a informação essencial
Pub

“Parámos de trabalhar e exigimos o mesmo salário”

FOTO: Diana Familiar
Partilha

Visita guiada por antiga funcionária tem “um outro encanto”

O Dia Internacional dos Museus, 18 de maio, com o tema “Museus Hiperconectados: novas abordagens, novos públicos” está a ser assinalado até este sábado, dia 26 de maio, com visitas temáticas no Museu da Chapelaria e no Museu do Calçado.
O nosso jornal acompanhou uma das visitas temáticas, orientada por Deolinda Silva, funcionária, durante 31 anos, na antiga Empresa de Chapelaria.
A visita começou com a explicação de como é que cada uma das máquinas tratavam o feltro de lã, de coelho e de castor. “Todas as máquinas que estão aqui existem, mas mais modernas, na Fepsa”, deu a conhecer Deolinda Silva, sobre esta empresa que é a única produtora nacional de feltro.
Voltando aos tempos da Empresa de Chapelaria. A pequena Deolinda tinha apenas nove anos quando lá começou a trabalhar, fazendo pouco tempo depois 10 anos, corria o ano de 1964. Depois de 18 anos no setor da costura, passou, durante 13, para o da afinação, acabando por ir para casa depois do encerramento da empresa em 1996. Ela era até ao falecimento do senhor Méssio Trindade um dos “rostos” do Museu da Chapelaria. Agora, ela é o “rosto” que continua as visitas temáticas, o dele continua cravado numa das paredes.
As condições de trabalho eram “muito duras” com “o chão de cimento com terra, o telhado em zinco, as goteiras a cair em cima de nós, os pés todos molhados”, recordou Deolinda Silva durante a visita.
As máquinas eram muitas, as encomendas muitas mais, mas os trabalhadores eram de menos. “Não tínhamos pessoas para trabalhar porque depois de experimentarem a máquina de manhã não continuavam à tarde”, recordou a antiga funcionária sobre uma das máquinas muito grande e com muito vapor. “As pessoas não se viam de um lado para o outro devido ao vapor”, contou Deolinda Silva.
A dificuldade em arranjar homens para aquela máquina levou a que mudassem “as mulheres para os trabalhos dos homens”, mas a ganhar menos, “uma diferença de 120 escudos”. “Nós tivemos de nos aguentar” até que “parámos de trabalhar e exigimos o mesmo salário”, relembrou a antiga funcionária da Empresa de Chapelaria.
Um dos elementos comuns a quase todos, arriscando dizer a todos, os chapeleiros era o bigode. Pelo que ficamos a saber era muito mais do que uma questão de “moda”. “A proteção deles era o bigode. Como o pelo andava sempre no ar e o cloro da tinta embarrava no bigode”, revelou a antiga funcionária, explicando igualmente as “unhas negras” de tingirem os chapéus.
“As pessoas achavam o chapéu caro, mas não imaginavam as voltas que ele dava para ser feito”, destacou Deolinda Silva, a voz da experiência e do conhecimento do trabalho afeto a todos os setores de construção de um chapéu.
O primeiro trabalho que teve foi a fazer “lacinhos” para o interior dos chapéus, pregados pelas senhoras mais velhas, para que as pessoas soubessem “as direitas” dos chapéus.
A visita guiada terminou com a exposição “Chapéus de Todo o Mundo” desde a Europa, a Ásia, a Oceânia até à África e à América.
As irmãs Ana Almeida e Catarina Almeida já tinham visitado em grupo o Museu da Chapelaria, mas desta vez decidiram visitar apenas as duas o mesmo espaço. A visita guiada é “interessante, principalmente por ser orientada por uma antiga funcionária da indústria de chapelaria. Tem um outro encanto”, disse Ana Almeida ao labor.
Por sua vez, Catarina Almeida destacou o facto de a visita ter “uma explicação pormenorizada” em particular e de “tudo” em geral. As irmãs sanjoanenses também já visitaram o Museu do Calçado, mas “não há comparação” entre um e outro porque retratam as histórias das indústrias dos chapéus e do calçado de forma diferente, concluíram.
O “sucesso” de todas as iniciativas “só foi possível porque a nossa comunidade aceitou os desafios que propusemos. Mais de oito centenas de pessoas envolveram-se nas atividades programadas para os três dias, sendo que destas 450 realizaram as visitas temáticas, 298 assistiram ao O Último Turno, 20 fizeram o Peddy Paper e 91 vieram tomar o Chá das Cinco com o Chapeleiro Maluco e a Alice”, informou Suzana Menezes, Chefe de Divisão da Cultura da Câmara Municipal de S. João da Madeira ao labor.
Por isso, “estamos muito gratos a todos os que se envolveram, a todos os que quiseram fazer parte da nossa rede de conexões, porque de facto os museus existem para fazerem parte da vida da sua própria comunidade”, demonstrou Suzana Menezes elegendo essa como “a razão pelo qual o património, material ou imaterial, é preservado, salvaguardado e comunicado dentro de museus. É para as pessoas e com as pessoas que trabalhamos”.

Visitas gratuitas este sábado

As visitas temáticas agendadas para este sábado, dia 26 de maio, aos Museus da Chapelaria e do Calçado são gratuitas mediante inscrição prévia.
Os interessados devem realizar a inscrição através de museu.chapelaria@gmail.com ou de 256 200 206.

Comentários

Pub

Notícias relacionadas