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Histórias de sanjoanenses que fizeram os caminhos de Santiago

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“É uma forma de as pessoas se encontrarem consigo”

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Histórias de sanjoanenses que fizeram os caminhos de Santiago

O que têm em comum Luís Quintino, Lúcia Pinto e António Oliveira? Os três sanjoanenses já fizeram um ou mais do que um dos caminhos de Santiago.
A primeira experiência de Luís Quintino com os caminhos de Santiago aconteceu em maio do ano passado com um grupo de amigos. O ponto de partida foi de Valença até Santiago de Compostela. Um total de 125 quilómetros, cerca de 25 quilómetros por dia, em cinco etapas que é como quem diz em cindo dias.
Ao longo deste caminho “a multiplicidade de paisagens é fantástica”, alternando “entre estrada, montanha, rio, aldeias e vinhas”, contou Luís Quintino ao labor.
Quando o grupo parava “falávamos, tomávamos café e bebíamos disto e daquilo, mas o caminho é feito, na maior parte dos trajetos, em silêncio em que vamos connosco, com os nossos pensamentos e com o nosso silêncio interior”, revelou o sanjoanense.
O grupo de amigos era constituído por oito pessoas mais um carro de apoio. “Fazer os caminhos de Santiago sem um carro de apoio parece-me, no meu caso, uma coisa um bocado mais complicada”, assumiu Luís Quintino, que só pelo facto do carro levar as mochilas permitia que ele e os amigos caminhassem “muito à vontade e é diferente do caminheiro típico que vai com não sei quantos quilos às costas. Nós não fizemos assim e acho que foi uma ótima decisão. Estávamos todos muito à vontade para caminhar”.
A estadia foi feita em albergues que têm algumas “regras incomodativas” como o ter de “se chegar às nove da noite”, confessou o sanjoanense. Contudo, os caminheiros têm, hoje em dia, “imensas alternativas” de alojamento desde albergues privados com regras mais flexíveis, hotéis e até pensões.
O grupo de Luís Quintino preferiu planear toda a viagem com a reserva antecipada da estadia. Mas “aquele peregrino que quer fazer os caminhos de Santiago cumprindo essas etapas rigorosas de chegar a um sítio, parar e procurar um albergue, está cheio ou não, pronto, acho que está mais próximo do que era o original”, admitiu o sanjoanense ao labor.
O corpo de Luís Quintino não ressentiu nenhum efeito da caminhada talvez pelo facto de estar habituado a caminhar duas vezes por semana com um outro grupo de pessoas. O grupo tem a chancela da Associação Cultural Luís Lima, em homenagem ao seu falecido filho, e encontra-se para caminhar todas as terças e quintas-feiras, às 21h00, em frente à Crispauno em S. João da Madeira, podendo ser frequentando por qualquer pessoa. Uma outra iniciativa deste grupo é realizar a caminhada por etapas, um dia por mês, até Santiago. A primeira etapa foi da Branca até S. João da Madeira e a próxima é já este sábado da Sé Catedral do Porto até Vila Chã, estando o transporte a ser assegurado pelo autocarro da junta de freguesia sanjoanense.
Acerca dos caminhos de Santiago, “não tenhamos dúvidas que cada um vai com o seu caminho. A caminhada é um exercício coletivo na organização, nos momentos de convívio. De resto o caminho de santiago é individual”, afirmou Luís Quintino sobre esta que considera ser “uma belíssima atividade, é uma forma de as pessoas se encontrarem consigo”.
A “maior” e “melhor” experiência desta caminhado foi precisamente no dia em que este sanjoanense chegou a Santiago. A missa de domingo de manhã é dedicada aos caminheiros e toda ela é cantada em gregoriano o que levou a que este fosse um momento “absolutamente único”, concluiu Luís Quintino, que desde sempre gostou de canto gregoriano, ao labor.

“A portuguesa voadora”

O “currículo” de caminhadas de Lúcia Pinto é vasto, destacando as três a Santiago de Compostela.
A primeira caminhada foi feita em 2012 com um grupo de pessoas, um carro de apoio e tudo devidamente planeado. O ponto de partida foi de Valença até Santiago. “Caminhávamos até às 14h00, depois almoçávamos e reconhecíamos o espaço”, relembrou Lúcia Pinto. A experiência correu muito bem só que “queria mais. Uma caminhada, uma peregrinação não é assim tão ´soft´. Fiquei desconsolada”, contou a sanjoanense ao labor.
A partir daí, Lúcia Pinto traçou como meta fazer o caminho francês dos caminhos de Santiago. Um percurso que demora cerca de 30 dias. Ela pediu esse mesmo tempo de férias para embarcar nessa aventura em 2014. “Toda a gente achou a ideia maluca”, mas “o caminho é meu, estou preparada, é o meu caminho”, deixou bem claro, na altura, a sanjoanense.
Acabou por fazer o caminho francês, 800 quilómetros, em apenas 21 dias. O ponto de partida foi em Saint Jean Pied de Port, passou pelos Pirenéus e acabou em Espanha. O caminho foi de extremos com “muito calor e muito frio. Muita chuva e granizo. Apanhei uma tempestade muito grande”, recordou Lúcia Pinto ao labor.
Apesar de algumas condições atmosféricas desfavoráveis, “voltava a fazê-lo. Eu adorei, aconselho e recomendo vivamente”, destacou a sanjoanense.
Desta vez, não reservou estadia em albergue, nem tinha carro de apoio.
O caminho ficou marcado pela existência de “muitas aldeias completamente abandonadas” e pelas “muitas horas de silêncio”, recordou Lúcia Pinto, elegendo como pior momento da caminhada quando passou por uma aldeia cujo chão era composto por pedras brancas, redondas, usadas em jardins. Ao caminhar “muito tempo, massacra, queima, os meus pés estavam a assar. Encolhi os pés para caminhar o que acabou por fazer feridas na parte superior dos dedos”, recordou a sanjoanense, confidenciando que este momento foi “um bocado doloroso. Fui muito abaixo. Nunca pensei que ficasse assim”. Pelo caminho encontrou algumas cruzes que simbolizam caminheiros que morreram ao longo dos caminhos de Santiago. Algo que “me impressionou e tocou muito”, explicou Lúcia Pinto.
Uma das curiosidades desta caminhada está no facto de Lúcia Pinto ter feito 53 quilómetros num só dia, acabando por ser apelidada como “A portuguesa voadora” por outra peregrina com quem se cruzou no caminho.
Um outro facto interessante, ao longo do caminho, é que “há medida que nos aproximamos há montes de pedras. Sabe qual é o significado? O caminho tem obstáculos como nós na nossa vida e pegamos numa pedra que simboliza o obstáculo e mentalmente vamos interiorizar que é um fardo que vou tirar da minha vida. Vou deixá-lo aqui e vou seguir mais leve para a frente. Vamos encontrando cada vez mais pedras”, explicou Lúcia Pinto, salientando que a ideia é “chegar lá livre, sem problemas”.
A terceira experiência desta sanjoanense foi fazer o caminho desde Santiago até Muxía e Finisterra novamente sozinha e sem planear a estadia. No primeiro ponto, Muxía, a destacar a existência de um santuário com uma espécie de gruta em que quem conseguir entrar lá de joelhos e dar a volta fica curado de todos os males renais. No segundo ponto, Finisterra, o lugar onde supostamente acaba a terra, é comum os caminheiros queimarem uma peça de roupa que significa “o fim da caminhada e o fim do caminho” e assistirem ao por do sol no quilómetro zero que é “um dos mais belos”, classificou Lúcia Pinto ao labor.
A próxima grande caminhada desta sanjoanense deverá ser a Rota do Pescador entre o Alentejo e o Algarve. O caminho espiritual dos caminhos de Santiago também está na sua lista de caminhadas.

A primeira vez foi “por desporto”, mas a segunda foi “por compromisso”

O sanjoanense António Oliveira desde sempre ouviu falar nos caminhos de Santiago. E se há uns anos lhe dissessem que ia fazer estes caminhos quatro vezes não acreditava. A primeira caminhada foi em grupo, por etapas, ao fim de semana, durante cerca de um ano, desde S. João da Madeira até Santiago em 2014.
A etapa mais difícil foi “sem dúvida a subida da Serra da Labruja depois de Ponte Lima. Dói um bocadinho, mas é reconfortante quando chegamos lá cima”, relatou o sanjoanense ao labor.
A segunda experiência aconteceu em 2016. Desta vez, António Oliveira decidiu ir sozinho e demorou 10 dias debaixo de uma chuva torrencial de S. João da Madeira a Santiago. A primeira vez foi “por desporto”, mas a segunda foi “por compromisso”, revelou o sanjoanense.
A terceira aventura aconteceu com dois amigos também em 2016. O percurso foi de Santiago a Finisterra. A quarta aventura teve lugar no ano passado. António Oliveira decidiu fazer o caminho espiritual dos caminhos de Santiago. Uma parte do caminho é feita de barco e a restante a pé. “Aí foi mesmo à descoberta, não conhecia nada”, confessou o sanjoanense que sempre que chega à Praza do Obradoiro, em frente à Catedral de Santiago de Compostela, onde todos os caminhos de Santiago vão dar, “arrepio-me todo”. As viagens de António Oliveira, à semelhança de Lúcia Pinto, também não são planeadas em termos de alojamento nem de outros apoios.
Um dos aspetos que surpreendeu este sanjoanense foi a “atenção das pessoas durante o caminho”, contando que num dos casos pararam o carro para oferecer comida ou qualquer outra coisa que precisassem e noutro a senhora ofereceu fruta e convidou a visitarem a igreja da determinada aldeia. Como forma de retribuir estes pequenos, mas grandes, gestos, António Oliveira oferece pequenas peças de artesanato feitas por si. Um dos exemplos são sapatos que estão ligados à indústria sanjoanense. Já aconteceu assumir o papel de dar informações e prestar apoio a peregrinos que passam por S. João da Madeira, aproveitando para dar uma dessas peças de artesanato que são uma parte de si, mas também da cidade.
A experiência dos caminhos de Santigo é algo que “aconselho completamente a quem tiver disponibilidade para caminhar a seu ritmo”. “É uma terapia para mim”, concluiu António Oliveira ao labor.

Sabia que…
A concha é um dos símbolos dos caminhos de Santiago.
Por norma, todos os caminheiros costumam ter uma ou mais conchas atadas às mochilas de caminhada.
A Credencial do Peregrino é um documento que identifica o caminheiro, onde começou a peregrinação, para onde quer ir, qual o meio usado (a pé, de bicicleta ou a cavalo) e com espaço para a certificação de selos recolhidos ao longos dos pontos de paragem da caminhada.
Por norma, os caminheiros têm uma credencial por cada caminhada.
Os peregrinos que completem um ou mais caminhos de Santiago têm direito a um certificado/diploma que atesta a realização dos mesmos.

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