Talvez nunca os tenhas conhecido até hoje
e, no entanto, serão sempre os teus mais fiéis irmãos.”

“Se Deus existe mora na Ilha do Fogo, onde gostava de viver no final da minha vida”

Soube que gosta muito de viajar. Qual o destino que visitou e mais o marcou?
Há dois sítios, Amsterdão e, sobretudo, Cabo Verde, onde vivi, ao todo, uns três anos. Gosto de dizer que se Deus existe mora na Ilha do Fogo, onde gostava de viver no final da minha vida.

Porquê a Ilha do Fogo?
Escrevi o guião para um filme cabo-verdiano, a adaptação do romance “Ilhéu de Contenda” de Teixeira de Sousa, passado na Ilha do Fogo. Estive lá por três vezes e fiquei absolutamente apaixonado.
 
Para quem já viu outros países, como vê, depois de cada viagem, o nosso Portugal?
Como um dos locais mais extraordinários para se viver no mundo atual.
 
Qual a experiência profissional que o mais conquistou?
Eu sou professor. Sempre serei. Mesmo quando faço outras coisas. Estou sempre a partilhar conhecimentos e aprendizagens.

O José foi e tem sido tudo o que sonhou ser?
Nem pensar. Há tanta coisa para fazer e aprender e experimentar. A vida não vai chegar.

Qual a próxima coisa a fazer/experimentar?
Primeiro, devo ir Cabo Verde para assistir a parte das filmagens que começam brevemente de “Os dois irmãos” filme de que que fiz o guião a partir do romance do escritor Germano de Almeida.
Depois, sei lá, apetece-me muito escrever teatro, cinema e televisão. Tenho saudades da televisão. Mas simultaneamente estou muito empenhado no trabalho sobre a divulgação do livro e da leitura no espaço da lusofonia.

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