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Valorizar o meio multicultural da cidade

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Carlota Amado teve honra de primeira página na edição do jornal labor de 12/10. A manchete da entrevista da pianista radicada em Munique não passou despercebida: “Adoro o meio multicultural em que vivo”, foram as palavras destacadas.
Uma frase sintomática para quem escolhe a arte como profissão e tem a oportunidade de viver em cidades com apetência para desenvolver a carreira artística.
Uma frase igualmente exemplificativa da ambição da nova geração de músicos, para quem não chega a oferta de Porto ou de Lisboa, cidades portuguesas com reais possibilidades de um artista exercer a sua atividade de forma mais reconhecida.
Uma frase que pode servir de mote para um programa autárquico, atendendo ao novo ciclo que agora se inicia.
“Valorizar o meio multicultural da cidade”, é um imperativo para dar consequência aos investimentos municipais dos últimos dez anos, em equipamentos culturais.
Os programas eleitorais, dos partidos representados no novo executivo municipal, focaram-se na difusão de agentes culturais, quer através da expansão do festival de teatro a outras empresas em laboração em S. João da Madeira, quer alargando a participação a várias iniciativas aos moradores dos bairros sociais da cidade, no sentido de promover a inclusão social através de atividades culturais. A ampliação previa-se numa determinada proposta eleitoral, na qual participei na elaboração, passaria também por envolver os artistas individuais da comunidade, integrando-os nas várias iniciativas culturais, existentes no calendário da cidade.
Independentemente da boa vontade das propostas eleitorais, existe uma realidade educativa que não mereceu a devida atenção por parte dos proponentes políticos.
Trata-se do ensino articulado de música ou de dança, que funciona até ao 9º ano e não tem algum tipo de consequência na comunidade. Ou pelo menos, não é visível.
Existem duas fases. Uma primeira agrega os jovens estudantes do 5º ao 9º ano. Havendo jovens de concelhos vizinhos que optam por fazer os seus estudos de primeiro contacto com estas artes na cidade. No final do ciclo de ensino, a tal segunda fase, apenas uma minoria prossegue com o estudo artístico. Alguns como complemento aos estudos curriculares, permanecem ligados às instituições de ensino artístico da cidade e outros que pretendem o estudo de artes de forma mais intensa recorrem a escolas profissionais, ou a escolas com ensino integrado, em outras localidades. Pode-se dar como exemplo, a nível de música escolas da Branca, Espinho, Paços de Brandão, Aveiro e Porto e a nível de dança, Branca e Vila Nova de Gaia.
Existem duas constatações perante estes movimentos: quem é de fora do concelho, raramente fica com ligação a S. João da Madeira e por outro lado, quem sai para prosseguir os seus estudos artísticos, fica apenas com uma ligação afetiva à cidade, o que não sendo pouco, não é suficiente.
Contrariar isto não é fácil.
Não estando eu ligado a qualquer estabelecimento de ensino, nem instituição cultural, nem associação cultural, posso apenas iniciar um debate, escrevendo a minha perspetiva sobre o assunto, baseando-me na minha experiência de encarregado de educação, tendo precisamente dois educandos relacionados com artes.
No meu ponto de vista, uma forma de manter o contacto dos jovens artistas com a cidade é dar-lhes a oportunidade de continuar a praticar a sua arte em S. João da Madeira. Através da constituição de orquestras, companhias de dança e até de teatro, consegue-se agarrar os jovens à cidade, melhorando o nível qualitativo das propostas culturais. Obviamente que o modelo de Associação é meu preferido, tendo sempre como referência o Coro de Câmara de S. João da Madeira. (Para não confundir ninguém, a ideia é direcionada para jovens, para fazer a captação de talentos em anos de ensino obrigatório, ou nos anos seguintes e não para criar companhias profissionais.)
Por outro lado, o ensino artístico no secundário devia ser uma realidade. Aproveitando-se todo o potencial da cidade com salas de espetáculo, museus, incubadoras de criatividade, pode ser um argumento competitivo para fixar temporariamente jovens estudantes na cidade, trazendo dos concelhos vizinhos outros interessados. A solução pode ser cursos profissionais, não esquecendo que existem escolas devolutas no concelho, caso o argumento das infraestruturas venha a debate.
É uma perspetiva que faz a ligação da educação com a cultura, servindo como fator dinamizador na melhoria das competências da população.
Esta valorização do meio multicultural, alicerçada em jovens, não evitará a saída dos mesmos para os grandes centros culturais nacionais, nem muito menos para qualquer cidade do estrangeiro. Mas, deixará marcas, mantendo os jovens ligados por muitos bons anos ao concelho, colocando-os como fundamentais em toda uma política cultural que, atendendo ao potencial físico, precisa de ser diferenciadora.

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