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“Era preciso o 25 de Abril. Já não se aguentava mais com a guerra lá fora com muitos mortos e feridos. Já ninguém aguentava aquilo”, afirmou Benjamim Maia, um dos sanjoanenses destacados para a Guerra do Ultramar

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43.º Aniversário da Revolução dos Cravos

Companhia de Caçadores 402
FOTO: Direitos Reservados
Batalhão de Caçadores 405
FOTO: Direitos Reservados
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“Era preciso o 25 de Abril. Já não se aguentava mais com a guerra lá fora com muitos mortos e feridos. Já ninguém aguentava aquilo”, afirmou Benjamim Maia, um dos sanjoanenses destacados para a Guerra do Ultramar

A Revolução dos Cravos realizou-se no dia 25 de abril de 1974 em Portugal. O 25 de Abril celebra precisamente 43 anos este ano e decidimos conversar com três sanjoanenses que estiveram na Guerra do Ultramar.
Um deles é Benjamim Maia, de 65 anos, contabilista. O sanjoanense foi destacado em março de 1972 para a Guiné e regressou em junho de 1974 a Portugal.
Benjamim Maia pertencia à Companhia 3545, cujo emblema era um abutre, eram “Os Abutres”, e quando soube da notícia estava na Guiné. A notícia sobre o golpe de estado a 25 de abril em Portugal criou “uma incerteza” e “um certo receio”, recordou Benjamim Maia ao labor.
O sanjoanense estava na base de Piche, na Guiné-Bissau, e a maioria das recordações não são boas. “Vi morrer muita gente”, disse parcamente o sanjoanense que era um dos enfermeiros da companhia.
A tropa e a guerra tiveram como aspetos positivos “o ensinar a ser homem, a camaradagem, amigos eram mesmo amigos não havia interesses, mas também nos mostrou o bom e o mau do ser humano”, revelou Benjamim Maia, deixando a certeza de que não deixaria um filho seu ir para lá e passar o que ele e muitos outros passaram. A experiência vivenciada na guerra é marcada por misto de emoções. “Passei lá os melhores e os piores momentos da minha vida”, confessou o sanjoanense ao labor.
Olhando para trás, para a Revolução dos Cravos, “era preciso o 25 de Abril. Já não se aguentava mais com a guerra lá fora com muitos mortos e feridos. Já ninguém aguentava aquilo”, afirmou Benjamim Maia, considerando que “estamos melhor do que estávamos”.
As principais diferenças estão relacionadas com o desenvolvimento do país a nível de educação, saúde e acesso aos mercados.
Já Carlos Alberto Santos, natural de Fornos de Algodres, Guarda, depois de servir de março de 1963 a 24 de junho em 1965 no 4.º Pelotão da companhia de caçadores 402 em Ponta Mahone, Moçambique, ficou lá a trabalhar na função pública até 1977. Quando voltou ao seu país conseguiu continuar a trabalhar na função pública na Câmara Municipal de S. João da Madeira.
As principais diferenças antes e depois do 25 de abril foram sentidas em “tudo”, disse Carlos Santos. Desde construções em betão, novas ligações em alcatrão e “tudo mais desenvolvido”, disse ao labor.
O alojamento foi a única coisa que sentiu que não melhorou em Portugal. Uma dificuldade sentida na própria pele de Carlos Santos, e da esposa, que só conseguiu arranjar uma casa em 1983. Até lá estiveram a viver num local improvisado, confidenciou Carlos Santos sobre este que foi o “período mais difícil” que viveu quando regressou a Portugal.
A experiência na tropa e na guerra ensinou “muita coisa” como condições de sobrevivência para os locais onde poderiam ser destacados, confirmou Carlos Santos ao labor.
“Por vezes, penetrávamos o mato para lá daquilo que era a obrigação da minha companhia para fazermos a ação psicossocial” que era nada mais nada menos do que “irmos no jipe com um médico, um enfermeiro e muitos medicamentos ao encontro das aldeias dos naturais”, recordou Carlos Santos. Também entregavam comida e roupas à população.
A companhia de Carlos Santos estava em Ponta Mahone a defender os canhões e o armazenamento do paiol (onde estava tudo que é militar). "Nunca tivemos qualquer problema vindo do exterior, havia sempre receio, mas foi tranquilo”, confidenciou este que se considera um sanjoanense ao labor.

Sanjoanenses que morreram no Ultramar deviam ter memorial na cidade

O 25 de Abril foi “a maior alegria da minha vida, tirando os meus filhos,” mas, mais tarde, “considero uma frustração”, começou por dizer Abel Aguiar ao labor.
E porquê? “Esperava muito mais. Vi que as pessoas não entenderam bem a intenção: democratizar, desenvolver e descolonizar”, respondeu o sanjoanense.
“A descolonização foi aquilo que foi possível. O democratizar continuo a ter muitas duvidas porque os aparelhos partidários de maneira geral não são democráticos”. Apenas “houve desenvolvimento” em diversas áreas, considerou Abel Aguiar ao labor.
Uma das suas desilusões é não existir um memorial, um monumento, qualquer símbolo de homenagem aos sanjoanenses que morreram na Guerra do Ultramar em S. João da Madeira.
Abel Aguiar tem 74 anos, trabalhou como cortador e tornou-se empresário ligado ao calçado. O sanjoanense foi rádio telegrafista integrado no batalhão de caçadores 605 com base em Ribaué, distrito de Nampula, em Moçambique. O embarque foi em março de 1964 e o regresso em junho de 1966.
“Enquanto telegrafista estive sempre na linha da frente porque tínhamos de comunicar por rádio todos os acontecimentos que iam surgindo”, contou Abel Aguiar, continuando, “estivemos em zonas de guerra verdadeira”.
De tudo isto só disse “podia ter uma dúzia de filhos que mais nenhum dos meus ia para lá. Teria de os colocar fora do país”, assumiu sem problemas o sanjoanense que se soubesse o que iria passar também não teria ido.
As coisas positivas são “a amizade com os meus colegas. Nós ali somos mais que família”. Já as coisas más são as “marcas” que muitas vezes “roubam-nos anos de vida”, confessou Abel Aguiar ao labor.

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