a informação essencial
Pub
Partilha

Ana Rodrigues iniciou-se na natação por recomendação médica, mas a paixão pela modalidade acabaria por fazer da jovem uma referência nacional neste desporto.
A frequentar o curso de Psicologia, a jovem conseguiu encontrar um ponto de equilíbrio entre estas duas paixões

Tags

“Acho que tudo é uma aprendizagem e tudo serve para crescermos”

FOTO: Direitos Reservados
Partilha

Ana Rodrigues iniciou-se na natação por recomendação médica, mas a paixão pela modalidade acabaria por fazer da jovem uma referência nacional neste desporto.
A frequentar o curso de Psicologia, a jovem conseguiu encontrar um ponto de equilíbrio entre estas duas paixões

Ana Rodrigues é hoje um nome que está, por mérito próprio, associado à natação nacional. São vários os títulos, medalhas e recordes alcançados pela nadadora que deu as primeiras braçadas por volta dos dois anos de idade por indicação médica, com o intuito de atenuar as constipações frequentes. “Estava muitas vezes doente e constipada e o médico sugeriu a natação, numa altura em que ainda ia para a água com a minha mãe”, recorda a jovem.
O início do percurso começou no ginásio Gimnofísico, passando mais tarde para a Escola de Natação da Câmara Municipal de S. João da Madeira, onde se iniciou com o professor Armando Margalho. Mais tarde acabaria por ficar sob a orientação de Luís Ferreira, que viria a ser o principal mentor de Ana Rodrigues e que ainda hoje a acompanha. “Foi ele que nos propôs a passagem para a competição, numa altura em que estava a formar uma equipa de cadetes”, relembra a atleta, que após colocar a questão à mãe começava, assim, a trilhar um percurso que se revelaria de sucesso. “Foi aí que começou o bichinho pela competição”, confessa.
Hoje, prestes a completar 24 anos, a nadadora considera que foi um trajeto desportivo “muito natural e nada forçado”, onde a evolução foi resultado do trabalho e empenho dos treinos diários, mas recorda que o início parecia dar outras indicações. “Quando comecei na competição o Luís achava que eu era muito desajeitada e que se calhar não ia correr bem, mas aos poucos fomos aperfeiçoando as coisas e foram aparecendo tempos interessantes”, explica a jovem, que confessa que nessa altura ainda “não tinha noção do que era ser campeã ou bater um recorde”.
E foi em casa que Ana Rodrigues começou a escrever o seu palmarés, quando em 2006 marcava presença no Campeonato Nacional de Infantis, que decorreu em S. João da Madeira, cerca de um mês depois da nadadora ter alcançado, nos 100 metros bruços, o tempo de 1:23, quando o recorde nacional se situava nos 1:22. “Na altura o Luís disse-me que a diferença era pouca e que, se calhar, podíamos pensar em bater o recorde nacional, algo que para mim não pareceu nada de extraordinário porque não tinha noção das coisas. À tarde fui nadar com isso na cabeça e, quase sem perceber o que se passava, consegui o tempo de 1:21 e bati o recorde nacional do escalão. Estava na água bastante tranquila quando todos festejavam e eu nem tinha noção do que acabava de acontecer”, recorda a nadadora, que hoje, 12 anos depois, conta já com dezenas de medalhas, títulos e recordes na bagagem. A isso somam-se ainda as presenças na Seleção Nacional, que começaram de uma forma mais séria em 2010 com a participação nos Jogos Olímpicos da Juventude, em Singapura, onde Ana Rodrigues viria a alcançar a medalha de bronze nos 50 metros bruços, conquista que a própria confessa ter sido “uma surpresa”. “Já estava num estado em que o que viesse era ótimo”, refere a jovem, recordando ter sentido grandes dificuldades para se adaptar ao clima e à alimentação do país. “Só queria bater os meus recordes pessoais, mas nas eliminatórias fiquei bem classificada e passei às meias finais. Aí consegui melhorar o meu tempo e fui para a final, onde tinha como principal adversária uma atleta brasileira, que tinha um ar assustador”, lembra a jovem, que acabaria por ultrapassar a concorrente e subir ao terceiro lugar do pódio para receber o bronze.
A experiência em Singapura acabaria por ser uma espécie de preparação para Ana Rodrigues já que, dois anos depois, a nadadora garantia a presença nos Jogos Olímpicos Londres2012, competição na qual sempre sonhou participar. “Em 2008 acordava às 4h00 da manhã para ver as finais com o Michael Phelps a bater o recorde do mundo a e dizimar os tempos. Aí surgiu o desejo de um dia lá chegar e sempre disse ao Luís que gostava de estar em Londres e ele respondia-me: ‘Vamos estar em Londres2012’. Para ele nunca foi uma dúvida. Teve sempre muitas certezas de que estávamos a trabalhar para isso”, frisa a nadadora, que chegou a pensar que não iria ser convocada. “Cheguei a não acreditar porque a 15 dias da comitiva sair ainda estavam a ser divulgadas listas, mas o meu nome não surgia e não se sabia quantos atletas seriam chamados para cada prova”. As incertezas acabaram quando o próprio selecionador ligou para Ana Rodrigues a confirmar a sua presença na Seleção Nacional. “Estava a dormir quando me ligou a dizer para, naquele dia à tarde, levar as malas porque ia aos Jogos Olímpicos. Fiquei em choque e não consegui dizer nada”, relembra a nadadora, que foi a atleta mais jovem a fazer parte da comitiva portuguesa presente em Londres2012. “Senti muito carinho dos restantes atletas”, recorda, destacando a presença de um colega de seleção que “já tinha netos”.
Nesse mesmo ano Ana Rodrigues dava mais um passo na sua carreira e trocava, “por opção própria”, a Associação Estamos Juntos (AEJ) pelo Futebol Clube do Porto, procurando uma nova experiência e fazer parte de “uma equipa grande”. Foi uma mudança “positiva”, segundo a nadadora, mas dois anos depois estava de regresso ao clube de formação. “Tinha sempre alguém para treinar comigo e todas as condições, mas senti falta da individualidade e do trabalho específico que existia com o Luís. No Porto tínhamos três treinadores diferentes e eu senti um bocado essa divisão”, explica a jovem, que a certa altura se viu “a pensar em desistir da natação”. “Cheguei à conclusão que isso não fazia sentido porque ainda tinha muito para dar e não ia desistir. Falei com o Luís, que se mostrou um bocado reticente, mas acabou por concordar”, recorda, garantindo, no entanto, que a passagem pelo clube portista foi uma experiência que lhe deu “estaleca no que diz respeito a métodos de treino”. “Acho que tudo é uma aprendizagem e tudo serve para crescermos”, realça.
Com a saída do Futebol Clube do Porto, Ana Rodrigues procurou o regresso à Associação Estamos Juntos, mas a receção não foi a esperada. “Disseram-me, claramente, que não sabiam porque tinha regressado e que não tinham condições para me dar. Sublinhei que só estava de volta por causa do Luís e que não ia exigir nada”, conta a jovem, que foi treinando “sempre com alguns entraves”, mas foi “conseguindo melhorar”.
A ligação ao clube de formação viria, no entanto, a terminar em 2017 quando, no final da época, “depois de cinco títulos nacionais alcançados no Jamor, o Luís foi despedido”. “Nunca se percebeu muito bem a causa”, acrescenta a nadadora, que garante que o final da temporada “já foi muito complicado”. “Revoltada” com a decisão da AEJ, onde conheceu o treinador e um dos sócios fundadores, Ana Rodrigues acabaria por abandonar também o clube onde aprendeu a nadar.
Pouco depois treinador e nadadora, juntamente com outros atletas que seguiram o mesmo caminho, faziam parte do ressurgimento da secção de natação da Associação Desportiva Sanjoanense. “Tem corrido tudo bem”, sublinha a jovem, que não abrandou o ritmo e já começou a faturar ao serviço do clube alvinegro, tendo já amealhado vários títulos e recordes nacionais, os últimos foram alcançados já em finais de março, no Funchal. Regressando da Madeira com cinco medalhas e três títulos, Ana Rodrigues confessa-se “satisfeita com os tempos” da prova insular, mas admite que pode fazer melhor. “Estava bastante confiante, mas a cerca de três semanas da competição apareceu-me uma rotura na cartilagem das costelas. É daquelas coisas que não se sabe como se tem. O meu médico até me perguntou se tinha andado à porrada com alguém”, conta a jovem, que admite que a lesão acabou por afetar o seu rendimento. “É muito chato porque é na zona abdominal, que na natação é usada para tudo”, acrescenta a nadadora, sublinhando que realizou a prova “com dores e sacrifício”.
Prestes a completar 24 anos e a frequentar a faculdade, onde estuda Psicologia, Ana Rodrigues ainda guarda alguns objetivos e a presença nos Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio, é umas das principais metas. “Gostava muito de tentar uma última vez. Depois a minha vida tem de seguir uma carreira normal, porque em Portugal a natação não dá dinheiro”, refere a nadadora, que recentemente foi homenageada pela Associação Desportiva Sanjoanense pela excelente prestação ao serviço do clube. Uma distinção que, face aos resultados que a jovem já alcançou e à presença olímpica em 2012, gostaria que “já tivesse acontecido há mais tempo”. “Apesar de ser um bocado tímida e de não gostar de estar nas luzes da ribalta, é um miminho que sabe sempre bem”, admite Ana Rodrigues, que confessa estar feliz no clube alvinegro. “Parece uma equipa muito mais unida”, realça a jovem, que agora sente que a natação “é mais acarinhada”.

Sucesso resultado de um “trabalho de confiança”

Ana Rodrigues começou cedo a escrever um percurso que viria a ser de sucesso e do qual fazem parte títulos, recordes, distinções e internacionalizações nos mais diversos escalões. O empenho e dedicação têm sido fundamentais para o êxito da nadadora, mas o técnico Luís Ferreira, que acompanha a jovem praticamente desde os primeiros anos na modalidade, também teve um papel preponderante no trajeto de Ana Rodrigues. “É como um pai para mim”, confessa a nadadora, que garante que a ligação que tem com o seu treinador, que é também padrasto, “é especial”. “Sou muito pessimista e ele acredita mais em mim e no que consigo fazer do que eu. Se num treino estou a fazer um segundo acima do tempo que deveria começo logo a stressar, mas o Luís transmite-me sempre muita confiança”, sublinha, assegurando ser muito crítica consigo própria. “Às vezes sinto que poderia ter feito mais, mas começo a analisar todo o meu percurso e só me posso sentir orgulhosa por chegar onde cheguei e com as condições que tive”, conta a nadadora, realçando que o sucesso é resultado de um “trabalho de confiança” com o treinador. “Eu e o Luís funcionamos muito bem”, garante Ana Rodrigues, que destaca a excelente capacidade do técnico para “trabalhar com os atletas de forma descontraída, mas ao mesmo tempo exigente”. “Acho que é essencial existir uma boa ligação com o nosso treinador porque é uma das pessoas com quem passamos mais tempo ao longo do dia”, conclui.

“Equilíbrio” entre a natação e a Psicologia

O início na natação por recomendação média acabaria por despertar em Ana Rodrigues a paixão por este desporto e seria a modalidade a definir o futuro académico da nadadora. “Acho que fui para Psicologia devido ao desporto”, confessa a atleta. “Sempre fui muito ansiosa e nas competições, principalmente internacionais, sentia essa dificuldade”, acrescenta a jovem, que recorda uma prova em 2015: “Lembro-me no Europeu, onde estava a tentar alcançar os mínimos para os Jogos Olímpicos, de estar na câmara de chamada com a boca seca e a tremer. Isso afetou o meu desempenho”, assegura a nadadora, que considera extremamente importante a integração da Psicologia no desporto. “Na Federação tentaram introduzir isso e cheguei a ter algum acompanhamento e faz muita diferença”, garante Ana Rodrigues, que confessa não ser fácil “treinar diariamente durante duas horas a olhar para os azulejos da piscina”.
A natação de alta competição e a necessidade desse acompanhamento despertou em Ana Rodrigues a paixão pela Psicologia, área onde a jovem assegura que gostaria de trabalhar “no âmbito do desporto”, precisamente com “atletas e até mesmo com a Seleção Nacional”. “Já passei por lesões horríveis, por momentos muito bons e muito maus. Acho que já estive em todos os pontos cruciais por onde todos os atletas podem passar. É uma bagagem muito grande e acho que posso dar muito porque já passei por tudo”, salienta a jovem.
Atualmente Ana Rodrigues divide-se entre as duas paixões e apesar das dificuldades, garante que conseguiu encontrar um “ponto de equilíbrio” entre a natação e o curso de Psicologia. “Sentia-me mal quando deixava para trás a faculdade para me dedicar à natação e acontecia o mesmo quando me focava no curso e descurava natação”, explica a jovem”. “Não sei como surgiu esse equilíbrio, mas este ano tem sido muito bom. Estou a fazer duas coisas que gosto”, conta a nadadora, assegurando que “de uma forma ou de outra ambas estão interligadas”.

Comentários

Pub

Notícias relacionadas