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Memórias fragmentadas

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No texto publicado na semana passada, intitulado “A fachada”, por necessidade de não transgredir o espaço que gentilmente me é disponibilizado, não me alonguei em demasia com menções à evolução da povoação.
Visitar os espaços onde vivemos a infância ajuda-nos a preservar a memória. Percorrer a casa dos pais, ou mesmo dos avós, permite manter intactas certas recordações, sobretudo quando o espaço físico permanece semelhante ao longo de anos. As memórias individuais, ou familiares, transformam-se em coletivas quando as vivências foram partilhadas em espaço público. Tudo é mais fácil se o espaço continua semelhante. O pior é se tudo é modificado, ou destruído, não ficando vestígios desse passado.
Neste capítulo, as transmissões orais funcionaram, durante anos, como a base da memória de uma povoação. Esta tendência humana, de partilha de lembranças, teve a necessidade de ser documentada para o futuro. Primeiro, através da pintura paisagística ou pela descrição literária, que ajudavam a documentar as recordações. Pode-se incluir neste âmbito os documentos oficiais, caso o escriba tivesse obrigação de fazer algum enquadramento do local.
Tudo mudou com a introdução das fotografias. E da captação de imagens com movimento, os filmes. A divulgação, dos primeiros destes documentos, permitiu à imprensa desempenhar um papel preponderante na perpetuação da memória coletiva ao longo do século XX. As redes sociais, já no presente século, permitiram a partilha de fotos e vídeos pessoais, o que pode ser considerado como o lado mais positivo destas novas formas de sociabilização.
A recolha dos mais variados documentos possibilita entender-se melhor a história de cada povoação. Infelizmente em S. João da Madeira a maioria desses documentos, e mesmo a memória coletiva, concentra-se no desenvolvimento ocorrido ao longo do último século.
Existem menções históricas em documentos medievais, anteriores à independência de Portugal. Mas, a partir daí, ao longo dos vários séculos, todo o evoluir da região de Terras de Santa Maria – do feudalismo até à criação do concelho da Feira no século XVI – permanece nebuloso. Perceber como a estrada real atravessava a paróquia de S. João da Madeira, como se desenvolvia o casario, com os seus ofícios relacionados com madeira e sapatos, são exercícios imaginativos. É certo que a partir da Monarquia liberal, portanto, no século XIX, com a agregação ao novel concelho de Oliveira de Azeméis começa a haver mais informação. Ainda assim, os vestígios que permaneceram para o século XX foram as vastas propriedades agrícolas, entretanto fragmentadas e alguns agrupamentos de casas, em torno de alguns lugares, incluindo igrejas.
Poder-se-ia esperar um espólio mais alargado, com as fotografias e os filmes, para melhor retratar o século passado. No entanto, apesar de existirem várias fotografias e mesmo coleções, a maioria continua no foro privado. Mais concretamente, as várias imagens captadas por Carlos Costa continuam a não estar no acervo municipal. Para os mais novos (em idade ou com menos de tempo de habitação na cidade), é necessário fazer um enquadramento, pois o nome poderá não significar nada. Carlos Costa foi um fotógrafo amador que captou várias cenas do quotidiano sanjoanense, ao longo de várias décadas do século XX. A sua coleção está dispersa pelos seus herdeiros. Como representa um valor inquestionável para a comunidade local, seria de todo o interesse que a câmara municipal o adquirisse para o seu acervo, podendo a partir daqui desenvolver e apetrechar a tal “Casa da Memória”, por exemplo.
No mesmo sentido, existem documentos interessantes associados às casas comerciais que se dedicavam à venda de material fotográfico. Seria um desperdício para a memória coletiva, que todo esse espólio se perdesse, com o encerramento desses estabelecimentos.
Para finalizar a ideia dos exemplos fragmentados, seria igualmente interessante que os documentos, alguns seculares, da paróquia fossem cuidadosamente digitalizados e colocados ao dispor da comunidade.
A autarquia tem um papel preponderante para promover a centralização das memórias dispersas. Nos últimos anos, conseguiu abrir ao público dois museus de cariz industrial. Foi consensual, ao longo da última campanha eleitoral, as propostas para se aproveitar a singularidade nacional da indústria do lápis e associá-la ao espólio dos Encontros Internacionais de Ilustração. Parece-me ser igualmente importante que o património humano da população tenha agora o seu lugar, num espaço próprio e condigno, para preservação da memória coletiva.

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