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É preciso disponibilidade para se ser “soldado da paz”. Mas o tempo é algo que, nos dias de hoje, vai rareando. Em entrevista ao labor, o comandante Normando Oliveira defende que é preciso pensar a sério sobre o modelo de bombeiros no nosso país

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“Não é bombeiro quem quer mas quem pode ser”

Normando Oliveira, Comandante dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira
FOTO: Gisélia Nunes
Normando Oliveira, Comandante dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira
FOTO: Gisélia Nunes
I Raid BTT dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira
FOTO: Direitos Reservados
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É preciso disponibilidade para se ser “soldado da paz”. Mas o tempo é algo que, nos dias de hoje, vai rareando. Em entrevista ao labor, o comandante Normando Oliveira defende que é preciso pensar a sério sobre o modelo de bombeiros no nosso país

No último aniversário da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira o comandante surgiu “sem papas na língua” não poupando críticas a quem está acima dos bombeiros. Afinal, o que se passa?
Olhe, não se trata de uma crítica, mas antes de uma chamada de reflexão sobre o mundo e o momento atuais. Acho que o presente obriga-nos a estar muito atentos, havendo necessidade de olhar para esta atividade com algum rigor e critério. Aquilo que fiz no aniversário e tento fazer é alertar os superiores para esse cuidado que tem de existir.
Esta estrutura de bombeiros tem uma missão que acho que é extremamente importante para a sociedade. Lidamos diariamente com o bem-estar das pessoas. E isso obriga a que tenhamos bombeiros disponíveis, preparados física e psicologicamente.
Temos de ter a noção que estamos no século XXI. Mas não pode ser só para umas coisas que estamos no século XXI e para os bombeiros estarmos completamente presos ao passado.
É preciso, se calhar, também abrir os horizontes e reequacionar todo o formato que existe hoje em termos de bombeiros voluntários. Porque esta capacidade, dedicação e responsabilidade, que estão associadas a isto, não podem, penso eu, estar só presas às boas vontades. Posso ter muito boa vontade, mas posso, depois, não dispor do tempo necessário para fazer esta atividade de uma forma profissional.
E o que é certo é que isto tem de passar sempre por uma ação o mais profissional possível, independentemente da matriz que seja. Ninguém quer ser socorrido por uma pessoa que não sabe, o que obriga a que uma pessoa esteja em permanente atualização. Mas, para isso, precisa de disponibilidade. E a minha preocupação só é essa. É olhar para a sociedade, olhar para a disponibilidade que hoje a sociedade tem, e ver se temos alguma coisa para alterar, ajustar, verificar. E essencialmente saber o que vamos fazer daqui para a frente.

Essa chamada de reflexão deve-se a um descontentamento a nível nacional, não se resumindo a esta corporação, certo?
Dá-me a impressão que sim. Mas aquilo que digo sempre é que o bem-estar dos outros é, por inerência, também o meu bem-estar. E quando o bem-estar existe nos outros, por conseguinte, também terei o meu bem-estar.
Mas parece-me que esse bem-estar não acontece neste momento. E por isso acho que é necessário estar bem atentos e, se calhar, começar a fazer alguma coisa de diferente.


“A área da segurança, neste caso de socorro e proteção, é uma coisa séria para ser comungada por todos e não por cada um que lá está”
Então o que é que quem de direito deveria fazer e não faz para que as coisas comecem a correr melhor?
Definir o que é que é efetivamente será o papel dos bombeiros nos tempos futuros e quais são os critérios ou as abordagens que vão fazer para que seja possível a existência desses bombeiros no futuro. Falo de critérios que sejam adequados em termos de formação, disponibilidade. Definir se querem uma matriz profissional ou se querem uma matriz voluntária.
Se querem uma matriz voluntária, de que forma vão incentivar ou motivar os voluntários. Se querem uma matriz profissional qual será essa matriz profissional…Mas isso tem de passar por quem tem a decisão para equacionar e refletir todos estes modelos. Temos vários exemplos no mundo. Os bombeiros existem pelo mundo fora. Cada país tem o seu modelo e se calhar podemos não fazer o “copy e paste” desses modelos, mas abordar vários modelos que existam e adequar um pouco ao nosso país.

Isso quer dizer que o modelo português não será o mais indicado?
Acho que está no momento de reavaliarmos toda a situação.

Na sua ótica, Portugal tem défice de voluntariado? Se sim, como se poderia inverter esta situação?
Acho que acabei de dizer e de dar resposta a isso. Isto tem a ver com aquilo que as pessoas pretendem fazer no futuro. Qual é o critério que vão ter, qual é que vai ser o projeto dos bombeiros no futuro. E esse projeto tem de avaliar todas as situações.
No momento atual, há registos. Estas estruturas estão abertas 24 horas e, por isso, as pessoas podem fazer essa avaliação. E depois é mediante essas avaliações que quem de direito deverá fazer esse projeto, um projeto que seja simples e adaptável àquilo que são as nossas aspirações.

Mas essa reavaliação tem vindo a arrastar-se no tempo, governo após governo, ano após ano.
Acho que a área da segurança, neste caso de socorro e proteção, é uma coisa séria para ser comungada por todos e não por cada um que lá está.

Que opinião tem acerca da lei de financiamento dos bombeiros. As autarquias devem financiar ou não? E quanto ao cartão social do bombeiro voluntário?
Não conheço o projeto do cartão social do bombeiro. Por isso, não lhe vou dizer se está bem ou menos bem, porque não o conheço.
Acho que depende sempre daquilo que será o futuro modelo dos bombeiros. Se é um modelo profissional, misto, voluntário. Só começando a trabalhar nesse projeto é que podemos dizer o que poderemos fazer melhor, com poucos ou muitos recursos, o melhor para cada uma das situações.


“O volume de recursos humanos fica muito aquém daquilo que é desejável”
Centrando-nos agora na sua corporação. É composta por cerca de 90 elementos. Como é que a “alimentam”? São as pessoas que chegam cá e oferecem-se para servir? São os pais que trazem os filhos para a Escola de Infantes e Cadetes?
Tentamos “alimentá-la” de várias formas. Temos várias formas de cativar, o que é difícil. Temos uma forma de estar na vida que nada tem a ver com a de há 20 anos. Para não falar de há mais tempo. Nada disto é igual ao que era antigamente.
E nada disto sendo igual temos de ver o que é que é atual, quais são os objetivos, as necessidades, o que faz mexer as pessoas. E verificar qual é o modelo que temos e adaptá-lo àquilo que temos hoje na realidade, à sociedade. Só assim é que faz sentido começar a falar de qual será o melhor modelo.
Por isso, tentamos cativar pela Escola de Infantes e Cadetes. Outros vêm de livre vontade. Também temos ido às escolas e falar um pouco com as pessoas. Outras vezes, são as escolas que vêm ao quartel e quando isso acontece falamos aos mais novos na possibilidade de se inscreverem e darem um pouco do seu tempo a esta atividade. E é assim que vamos tentando ter algumas pessoas com a dificuldade da disponibilidade necessária para esta atividade.
É que muitas vezes não é o facto de as pessoas não quererem, mas sim a disponibilidade que é necessária ter para as pessoas poderem ser. Repare: posso gostar de ser, mas, depois, preciso de fazer uma formação de 50 horas para estar com competências para uma atividade, por exemplo, no pré-hospitalar. Ou então preciso de fazer outro curso de 50 horas para ter competências para ir para um incêndio urbano ou industrial.
E nós não queremos, de forma alguma, que isto seja uma atividade que leve as pessoas a abandonarem os estudos, trabalhos ou vida familiar. Porque para conseguirmos ser bombeiros a nossa retaguarda tem de ser forte. Temos de ter uma família forte, que nos ajude, para termos a disponibilidade. E temos de estar de bem com nós próprios também.
Verificamos nesta sociedade de hoje, de tanta correria, sempre com os tempos tão bem definidos, que as pessoas não têm a disponibilidade necessária. E às vezes não é só a disponibilidade física. É também a disponibilidade mental, porque as pessoas, muitas vezes, estão saturadas.
Toca-nos na vida. Quanto a isto não vale a pena meter a cabeça na areia tipo avestruz. Hoje, as pessoas levam uma vida saturada. Têm muitas preocupações pessoais e, além disso, têm de ir para um quartel, fazer os serviços noturnos, serviços diurnos, toda uma atividade que deve ser reconhecida, agraciada, mas que muitas vezes não é.
Há 30 anos, em S. João da Madeira, o quartel seria onde as pessoas se concentravam. Como tinha bar, se calhar, era dos poucos cafés que estavam abertos até um bocadinho mais tarde. Era aqui que as pessoas se reuniam, falavam, trocavam impressões. Aqui se potenciava o valor da sociedade.
Hoje já não é assim. Hoje temos “n ofertas”. Os bombeiros já não são, por si só, o ponto de encontro da sociedade. A sociedade por si só foi-se alterando. Os bombeiros estão em determinado espaço, a sociedade está noutro espaço. Se não fôssemos sociedade, quase que nem havia ligação entre a sociedade e os bombeiros.
Depois há aquela coisa de que quando preciso dos bombeiros e toca o telefone alguém tem de me responder e alguém tem de me socorrer porque eles estão lá para isso mesmo. A missão deles é essa. Mas como é que se chega ali e como se consegue ter essa capacidade tenho a convicção que passa ao lado de muita gente.

Há quantos anos existe a Escola de Infantes e Cadetes? É composta por quantos elementos?
Há seis anos. Neste momento, tem cerca de 30 miúdos.

Sabe quantos miúdos terão passado, ao longo destes anos, para o corpo ativo?
Já entrou para o corpo ativo para cima de uma dezena. É lógico que, depois, temos outra situação: aqui tentamos que as pessoas, dentro das suas possibilidades, concluam os estudos secundários e, depois se puderem, até um curso superior. Muitas vezes, até contribuímos para que, depois do seu curso superior, não tenham tanta disponibilidade para o que precisamos.
Repare que ainda não falei da legislação, daquilo que é obrigação da lei, porque então íamos para um campo ainda mais complexo. Falo sobretudo daquilo que é ser bombeiro.
Há uns anos, quando entrei para os bombeiros, havia um slogan que se punha nas formações, de que hoje me recordo perfeitamente: “Não é bombeiro quem quer mas quem pode ser”. Acho que isto, ao fim destes anos todos, está mais do que atual.
O querer e a disponibilidade são dois critérios fundamentais para se partilhar esta missão.

“Acho que todos deviam participar para a sustentabilidade dos bombeiros”
A corporação é composta por bombeiros profissionais?
Sim. Neste momento, tem 19. Os restantes elementos são voluntários. E já que me põe esta questão aproveito para dizer que todos os profissionais fazem o mesmo percurso de voluntário como os outros. O corpo de bombeiros tem profissionais para garantir o período horário das 06h30/07h00 até às 21h00, enquanto todos os outros estão nas suas atividades profissionais.
Cabe aos profissionais assegurar dois turnos diurnos, cerca de nove por cada turno. Nestes estão incluídos os que transportam doentes para as clínicas. Falamos de quatro ou cinco bombeiros, deixando livres para o socorro na cidade apenas entre quatro ou cinco elementos. Ou seja, o volume de recursos humanos fica muito aquém daquilo que é desejável.
Faço muito a equivalência do acidente para o Euromilhões: todos jogamos, todos andamos na vida sujeitos a… uns jogam mais, estando mais suscetíveis a ganhar, outros jogam menos, mas um dia as coisas vão acontecer.
É lógico que se for o Euromilhões toda a gente fica contente, aquele a quem sai fica contente. Se for o “Euroacidente” será sempre com dano e lesão.

Quais as ocorrências mais frequentes?
A grande percentagem regista-se no socorro pré-hospitalar. Mas temos uma percentagem de incêndios urbanos que é significativa.

E a nível de acidentes rodoviários?
Temos uma percentagem considerável para a cidade. Falamos de acidentes com dano físico, dos ocupantes ou em outras pessoas, sobretudo atropelamentos.

Falou em fogos urbanos. E os florestais?
Na área do incêndio florestal, colaboraremos dentro daquilo que nos for possível, dentro da disponibilidade dos nossos elementos, com os bombeiros vizinhos e com toda a estrutura de socorro e proteção, de forma a minimizarmos esse flagelo.

Podem ser chamados a intervir em todo o país?
Até ao ano passado, sempre que fomos solicitados para todas as áreas do país estivemos presentes, dentro da nossa disponibilidade.

Mas estamos a falar mais do Norte?
Centro e Norte.

Que acha do Governo custear as deslocações dos bombeiros para os incêndios?
Não sei da verdade dessa notícia. Espero que se saiba a verdade exatamente, assim como a forma como isso será feito. Só depois poderei dizer alguma coisa sobre isso.

O que deseja para a sua corporação?
Assegurar os serviços mínimos operacionais 24 horas (num outro modelo) e reformular a participação dos voluntários na atividade dos bombeiros. Se conseguisse estas duas coisas paulatinamente, a curto prazo, já era bom.

Os sanjoanenses podem fazer mais pelos bombeiros?
Penso que todos, num dia ou noutro dia qualquer que nunca sabemos quando vai ser, se calhar iremos precisar de uma atividade de proteção e socorro para alguém ou para nós, Partindo desse princípio, acho que todos deviam participar para a sustentabilidade dos bombeiros.
Agora, qual será o critério para o fazer? Mais uma vez, isto deve passar por uma reflexão que é premente. Poderíamos falar de uma taxa de proteção de socorro, onde todos participavam nessa taxa. Ou no simples ato de se tornarem sócios. São todas gotas que compõem o “oceano”.
Mas o cerne da questão está em saber o que pretendemos dos bombeiros? Qual a importância dos bombeiros? Tudo isto deve ser motivo de reflexão.

Mas concorda comigo no que respeita ao facto de quem cala consente. Se se mantiverem calados esta situação ainda vai durar mais alguns anos.
Por isso, espero que a tutela não assobie para o lado. Espero que esteja atenta e que veja as coisas com o realismo que tem de ser visto e que tome as decisões adequadas e acertadas ao mundo atual.



Normando Oliveira

Normando Oliveira é comandante do corpo ativo da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira (AHBVSJM) há sete anos, feitos no mês passado. Mas a sua ligação à AHBVSJM já vem de longe, dos tempos da adolescência em que vinha para o quartel com o pai, que era diretor na altura.
Começou por ser bombeiro de 3.ª, foi subchefe, adjunto de comando e segundo comandante e, mais tarde, foi convidado para ser comandante, função que desempenha desde 2010. Hoje o pouco tempo livre de que dispõe dedica-o à família - leia-se esposa e três filhos – e ao curso superior de Engenharia da Segurança do Trabalho, que está a tirar no ISLA. Este curso, para além de ser uma questão de realização pessoal, “será mais uma ferramenta útil, não só para a minha pessoa enquanto comandante, mas também para o corpo de bombeiros”, explicou em entrevista ao labor.
A poucos dias de fazer 47 anos, este sanjoanense de gema, nascido na antiga maternidade do Hospital Distrital de S. João da Madeira, sente a AHBVSJM como parte da sua vida. Aqui “sinto-me bem”, disse ao jornal.




I Raid BTT dos Bombeiros

Decorreu no último fim de semana o I Raid BTT dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira, integrado nas comemorações dos 90 anos da associação. Organizada tendo em vista a angariação de fundos para os “soldados da paz”, a iniciativa resultou de uma parceria entre a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira e a equipa de BTT Anti-Asfalto, contando ainda com o apoio da câmara municipal.



Secretário de Estado da Administração Interna reuniu com a ANPC e a LBP

O secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, presidiu, no passado dia 9, à primeira reunião dos grupos de trabalho, constituídos para a elaboração das propostas de revisão da Lei de Financiamento das Associações Humanitárias de Bombeiros Voluntários e da criação do Cartão Social do Bombeiro Voluntário (CSBV).
Nota informativa enviada ao labor pelo Ministério da Administração Interna refere que os ditos grupos, em que participam a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) e a Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), têm como objetivo encontrar soluções para questões como o financiamento das corporações e pretendem corrigir alguns desajustamentos verificados na aplicação da lei aprovada em 2015, nomeadamente as variações positivas e negativas de financiamento.
Relativamente ao CSBV, os responsáveis estão a operacionalizar a criação do Cartão Social e a estudar incentivos ao voluntariado. A proposta final será apresentada até 30 de setembro

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