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Avance “Se Manel!”

FOTO: Direitos Reservados
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Manuel chegava na sua carrinha de caixa aberta às 18h30, hora marcada com o Eng. Matos, para ver o estado do mato e dar o orçamento combinado.
Olhou em redor o terreno pleno de arbustos e austrálias que invadiam o que outrora tinha sido o começo de um carvalhal.
O engenheiro já lá estava encostado a um soberbo “Quercus robur”, de mãos nos bolsos e com um sorriso meio triste. Andava angustiado, nos últimos meses, à procura de alguém que fizesse o serviço de limpeza do seu bosque. Sabia que tinha acabado o prazo dado pelo Governo para limpar as florestas e sabia também que as multas eram pesadas.
- Então Sr. Manuel? Que me diz a isto? Inquiriu a medo o engenheiro com sorriso amarelo.
- É um belo mato, sim senhor! -E com muitas austrálias à mistura e tojo para tirar. Respondeu vagarosamente o Manuel.
- Sim, mas não deve dar muito trabalho limpar isto tudo, pois não?
- Ah …senhor engenheiro não é bem assim! Tem aqui muita ranca para cortar e tojo para limpar. E depois é preciso levar todo este “lixo” daqui pra fora. Não posso despejá-lo em qualquer lado, senão ainda levo com multa pesada. O “seor “sabe disso.
O engenheiro esfregou a testa arrepiada e disse:
- Bem, então, quanto me custa limpar todo o terreno?
Manuel respondeu :
- Olhe… isto com dois homens, máquinas, trator com reboque fica sempre a um preço justo…
- Sim mas quanto? Diga lá. Insistiu o engenheiro.
- Ora bem, o serviço à hora com todo o material, fica sempre por 20, 30 ou mesmo 40 euros. E não sei bem o tempo que me leva. Tem aqui muito material para limpar e levar. E pessoal não é fácil arranjar, sabe como é…Ninguém quer vir para aqui.
- Pois pois …mas afinal quanto me fica isto? Insistiu de novo o dono do mato.
- Humm …entre 1.500 e 2.000 euros.
O engenheiro Matos ficou pálido de vez e retorquiu:
- Homem, isso é muito dinheiro! Pró ano está tudo na mesma outra vez. Não tenho posses para gastar isso todos os anos…
Manuel já conhecia aquela resposta de outros serviços que tinha orçamentado e adiantou a proposta que lhe parecia fatal:
- Podemos fazer isto doutra maneira senhor engenheiro, para nenhum de nós ficar mal.
- Corto-lhe tudo! As árvores também. E claro que fico com a madeira. Fica-lhe só por 300 euros.
- O quê? Não vê que aqui estão carvalhos com mais de 30 anos e sobreiros ainda mais antigos. Respondeu, meio indignado, o engenheiro.
- É uma pena cortá-los assim sem mais nem menos. Foi o meu Pai que os plantou…
Era a vez do Manuel sorrir com certa pena do homem:
- É verdade, tem boas árvores aqui, mas os sobreiros e os carvalhos é que me dão o dinheiro para pagar aos homens e ao resto das despesas.
- No fim você fica com tudo isto limpo. Não pensa mais nisso, nem nas multas. Só tem que deitar um herbicida de dois em dois anos. Ou nem isso.
O engenheiro Matos ficou em silêncio. Olhou arrastadamente para o arvoredo que ondulava ao sabor do vento e que lhe parecia estar a observá-lo. Sentia o cantar dos melros que por ali se escondiam atrás das ramagens e sentia aquele aroma fresco que atenuava o cheiro da fábrica de ossos que por vezes inundava a cidade.
Lembrou-se por segundos do seu falecido Pai, parecendo olhá-lo lá no “alto”, vermelho de zangado, mas afastou logo esse pensamento.
Pensava que a lei sobre a limpeza das florestas era para valer, tal era a propaganda das televisões, e as coimas pesadas de que ouvira falar davam-lhe um nó na garganta.
Afinal de contas, em toda a sua vida agiu sempre na legalidade, e tinha receio da denúncia de algum vizinho. O seu rendimento e as suas economias não permitiam mandar limpar aquele seu pequeno bosque anualmente. A propriedade que os seus pais lhe tinham deixado. Tinha que pensar na sua velhice.
Com ar decidido, disparou para o Manuel que esperava uma resposta.
- Avance “Se Manel!” , corte tudo!

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