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Nuno Resende começou o seu percurso no hóquei em patins nas escolinhas da Associação Desportiva Sanjoanense com cinco anos de idade. Hoje, com 42, é treinador do Amatori Lodi, uma das melhores equipas do principal campeonato italiano e com a qual conquistou a Supertaça e se sagrou campeão de Itália na última época

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“Sempre tive o sonho e o objetivo de trabalhar em Itália”

FOTO: Nuno S. Ferreira
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Nuno Resende começou o seu percurso no hóquei em patins nas escolinhas da Associação Desportiva Sanjoanense com cinco anos de idade. Hoje, com 42, é treinador do Amatori Lodi, uma das melhores equipas do principal campeonato italiano e com a qual conquistou a Supertaça e se sagrou campeão de Itália na última época

Conquistou, recentemente, o campeonato italiano de hóquei em patins ao serviço do Lodi. Como é que foi a sua evolução até chegar a treinador?
Iniciei-me nas camadas jovens da Sanjoanense com cinco anos. Fiz depois todo o meu trajeto de juvenil até júnior no clube, de onde saí diretamente para a 2.ª Divisão para os seniores do Académico da Feira. Depois fui para a Académica de Coimbra, para a 1.ª Divisão, e, no ano seguinte, rumei à Oliveirense. Estive ainda no Espinho, Valongo, representei a Sanjoanense durante duas épocas na 2.ª Divisão e regressei ao escalão principal onde estive com o Riba d’Ave, Porto Santo, Oliveirense e Óquei de Barcelos.
Já na parte final do meu percurso como atleta na Oliveirense faço dois anos como jogador-treinador, sendo que o último já foi praticamente só como treinador.
De Oliveira de Azemeis saí para a seleção angolana de sub20 e nestes últimos dois anos estive em Itália, o primeiro no Matera e a última época no Amatori Lodi.

A transição de jogador para treinador surgiu, então, de uma forma natural?
Sim. No primeiro ano em que assumi essas funções o treinador que tomou conta da equipa acabou por ficar dois meses e a direção do clube propôs-me essa situação porque na altura acreditou que seria a melhor solução para o grupo. Nesse ano desempenhei funções como jogador-treinador, mas no ano seguinte, apesar de ter mantido a situação e ter feito parte do plantel, praticamente não fiz nenhum jogo, tirando a primeira partida da Supertaça e um encontro da quarta ou quinta jornada do campeonato.
Era uma situação extremamente difícil, mas, ainda assim, tivemos sucesso e conseguimos vencer a Taça de Portugal e, no ano seguinte, estivemos presentes na final da Taça e da Supertaça.
No terceiro ano já desempenhei funções apenas como treinador.

E como é que chega a uma equipa italiana?
Estava no Mundial de sub20 em Espanha quando recebi o convite através do selecionador nacional português Luís Sénica, que na altura tinha sido contactado por pessoas ligadas ao Matera, para encontrar uma solução para a equipa do clube italiano. Como ele não estava disponível abordou-me nesse sentido e depois apresentou o meu nome aos responsáveis do clube. A partir daí as coisas desenrolaram-se normalmente e 48 horas depois já estava tudo acertado. Foi numa altura em que também estava em final de ciclo com a seleção de Angola, pois faltavam dois dias para acabar o Mundial, e coincidia com o início de época em Itália.
Foi uma situação feliz para mim porque tive a sorte de estar no sítio certo à hora certa e as coisas desenrolaram-se a meu favor já que acabou por ser uma oportunidade de ouro.

A adaptação ao hóquei italiano foi complicada?
Não. Já falava fluentemente italiano e era um campeonato que já acompanhava porque sempre que podia via resumos e jogos devido ao meu trabalho e à minha curiosidade. Tinha uma ideia muito clara dos planteis e dos jogadores. Já tinha jogado várias vezes em Itália e tinha alguma ideia do ambiente e da forma de pensar dos treinadores, até pelos confrontos que tive com equipas italianas nos três anos em que estive na Oliveirense.
Houve uma necessidade de adaptação aos conceitos táticos, aos adversários e de conhecer melhor as ideias.
O mais difícil foi mesmo a distância, mas, até nisso, já tinha feito uma adaptação quando estive em Angola. Com o avião rapidamente nos deslocamos a qualquer lado e a Internet permite atenuar ainda mais essas distâncias.

Como é que foi o primeiro ano em Itália?
Foi muito positivo. Tratava-se de uma equipa que, na altura, nunca tinha conseguido nada de relevante. Ganhava três ou quatro jogos por ano. Apesar de ter um plantel interessante era muito curto, mas, mesmo assim, conseguimos a presença numa meia-final da Taça de Itália, chegar às meias-finais do campeonato, que depois disputa-se por playoff, e à meia-final da Taça CERS, que é a segunda competição europeia. Tínhamos uma equipa extremamente curta e fazíamos milhares de quilómetros, porque estávamos no Sul de Itália, ao que se juntava os problemas de ordenados, tanto que o clube acabou no final dessa época. Mas foi um ano extraordinário e que me abriu as portas para um dos emblemas mais conceituados de Itália e para um novo mercado.

A segunda época foi mais tranquila?
Foi muito boa. Conseguimos, logo no início, ganhar a Supertaça, porque no ano anterior o Lodi tinha chegado à final do campeonato e conquistado a Taça de Itália com outro treinador. Chegámos aos quartos de final da Liga dos Campeões com uma equipa que já não o conseguia há muito tempo, onde perdemos com o finalista, a Oliveirense, e fomos campeões de Itália. É um grande clube italiano, mas só tinha vencido o campeonato uma vez e já há 36 anos que isso não acontecia. Foi uma época extraordinária.

Quando chegou ao Amatori Lodi o título era um objetivo?
Era. No ano anterior a equipa tinha conquistado a Taça e chegado à final do campeonato e, por isso, havia essa lógica. Foi uma época difícil e dura. Durante a maior parte da temporada estivemos em primeiro lugar, mas na última jornada perdemos a liderança para o Forte Dei Marmi. Contudo, conseguimos chegar à final no playoff e, no jogo decisivo, em casa do adversário, acabámos por vencer nos penaltis e conquistar o ambicionado título.
Vencemos uma equipa que, na teoria, era mais forte que nós.

O plantel curto que refere foi a principal dificuldade da época?
Foi. A juventude e falta de maturidade do plantel teve de ser consolidada com o trabalho. Foi uma equipa que fez 42 jogos num ano com, provavelmente, 70 por cento dos encontros a cinco jogadores.
Trata-se de uma equipa que na fase do playoff realizou 12 jogos em 43 dias. Tínhamos um jogo de três em três dias. Foi necessária uma grande gestão e muito trabalho, que acabou por dar frutos, mas que ninguém acreditava. Era um plantel jovem e curto e sem muito tempo para recuperar, mas terminou a época mais forte que os adversários.

E como foi a recetividade da massa associativa ao substituir um treinador que tinha tido um bom desempenho na época anterior?
Havia uma forte ligação com o trabalho do treinador anterior e os adeptos não entenderam porque é que o presidente trocou um técnico, que tinha ganhado a Taça e chegado à final do campeonato, por outro.
Independentemente disso, receberam-me bem e com o decorrer da época, os bons resultados nos jogos e a consolidação de várias situações acabei por ser consensual junto da massa associativa.
Já sabia que não iria ser fácil e que praticamente teria de ganhar o campeonato para que as dúvidas não subsistissem.

A conquista deste título à frente do Lodi pode-se considerar como o ponto alto na carreira como treinador?
Claro. Acho que foi uma época alta em todos os sentidos. Tenho noção do trabalho que foi feito e das dificuldades que eu e a equipa tínhamos e o que foi conseguido.
Os adversários são difíceis, o campeonato foi complicado e ao nível da Europa realizamos uma Liga dos Campeões extraordinária. Para um início de carreira e no segundo ano em Itália ter consolidado o meu trabalho com todos estes resultados é extremamente importante.
Disse várias vezes que não era este título que iria carimbar o meu trabalho, porque tinha a noção do que estava a ser feito, mas que é importante é. Tal como foi conquista da Taça de Portugal com a Oliveirense, ou o trabalho que fiz em Matera, entre muitas outras coisas.
Mas considero que alcançar este título, num campeonato tão importante, é o momento mais alto.

Já renovou com o Amatori Lodi e já prepara a próxima época. Já há objetivos definidos?
Sim, será mais do mesmo. Queremos estar na decisão de todas as competições até ao fim e conquistar o que pudermos. A exceção é na Liga dos Campeões onde gostaríamos de marcar presença nos quartos de final e, quem sabe, espreitar a final four.
A equipa sofreu uma alteração profunda com a saída de dois atletas importantes e porque pretendemos ter um plantel mais longo. Foi por isso que apostamos na integração de mais cinco novos jogadores. São elementos experientes e com valor, mas terão que adquirir o modelo de jogo e identidade da equipa. Mantivemos cinco atletas, dois guarda-redes e três jogadores, de uma linha muito importante e que são a espinha dorsal.

Está nos seus objetivos regressar a Portugal?
Obviamente que tenho como objetivo regressar a Portugal, mas não é uma obsessão. Terá que ser uma consequência do meu trabalho e de ter clubes interessados no Nuno como treinador, mas não é para já porque sinto-me bem em Itália.
Quando as coisas tiverem que acontecer terei de estudar as situações e analisar o que será melhor para mim e para a família.

Tem algum objetivo pessoal enquanto treinador?
Quero trabalhar e continuar a fazer o que eu gosto. O meu objetivo é ter sempre uma equipa com que possa trabalhar. Sempre tive o sonho e o objetivo de trabalhar em Itália. Não o consegui como jogador porque, se calhar, não tive a qualidade para ter esse convite, mas de um momento para o outro abriram-se as portas. Quem me conhece sabe que gostaria de ter esta experiência. Pode ser que em Portugal também se abram algumas portas interessantes.

Iniciou-se na Associação Desportiva Sanjoanense e é sanjoanense. Vê-se regressar ao clube da terra?
Se calhar esse é o meu único sonho. Não consegui realizar o meu sonho como atleta que era jogar na 1.ª Divisão neste pavilhão. Quis o destino que eu não tivesse esse privilégio e, de certa forma, é uma frustração que tenho. Cresci neste pavilhão a ver as nossas equipas de hóquei nos tempos áureos e era meu sonho de criança vestir esta camisola na 1.ª Divisão. Pode ser que como treinador, independentemente da divisão, me venha a sentar nesta cadeira.

Como é que analisa a prestação da Sanjoanense esta época, que acabou por culminar com a descida ao escalão secundário?
Acho que os últimos anos são de enorme sucesso. Tem que se fazer jus ao trabalho do Vítor Pereira com a subida e as permanências alcançadas. Com a estrutura que o clube tem, um plantel sempre muito jovem e uma moldura humana incrível foram conseguidos resultados fantásticos.
Esta época, a mudança de treinador e o trabalho que aqui foi feito, se calhar, não teve o resultado esperado e no final acabaram por não conseguir a permanência que, provavelmente, com um bocadinho mais de sorte poderia ter sido evitada.
Acho que não tem que haver dramas. As coisas têm de ser encaradas com realidade, porque isto é uma situação que pode acontecer. Pelo que me estou a aperceber, da forma como o plantel está a ser feito, a continuidade da equipa técnica, que dá alguma tranquilidade, penso que nos próximos tempos poderemos ver novamente esta equipa a lutar pela subida e a regressar àquele que, do meu ponto de vista, deverá ser o único palco deste clube que é a 1.ª Divisão.
Acho que o espirito e identidade da Sanjoanense está bem viva.
É o único pavilhão onde venho e sou adepto, não consigo ver o jogo como treinador. Aqui as emoções são mais fortes.

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